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Super-herói

O verdadeiro amigo da vizinhança

  • Guga Azevedo, especial para a Gazeta do Povo
Versão do super-herói Gralha desenhada  por Nilson Müller para a capa da revista Metal Pesado comemorativa aos 15 anos da Gibiteca de Curitiba, em 1997 |
Versão do super-herói Gralha desenhada por Nilson Müller para a capa da revista Metal Pesado comemorativa aos 15 anos da Gibiteca de Curitiba, em 1997
 
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TOPO

A edição do Festival de Teatro em 2005 contou com uma inusitada surpresa. O primeiro e legítimo super-herói curitibano de quadrinhos ganhava vida fora dos desenhos e subia aos palcos na peça O Gralha: Curitiba Cidade do Pecado. O enredo seguia à risca as ideias e os dilemas do jovem Gustavo Gomes, identidade secreta do Gralha. O diretor Edson Bueno, junto com o desenhista e um dos criadores do personagem, José Aguiar, levaram ao grande público do festival um pouco do sarcasmo e cinismo que esbanjava em suas histórias. O caminho não poderia ser outro, já que os próprios criadores do personagem não acreditavam que um super-herói brasileiro conseguisse dar certo. Ainda mais curitibano.

O caso do Gralha seria uma exceção. Além da peça de teatro, ele invadiu as telas da cidade, com dois curtas-metragens premiados. O Ovo ou a Galinha – Uma Aventura do Gralha, lançado em 2003 e, no ano seguinte, O Gralha e o Oil Man – Um Encontro Explosivo, ambos dirigidos por Tako X. Mesmo quem nunca leu uma das tiras do personagem publicadas pela Gazeta do Povo ou assistiu a alguma dessas produções pode imaginar, a partir dos títulos da peça de teatro e dos filmes, qual é o perfil do personagem.

Imagine as infinitas possibilidades de brincar com a realidade em que vivemos. Isso é tema recorrente na tradição das HQs, com personagens fantásticos lutando em cenários que conhecemos – ou que temos certeza de que existem. Não é tão difícil imaginar uma batalha pelos prédios de Nova York, com sobras de teias do Homem-Aranha utilizadas para tentar derrubar o Duende Verde. Agora, imagine a possibilidade de transportar essa sensação para nossa realidade. Consegue imaginar? Antes de responder a essa pergunta, você acredita na criação e sucesso de um super-herói brasileiro?

Pois é, todas essas possibilidades se mostraram bem viáveis no final da década de 1990. Alessandro Dutra, Gian Danton, José Aguiar, Antônio Eder, Luciano Lagares, Tako X, Edson Kohatsu e Augusto Freitas assumiram a paternidade deste que se tornou um dos principais super-heróis brasileiros e legitimamente paranaense. O Gralha surgiu em 1997 e estreou na edição especial da revista Metal Pesado, uma comemoração pelo aniversário de quinze anos da Gibiteca de Curitiba.

Reza a lenda que a criação do personagem foi uma homenagem ao lendário herói curitibano Capitão Gralha, que contou com quatro revistas publicadas na década de 1940 pelo desconhecido desenhista Francisco Iwerten. Assim, o “novo” Gralha se tornou um dos poucos super-heróis nacionais que atingiu um relativo sucesso de crítica e público. O grande mérito do “bicudo” foi servir como uma espécie de portfólio das principais produções locais para o resto do país. Ou um laboratório livre para experimentar novos caminhos da arte sequencial. Curitiba voltava a ficar entre os balões das discussões de quadrinhos brasileiros.

O Gralha vivia em uma gigantesca e futurística Curitiba. A cidade atingiu proporções tão grandes que se tornou uma megalópole que ocupava todo o estado do Paraná. Assim como a cidade foi se desenvolvendo, os legítimos costumes curitibanos também. E o personagem central, que tinha tudo para ser uma espécie de “exemplo social”, “o ser perfeito”, “protetor dos fracos e oprimidos” era, na verdade, um grande debochado. Tanto em sua vida quanto em relação aos costumes da cidade.

Foi logo após o lançamento de Metal Pesado que surgiu o convite para a publicação de suas tiras pela Gazeta do Povo, entre 1998 e 2000. O primeiro ano contou com a colaboração dos oito artistas envolvidos, e a constante possibilidade de esbarrar com um Gralha sério e musculoso ou adolescente e cínico de uma tira para a outra. No ano seguinte, ele ficou sob o comando de José Aguiar e Antônio Eder e a reunião dessas tiras foi publicada como um livro de circulação nacional pela Via Lettera Editora.

Futuro do futuro

“Para mim, acabou. O que eu tinha que dar para o Gralha já foi dado. Mas eu tenho um carinho enorme por ele. Um personagem que é lembrado até hoje, mais de uma década depois de sua criação, que mexeu com o imaginário local e ganhou relevância nacional com ideias radicais. Foi meio inconsciente, mas muito importante para meu amadurecimento. Só que eu não quero ficar estagnado”, revela José Aguiar, deixando clara sua vontade de continuar produzindo e experimentando outros limites dos quadrinhos, mas o Gralha virou história.

Ele não está sozinho. Antônio Eder conta que “pode-se-fazer-qualquer-coisa-porque-ele-é-legal”. “Qualquer um pega o Gralha e faz um desenho para colocar no portfólio. Ou transforma em uma tese de pós-graduação e direciona para algo que não tem nada a ver. Tem uns que querem transformar em longa-metragem de ação livre, ou fazer uma animação. Tentam negociar o personagem para ser garoto-propaganda de lápis de cor e assim vai indo… Todo mundo metendo a mão no Gralha, lógico, sem autorização. É um case interessante de que criação coletiva pode resultar em muita dor de cabeça”, finaliza Eder.

Uma pena, mas é compreensível. Os leitores que viveram esse período carregam a boa sensação de saber que poderiam contar com a ajuda imaginária de um super-herói local. Porém, ainda existe uma esperança. “Eu incentivo que o personagem continue, mas pelas mãos de outra pessoa”, diz Aguiar. Será que o Gralha volta?

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