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Memória

Valêncio deixa como legado geração de cineastas

Artistas, intelectuais e familiares lembram generosidade do escritor e cineasta, que morreu na sexta-feira. Obra de Xavier ganhou destaque nacional nos anos 90, mas era cultuada nos circuitos alternativos desde a década de 60

Valêncio Xavier com apetrechos de seu estúdio doméstico. Artista múltiplo marcou o cinema e a literatura marginal brasileira, a ponto de se tornar um cult | Daniel Castelano/Gazeta do Povo
Valêncio Xavier com apetrechos de seu estúdio doméstico. Artista múltiplo marcou o cinema e a literatura marginal brasileira, a ponto de se tornar um cult (Foto: Daniel Castelano/Gazeta do Povo)

O corpo do escritor Valêncio Xavier foi cremado ontem pela manhã depois da cerimônia de despedida feita na Capela Vaticano, próxima ao Cemitério Municipal. A família preferiu não acompanhar o processo de cremação e ainda não sabe o que será feito com as cinzas. Segundo a filha, Ana Cristina Niculitcheff, foi feita a vontade dele.

O autor de O Mez da Gripe foi velado desde as 19 horas de sexta-feira até a manhã de sábado. Além dos familiares, estavam presentes muitos amigos de Valêncio, entre eles cineastas e artistas que fizeram parte da sua vida profissional e pessoal, como os cineastas Elói Pires Ferreira e Beto Carminatti, os jornalistas Bia Moraes e Abonico Smith, os escultores Alfi Vivern e Elvo Benito Damo, o escritor e pesquisador Décio Pignatari e os performers Kátia Horn e Hélio Leites.

Ferreira conviveu com Valêncio por mais de 20 anos e foi seu estagiário na Cinemateca do Museu Guido Viaro. "Ele foi meu professor na faculdade de Jornalismo e me abriu as portas. O seu amor pelo cinema fez dele uma pessoa generosa", comenta. No tempo em que foi diretor do Museu da Imagem e do Som, Valêncio ajudou o cineasta no que pôde. "Era uma ajuda espontânea. Ele me procurou enquanto eu estava no Rio de Janeiro tentando fazer um filme e se propôs a me auxiliar. Era um gozador, irônico e generoso."

Referência para artistas da sua geração, Valêncio nunca deixou de escrever, mesmo depois da doença que o atingiu há cinco anos, o mal de Alzheimer. Carminatti, que o conheceu no final da década de 70, conta que a amizade nasceu quando fez o primeiro curso na Cinemateca, em 1979. "Mantivemos a convivência durante todos esses anos. Ele me pegava com seu fusca para tomarmos café." Durante o convívio com a doença, o escritor continuava a desenhar – na juventude, Xavier chegou a se classificar num Salão Paranaense. "Ele se dedicou bastante a essa atividade nos últimos anos", diz Carminatti.

Com a memória comprometida, Valêncio ficava mais em casa, no Ahú, mas não parava de produzir. Desorganizado, contava com a ajuda de sua mulher Luci, a pessoa com a qual mais convivia. "Ela estava do lado dele todo o tempo. Era a sua referência. Em uma das vezes que o vi no hospital, em péssimo estado de consciência, era apenas a voz dela que ele reconhecia", conta o filho Carlos Niculitcheff. Segundo ele, a família ainda não sabe o que vai fazer com todo o material deixado por Valêncio, como desenhos, fitas e livros. "Talvez doemos para uma universidade."

Valêncio faleceu devido a uma pneumonia. Com 75 anos, ficou internado por mais de 80 dias no Hospital São Lucas.

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