Na primeira década do novo milênio, a diplomacia não avançou muito em três problemas cruciais da política internacional: terrorismo, proliferação de novos poderes nucleares e a democratização da tomada de decisões internacionais. Há alguma possibilidade realista de achar soluções razoáveis para esses três ordens de desafios neste início de segunda década?
O Ocidente parece desnorteado desde que as redes terroristas conseguiram atingir o território dos Estados Unidos. Pior, os resultados da "guerra global ao terror" foram pífios, a julgar pelos fracassos norte-americanos no combate ao terrorismo em países como Afeganistão e Paquistão. O mais paradoxal desse insucesso foi que ele estimulou o surgimento do terrorismo onde antes não existia, como nos casos de Iraque e Paquistão.
O terrorismo geralmente está incubado em Estados com sérios problemas socioeconômicos e ausência de autoridade estatal. O principal desafio diplomático dessa nova década será convencer os países que abrigam, e de alguma maneira alimentam o fenômeno, a deixarem de ser o habitat das redes. Em troca não se pode oferecer a essas nações uma diplomacia coercitiva (como os já famosos e ineficientes embargos de qualquer tipo). É necessário oferecer ajuda efetiva ao desenvolvimento socioeconômico e político, porque a origem do problema está justamente no subdesenvolvimento político e econômico de suas sociedades.
O segundo desafio que encara a diplomacia é a proliferação de poderes nucelares emergentes, considerados alguns deles como irresponsáveis e ameaçadores a países ocidentais e alguns de seus aliados, especialmente nos casos da Coreia do Norte e Irã. Aqui a diplomacia tem de dar resposta a uma pergunta: em que condições poderes nucleares deixam de ser ameaçadores? O desafio da diplomacia dos países ocidentais na próxima década não passa tanto por erradicar os programas nucleares desses países, pois talvez já seja tarde para isso, mas por tentar replicar as mesmas condições que no passado fizeram possível que, apesar de seus arsenais nucleares, países como Rússia, China, Índia e Paquistão já não fossem mais vistos como ameaças.
Ou seja, o principal desafio consiste em estimular na Coreia do Norte e no Irã processos internos de democratização e de modernização econômica, sem que por isso os países tenham de renunciar necessariamente à sua forma de organização política. Além disso, a diplomacia não pode promover o isolamento internacional desses Estados, o que os tornaria mais agressivos.
Finalmente, há um desafio da democratização da comunidade internacional. Estruturas de decisão, como o G-8 e o próprio Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas, estão começando a caducar. A emergência do grupo de países em desenvolvimento organizados no chamado G-20, e dos BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia) foi um primeiro grande passo na democratização do sistema internacional. Mais ainda, a recente intervenção de países como o Brasil e a Turquia na formação de acordos no campo nuclear, usando uma desenvolvida e fina diplomacia na forma e no conteúdo, é algo inédito, por ser essa matéria, tradicionalmente, de uso reservado à diplomacia das potências nucleares.
O que isso tudo significa? Algo bastante simples: que a democratização que tem sido difícil de atingir no interior das instituições internacionais (como o CS) está sendo atingida, de fato, fora delas. Ou seja, a diplomacia feita pelo G-8, mais a China, pode bloquear no interior do Conselho de Segurança acordos que não vão ao encontro de seus interesses. O problema é que o grupo vem perdendo poder de veto e de decisão fora dele.
*Rafael Duarte Villa é professor associado do Departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).



