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coronovirus / pandemia| Foto: JONATHAN CAMPOS/GAZETA DO POVO

O fim do lockdown em Curitiba nesta segunda-feira (5), com mudança da bandeira vermelha para laranja, não reduz a preocupação do momento grave da pandemia. Apesar da reabertura do comércio e outras atividades não essenciais, permitida justamente pela queda dos índices de transmissão do coronavírus gerada pelas restrições severas, os hospitais seguem lotados de pacientes com Covid-19. E mesmo com certa estabilidade, os índices de contágio e de mortes ainda estão bem altos.

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Essa é a avaliação tanto da própria Secretaria Municipal de Saúde (SMS) quanto da Comissão de Combate e Enfrentamento da Covid-19 da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que analisa índices crise sanitária de forma independente. Tanto a prefeitura quanto os pesquisadores da UFPR reforçam que se não houver colaboração da população nas medidas preventivas na reabertura a partir desta semana, Curitiba podem ter de voltar ao lockdown.

“Apesar de os números estarem se estabilizando com uma leve tendência de queda, ainda seguem muito altos, tanto de infecções quanto de mortes”, enfatiza Emanuel Maltempi, professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e integrante do Comitê da Pandemia da UFPR.

A redução de dois índices apontam desaceleração da velocidade de contágio do coronavírus, o que embasou a prefeitura a deixar a bandeira vermelha. O primeiro, a taxa R, índice que mede a reprodução do vírus cujo ideal é ficar abaixo de 1. A taxa R chegou a 1,41 em março, ou seja, 100 pessoas eram capazes de transmitir a Covid-19 para outras 141 pessoas. Quinta-feira (1.°), a taxa R caiu para 0,77, quando 100 pessoas eram capazes de transmitir para outras 77. Redução de aproximadamente 45%.

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Já a média móvel de casos em sete dias era de 1.172 infecções em 13 de março, primeiro dia de vigência do lockdown. No último boletim epidemiológico divulgado pela SMS, sábado (3), a média móvel caiu para 813 casos - redução de 30% em 23 dias de proibição de atividades não essenciais. “Nessa última bandeira, a vermelha, a gente precisava esfriar a cidade, que está com 100% de ocupação de UTI”, explicou o médico Alcides Oliveira, diretor do Centro de Epidemiologia da SMS aos vereadores em sessão da Câmara Municipal na última quinta-feira (1.°).

Os hospitais, aliás, seguiram completamente lotados ao longo de todo o lockdown. Em nenhum momento da bandeira vermelha a ocupação das UTIs foi menor do que 95%. Em mais da metade do tempo da bandeira vermelha, 12 dos 23 dias de restrições severas, os leitos intesivos ficaram colapsados, com 100% de ocupação ou mais. No dia em que a bandeira vermelha foi decretada, Curitiba tinha 97% dos leitos de UTI ocupados, índice que se mantém praticamente o mesmo agora na reabertura. Sábado (3), a ocupação de vagas intensivas era de 98%.

Entretanto, de acordo com a Secretaria de Saúde, nos próximos dias é que os hospitais deverão ter um alívio nas internações, quando começa de fato o impacto do lockdown no sistema de saúde.

Outro indicador que preocupa é o grande volume de casos ativos, pessoas capazes de transmitir a doença. No dia em que o lockdown passou a valer, Curitiba tinha 12.655 pessoas infectadas que poderiam contagiar outras pessoas. No último boletim epidemiológico sábado, eram 10.371 casos ativos, queda de 18%, mas cuja quantidade ainda segue muito alta.

A média móvel de mortes também segue alta. Sábado, esse a média dos últimos sete dias era de 35 mortes. "A média de óbitos ainda está alta, mas tenderá a cair nos próximos dias, assim como a ocupação nos hospitais", avalia Oliveira. Porém, o diretor do Centro de Epidemiologia ressalta: "Observar 40 mortes por dia em Curitiba não dá para achar que é normal", argumenta. Ao ao longo dos 23 dias de lockdown, Curitiba teve mais de 40 mortes diárias em seis oportunidades e em apenas uma data registrou menos de 30 mortes.

Como vai ser sem lockdown?

Maltempi considera que o ideal seria o lockdown ser estendido por mais um período, para ter uma certa folga nessa queda dos índices. Mas o pesquisador da UFPR enfatiza que não é o comércio e os prestadores de serviço que agravam a situação da pandemia, mas sim o comportamento da população em geral.

“O problema é o comportamento das pessoas, como, por exemplo, dos clientes que até entram na loja de máscara mas durante a compra tiram e, quando o comerciante pede para usar a máscara corretamente, ficam brabas”, cita o professor da UFPR. “O que precisa mudar são os hábitos das pessoas, de que todos devemos usar máscara o tempo todo, de que não pode aglomerar nas lojas e em nenhum lugar e de que os estabelecimentos têm que seguir estritamente o limite de pessoas em seu interior”, ressalta Maltempi.

Já Oliveira enfatiza que, mesmo com redução nos índices de transmissão após o lockdown, o cenário da pandemia ainda é muito incerto, principalmente pela ação das novas variantes do coronavírus, em especial a P1 do Amazonas, que já se tornou a dominante em Curitiba por ser mais transmissível e atingir uma faixa etária menor de pessoas, adoecendo jovens. Para embasar isso, o diretor do Centro de Epidemiologia afirma que em março Curitiba atingiu o índice mais alto de exames positivos: de 3 mil testes diários feitos pela prefeitura, entre 40% e 45% confirmaram infecção por Covid-19.

“O vírus vem se adaptando para seguir sendo agressivo ao organismo. A forma que teremos para minimizar esse problema é sem dúvida a vacina. Mas até a vacina chegar para todos, temos que manter todas as medidas preventivas. E ainda mesmo depois da vacinação precisaremos manter esses hábitos”, reforça o representante da prefeitura.

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