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Questão ética

Quando o real se aproxima da ficção

No início, as imagens do terremoto no Japão chocam pelo ineditismo e pelo horror das cenas. Mas o excesso de imagens não provocaria um efeito anestésico em quem acompanha o evento de longe?

As cenas das ondas invadindo as cidades japonesas e de carros no alto de edifícios chocam por parecerem "coisa de cinema" | Reuters
As cenas das ondas invadindo as cidades japonesas e de carros no alto de edifícios chocam por parecerem "coisa de cinema" (Foto: Reuters)
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Usina nuclear de Fukushima: torna-se fundamental a reflexão sobre o uso das imagens |

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Usina nuclear de Fukushima: torna-se fundamental a reflexão sobre o uso das imagens

As imagens de ondas devastando cidades "nos inundam, são imagens do horror, algo que quando você vê, salta da cadeira", descreve Fernão Ramos, professor titular do Departamento de Cinema do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Parece um filme", é um comentário comum entre quem vê fotografias e vídeos da catástrofe japonesa. Mas se tratam, obviamente, de situações reais. Então, que reações elas são capazes de provocar nas pessoas sentadas no sofá da sala ou diante do computador para além da estupefação?

Para Ana Paula da Rosa, elas chocam, mobilizam, afetam, mas não resultam em mudanças de postura. Ela dá como exemplo os deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, em janeiro passado, quando morreram centenas de pessoas. "Muito se falou, no calor da hora, na dificuldade brasileira de prever os desastres naturais, porém, passados alguns meses do ocorrido, o assunto perdeu destaque na mídia. Temos uma memória curta, ou seja, aquilo que não está sob os holofotes deixa de ser importante até que um novo fato se torne imagem", lembra.

As cenas de devastação, seja em Nova Friburgo ou no Japão, repetidas pela mídia ao limite do insuportável, acabam perdendo sua força. É como escreveu a ensaísta Susant Sontag no livro Sobre Fotografia, de 1973: "As imagens paralisam. As imagens anestesiam. Um evento conhecido por meio de fotos certamente se torna mais real do que seria se a pessoa jamais tivesse visto as fotos – pensem na Guerra do Vietnã. (...) Mas, após uma repetida exposição a imagens, o evento se torna menos real".

Tais processos de manipulação da imagem levam estudiosos da área da Comunicação Social a atentar para a necessidade, cada vez mais premente, de uma discussão ética sobre os seus usos. "Explicar a imagem com legendas está longe de esgotar sua intensidade, mas é necessário compreender os tipos de exploração que se faz dela", diz Fernão Ramos, lembrando, por exemplo, da catarse coletiva promovida pela mídia ao repetir ad nauseam o acidente que matou o piloto brasileiro Ayrton Senna em 1994.

"Ver é muito diferente de fazer, mas há uma função importante em mostrar as imagens que é a de informar sobre. Defendo um preparo para interpretar as imagens como textos geradores de sentido e não apenas como 'guloseimas para os olhos' como já afirmou Ignácio Ramonet", diz Ana Rosa.

Para a professora, "a ânsia jornalística e dos atores individuais (pessoas de modo geral) em mostrar tudo, acaba por não nos permitir interpretar essas imagens, pensar com clareza sobre elas. Elas nos chegam tão avassaladoras como o próprio tsunami, só que atingem nossos olhos".

Ela frisa que a anestesia, na verdade, está na perda gradativa da nossa capacidade de perceber ao redor. "Quantas famílias ficam desalojadas, presas em suas casas em virtude das enchentes em Curitiba e região e o quê, de fato, fazemos por elas? Contudo, se uma campanha, cercada de imagens, é realizada via televisão acabamos nos mobilizando", diz, referindo-se a uma "crise de visibilidade", em que somente o que é transformado em imagem é visto, percebido. Basta pensar que o tsunami que matou milhares de pessoas na Indonésia e em outros países no Oceano Índico , em 2004, um país mais pobre e, portanto, sem tanto acesso a tecnologia, não teve o mesmo grau de reprodução de imagens ocorrida agora, com o terremoto no Japão.

A exibição incessante de imagens trágicas como a do Japão não seria uma exploração da curiosidade mórbida das pessoas? "Há certo limite na reprodução das imagens para que elas não gerem um efeito de obscenidade. Mas, aí, surge a questão: o que se pode reproduzir e o que não?", questiona Fernão Ramos.

"O desejo de ver a dor do outro parece acompanhar o jornalismo. Veja os inúmeros programas que se focam apenas em noticiar as tragédias, os detalhes do assassinato ou do acidente. A discussão ética se refere ao que fazemos com essas imagens. Quando as imagens invadem nossas casas via internet, em listas de e-mails ou pelos televisores, elas expõem a dor do outro, mas para quê?", analisa Ana Rosa, que acha necessário criar mecanismos para que as imagens, "para além de explorar o horror, sirvam essencialmente para fazer ver e não para se tornarem biombos".

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