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História

“Polaco ou polonês?”, uma questão delicada

O jornalista e doutor em Cultura Internacional Ulisses Iarochinski provoca polêmica com livro que defende o uso de termo considerado pejorativo

  • Marcio Renato dos Santos
Iarochinski: repreeendido em público por usar a palavra “polaco” |
Iarochinski: repreeendido em público por usar a palavra “polaco”
 
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Ulisses Iarochinski entrou em uma briga de ripa. Desde que co­­meçou a defender o uso da palavra polaco, ao invés de polonês, passou a conquistar desafetos. Mas o jornalista e pesquisador não perde o sono. Fala sobre o assunto com conhecimento de causa. Passou oito anos na Polônia, onde concluiu programas de mestrado e doutorado, além de aprimoramento na língua dos seus ancestrais.

De volta a Curitiba, onde trabalhou por anos como jornalista, Iarochinski acaba de lançar Polaco – Identidade Cultural do Brasileiro Descendente de Imigrantes da Polônia, adaptação de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Iaguielônia, de Cracóvia. Nem a chuva, torrencial, impediu que centenas de pessoas fossem dar um abraço no autor, na noite de 24 de novembro, quando o autor lançou seu livro no Centro Paranaense de Cultura.

Mas isso nem sempre acontece.

Iarochinski já passou apuros em sessões de lançamento de seu livro anterior, Saga dos Polacos. Em Erechim (RS), estava autografando um exemplar quando um sujeito chegou até ele, apertou o seu braço e disse: “Aqui não tem polaco, só polonês.” A mesma situação praticamente se repetiu em São Paulo, em outra sessão de lançamento. Um homem, de mais de 50 anos, apertou o braço do autor e gritou: “Você é burro! Aqui não tem polaco, só polonês.”

O autor da Saga dos Polacos quis saber as razões de tanto ressentimento em relação a uma mera palavra. A partir desse impulso, viajou à Polônia. Durante a temporada de pesquisa, decifrou o mistério. No fim do século 19 e no início do 20, um grupo mafioso judeu, chamado Tzvi Migdal, ou Zvi Migdal, realizava tráfico de mulheres brancas, da Europa para a América do Sul. Elas acabavam trabalhando como prostitutas, principalmente no Rio de Janeiro e em Buenos Aires e, como eram loiras e de olhos claros, passaram a ser chamadas de polacas – apesar de não serem nascidas na Polônia.

A comunidade polaca brasileira, em alguma medida, se incomodou. Em 1927, no Consulado Geral da Polônia em Curitiba, foi decidido que a expressão polaco seria banida do vocabulário. A partir de então, ficou combinado chamar de poloneses os nascidos na Polônia, bem como os seus descendentes.

Desde o fim da década de 1920, não apenas no Paraná, mas em todo o Brasil, uma guerra sutil e silenciosa está em andamento. De um lado, estão aqueles que lutam pelo uso da expressão polonês. Do outro, gente como poeta Thadeu Wojciechowski e o jornalista Iarochisnki, que defendem, bravamente, a palavra polaco.

“É um equívoco usar a expressão polonês apenas por causa da presença de prostitutas europeias no Brasil, que nem eram da Polônia. Faço questão de afirmar, falar e usar apenas o termo polaco”, diz Iarochinski.

O jornalista estava em Cracóvia no dia 2 de abril de 2005, quando Karol Józef Wojtyla, o Papa João Paulo II, morreu. Imediatamente, foi solicitado para fazer comentários para emissoras de rádios e produzir reportagens para jornais brasileiros. Toda vez que falava ao vivo, ou redigia os textos, usava a expressão polaco, para se referir ao Papa nascido na Polônia. Brasileiros de todas as regiões reagiam, pedindo para que o papa fosse chamado de polonês.

Como se percebe, essa batalha linguística está longe de um fim, e Iarochinski pretende lutar pela sua causa.

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