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Parece até conversa de pescador: tem uma região no Brasil que é a mais avançada do mundo quando se fala de tilápias. Lá o pessoal tira da água três a quatro vezes mais peixes por metro quadrado. E nessas mesmas paragens, apesar da abundância de rios, a produção de alevinos só utiliza 10% da água do sistema convencional, com tecnologia israelense desenvolvida para ambientes desérticos.
Tem mais. Nessas terras, sistemas automatizados fornecem a quantidade exata de ração para crescimento dos peixes e mantêm aeração constante da água; afinal, ao contrário do que possa parecer, o oxigênio faz toda a diferença para o desenvolvimento e a saúde das tilápias.
E tudo isso foi conquistado em apenas 15 anos aproveitando áreas de várzeas subutilizadas e respeitando a legislação ambiental.
Longe de ser história mirabolante de pescador, essa é a realidade da região Oeste do Paraná, hoje o maior hub de produção de peixes do país, que alçou o estado à liderança absoluta do setor, com produção três vezes maior do segundo colocado, São Paulo.
Microchips ajudam a selecionar os melhores genitores
A invenção dessa cadeia produtiva de tilápias está diretamente ligada à Cooperativa Agroindustrial Consolata (Copacol), de Cafelândia (PR), que em 2008 tomou emprestado o protocolo integrado de produção de frangos e suínos. Aplicado à piscicultura, o método resultou num dos maiores polos de cultivo de peixe do mundo, tanto em volume como em recursos tecnológicos.
Até chips são colocados nos melhores peixes da Copacol para controlar linhagens e cruzamentos, e para saber quais serão os "pais escolhidos" das próximas gerações. “Não ficamos devendo nada em relação a outras zonas produtoras. A base de tudo é a genética do início da produção, com alevinos de qualidade. Depois, veio a automação e vieram outras inovações, utilizando as tecnologias mais avançadas em termos de processos industriais”, relata o engenheiro-agrônomo Valter Pitol, presidente da cooperativa.
Pelo sistema integrado, a cooperativa fornece alevinos de genética selecionada, insumos, assistência técnica e orientação de manejo, enquanto o cooperado toca o dia a dia da operação. Depois, a coleta dos peixes é feita pela cooperativa, que compra, processa e comercializa os produtos finais. A cada ano, feitas as contas, as “sobras”, que equivalem ao lucro no sistema cooperativista, são divididas entre os próprios cooperados.

Em produtividade, "não tem ninguém nem perto da gente"
No sistema integrado que a cooperativa transplantou dos frangos para a tilápia, faz toda a diferença o olho do dono dos cooperados, que manejam os peixes nos tanques escavados, orientados pela assistência técnica e por soluções inovadoras das pesquisas financiadas pela cooperativa, em parceria com universidades.
Para o presidente da Associação Brasileira da Aquicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, o grande mérito do cooperativismo foi implantar um “sistema de integração que é o único modelo que proporciona a sustentabilidade para os pequenos produtores”. E com um diferencial de competitividade difícil de igualar. “No Oeste do Paraná, a média de produtividade em viveiros escavados é de 77 toneladas por hectare por ano. Na média mundial, os bons resultados são de 20 e poucas toneladas por ano. Não tem ninguém nem perto da gente”, sublinha Medeiros.
Conhecedor dos modos de produção de outros países, Medeiros assegura que a região no entorno das cooperativas paranaenses abriga hoje a cadeia de tilápia mais tecnológica do mundo. "Hoje você vai num produtor do Oeste do Paraná e no resto do Brasil, ele já tem um sistema automático de controle de oxigênio e temperatura, sistemas autônomos de ligar e desligar ração e aeradores. Ou seja, a inteligência artificial está dentro dos viveiros de piscicultura. A primeira filetadora automática do mundo foi desenvolvida no Brasil, assim como a primeira vacinadora automática. Outros players internacionais se surpreendem, porque isso não faz parte do dia a dia deles", sublinha o médico-veterinário dirigente da Peixe BR.
Atualmente perto de 30% da produção brasileira e 85% da produção paranaense estão concentrados no entorno das cooperativas do Oeste paranaense. E a cadeia segue crescendo a mais de 10% ao ano, o que deve contribuir para uma ambição maior, que é de colocar o país na liderança mundial nos próximos 15 anos, conforme meta da Peixe BR. Ocupando a quarta posição em peixes de cultivo, o Brasil produziu no ano passado pela primeira vez mais de 1 milhão de toneladas, com a tilápia respondendo por cerca de 70% desse volume.
Tilápias cumprem papel estratégico de agregar fonte de renda aos pequenos
A piscicultura da cooperativa com sede no município de Cafelândia reúne atualmente 300 produtores integrados, 930 hectares de lâmina d’água, duas unidades de produção de alevinos e duas unidades industriais de peixes. No ano passado, foram abatidos 58,1 milhões de peixes e produzidas 21,7 mil toneladas de carne.
O peixe está longe de ser a principal atividade da Copacol, respondendo por apenas 6,36% do faturamento bruto, contra 49,66% do frango e 16,63% dos grãos e cereais. Mas tem o papel estratégico de multiplicar a renda por metro quadrado. Mais de 80% dos cooperados detêm menos de 50 hectares, o que faz valer o aproveitamento de cada palmo de chão.
“A cultura (tilápia) criou oportunidade para nossos associados diversificarem a produção e terem mais renda, e, com mais renda, mais qualidade de vida numa região de pequenas e médias propriedades”, sublinha Pitol.

Outras cooperativas apostam no setor
O modelo de integração foi replicado em 2017 pela C.Vale Cooperativa Agroindusrial (Palotina-PR), que rapidamente virou player peso-pesado no setor. O contágio positivo atingiu ainda outras cooperativas, como a Lar Cooperativa Agroindustrial (Medianeira-PR), que acaba de anunciar uma nova rodada de investimentos de R$ 268 milhões para acelerar sua participação no setor. A Coopavel (Cascavel-PR), por sua vez, entrou na disputa há dois anos, após adquirir a operação da antiga Pescados Cascavel, rebatizada como Fripeixe.
A expansão da piscicultura acompanha uma transformação mais ampla do cooperativismo brasileiro. De organizações criadas para reunir produtores e ganhar escala na compra de insumos e comercialização, as cooperativas passaram a controlar grandes cadeias agroindustriais, da produção no campo ao processamento e à venda dos alimentos.
Desempenho reconhecido em ranking dos maiores e melhores
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Vinte cooperativas, dezenove do Paraná, aparecem entre as mil maiores empresas do país no ranking Valor 1000 de 2026. Juntas, somaram cerca de R$ 158,7 bilhões em receita líquida em 2025.
Numa comparação direta, Coamo, Lar e C.Vale, por exemplo, faturaram mais, cada uma, do que as companhias aéreas como a Gol e a Azul, do que o Grupo Pão de Açúcar, do que a Klabin e as Organizações Globo, só para ficar em alguns exemplos. A Copacol, por sua vez, fatura mais do que grandes empresas como o McDonald’s Brasil, MRV e Arezzo. Com a diferença de que, no cooperativismo, o próprio modelo de distribuição de resultados favorece que a maior parte da renda seja reinvestida na própria região de origem, impactando o comércio e o serviço locais.




