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Crise institucional

Patrocínios, contratos e festas: o que se sabe sobre a relação de Vorcaro com ministros do STF

DIA HISTÓRICO
Metade dos ministros do STF já apareceu em interlocuções relacionadas a Vorcaro e o Master. (Foto: Andressa Anholete)

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A crise institucional provocada pelas relações de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou uma dimensão ainda maior depois que informações extraídas do celular do ex-banqueiro passaram a revelar uma rede de contatos que pode alcançar metade dos integrantes da Corte, familiares de magistrados, além de autoridades de diferentes Poderes da República.

No que diz respeito aos ministros do STF, o material traz mensagens, encontros, contratos de advocacia, participação em eventos reservados e de luxo bancados pelo Master, viagens e relações envolvendo os membros da Corte e familiares.

A quantidade de conexões tornou o conteúdo do celular de Vorcaro uma das peças centrais da crise que atinge o STF. O material periciado do aparelho - apreendido ainda em novembro do ano passado - agora está em posse de mais de um magistrado da Corte, indicando que muito ainda está por vir. Confira abaixo o que já se sabe sobre as relações de Vorcaro com os membros do Supremo.

O que se sabe sobre Moraes, Vorcaro e o Banco Master

Além das mensagens, a suposta relação entre Moraes e Vorcaro envolve um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, pertencente à família do ministro.

A questão passou a integrar a discussão porque o escritório da família de Moraes mantinha uma relação profissional de grande valor com uma instituição controlada por Vorcaro enquanto o ex-banqueiro também aparecia em mensagens dirigidas ao ministro.

Moraes afirmou que as informações divulgadas foram distorcidas e classificou a tentativa de investigação como ilegal. A PGR chegou a pedir a anulação do relatório da PF, argumentando que Mendonça teria determinado o aprofundamento da apuração sem a autorização prévia do plenário. 

O escritório Barci de Moraes confirmou ter firmado um contrato com o Master, mas afirmou que não houve defesa feita no STF. Por outro lado, informações dos metadados extraídos do contrato indicariam que a última alteração do documento teria sido feita com login atribuído a Alexandre de Moraes. O escritório sustenta que houve apenas uma análise para verificar se havia conflito de interesses com a prestação de serviços, o que, segundo a empresa, não ocorreu.

Gilmar Mendes e os eventos do Master

A relação de Vorcaro com os membros do STF não se resume a Moraes. O Banco Master foi patrocinador de eventos jurídicos e empresariais frequentados por integrantes da cúpula do Judiciário. Entre eles estariam patrocínios a eventos realizados em cidades como Nova York, Paris, Londres, Rio de Janeiro e Lisboa, com participação de ministros do STF, entre eles Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e de ex-ministros da Corte, como Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski.

Também há informações de que o banco custeou despesas relacionadas a eventos paralelos a fóruns jurídicos organizados pelo instituto ligado a Gilmar Mendes, incluindo viagens de autoridades com experiências únicas, degustação de uísques e charutos.

Além disso, em 2025, Vorcaro chegou a procurar o escritório onde atuava a advogada Guiomar Feitosa, então esposa de Gilmar Mendes, com interesse em contratá-la para sua defesa. Segundo relatos da própria advogada, as tratativas não avançaram porque Vorcaro não apresentou os documentos solicitados para a avaliação técnica dos casos.

Toffoli e o resort de luxo no Paraná

Dias Toffoli também aparece no caso por causa de uma relação patrimonial que forçou o ministro a declarar suspeição em julgamentos relacionados ao Banco Master.

A família de Toffoli foi proprietária de um resort de luxo no Paraná que foi vendido a um fundo de investimentos ligado ao Master e a Vorcaro. O ministro se declarou impedido de participar de julgamentos relacionados ao caso Master depois que essas informações vieram a público, sob forte pressão, dentro e fora do tribunal. Toffoli chegou a ser o relator do caso Master, mas deixou a relatoria após a amplitude das proporções do caso.

A reunião entre Mendonça e Vorcaro e a suspeita levantada por Dino

O então relator do Master, André Mendonça – que deixou a relatoria na última semana quando o caso ficou sob responsabilidade do presidente da Corte, Edson Fachin -, é outro ministro que aparece nas supostas ligações com o ex-banqueiro.

O ministro confirmou que recebeu Vorcaro em março de 2025. A explicação apresentada por Mendonça foi de que o encontro teve caráter institucional e tratou de questões relacionadas a créditos de precatórios de interesse do Master, antes de ele ser relator do caso.

A reunião passou a ser questionada porque teria ocorrido na véspera de Mendonça pedir vista em um processo relacionado ao setor funerário de São Paulo, onde um fundo ligado a Vorcaro também mantinha negócios. O tema é alvo de uma ADPF relatada por Flávio Dino no STF desde 2024. Posteriormente, Mendonça teria apresentado voto divergente em relação a uma medida cautelar que atingia empresas do setor funerário.

Nesta semana, um despacho de Dino pediu apuração de possíveis conexões entre os episódios e destacou a existência dessa sequência temporal e questionando se houve influência externa sobre a decisão judicial.

Os supostos pagamentos ao filho de Kassio Nunes Marques

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro também mencionariam Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques. No celular do ex-banqueiro havia referências a pagamentos mensais de R$ 500 mil à empresa ligada ao filho do ministro e a interesses relacionados ao Master.

Kevin Marques e o ministro Kassio negaram irregularidades. Nunes Marques disse que jamais atuou em julgamentos que pudessem beneficiar o Master.

A defesa de Kevin Marques afirmou que ele recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária pela prestação de serviços jurídicos tributários, e negou relação profissional com o Banco Master ou recebimento direto de Vorcaro.

O episódio, porém, teve consequência institucional. Nunes Marques se declarou impedido de participar do julgamento que tratava da possibilidade de investigação de Moraes. Como o ministro Flávio Dino pediu vista do processo em questão, ainda não há data para que seja realizada uma nova sessão. 

Vorcaro e o filho de Luiz Fux

Outra frente diz respeito a menções a Rodrigo Fux, filho do ministro do STF Luiz Fux. Mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro indicariam uma suposta ligação e relação próxima entre o ex-banqueiro e o filho do magistrado. Conversas recuperadas mencionariam encontros e contatos relacionados ao círculo do ministro. O material também faria referências a compromissos e interlocuções envolvendo pessoas próximas a Fux.

Rodrigo Fux pediu que informações sobre um compromisso em Londres também fossem enviadas à secretária do pai, Luiz Fux, em endereço institucional do STF.

O escritório ligado ao filho do ministro negou ter prestado serviços ou recebido valores de Vorcaro ou de empresas relacionadas ao Master. Durante a sessão de terça, Flávio Dino insinuou que haveria referências ao próprio Luiz Fux em mensagens no celular de Vorcaro. Fux negou categoricamente e disse que jamais se relacionou ou trocou mensagens com o ex-banqueiro.

As festas, os jatinhos e as experiências exclusivas

Outro conjunto de informações que integra a investigação envolve viagens, festas, experiências exclusivas e despesas milionárias bancadas por Vorcaro a autoridades.

Além de o Master patrocinar eventos frequentados ou promovidos por autoridades, haveria registros de despesas de viagens pagas pelo grupo financeiro do ex-banqueiro, assim como o fornecimento de aeronaves para viagens de autoridades e familiares.

Há também mensagens em que Vorcaro afirma ter bancado voos de autoridades e políticos em episódios que ainda precisam, segundo investigadores, ser analisados individualmente, caso haja aprofundamento nas apurações sobre autoridades com foro privilegiado.

O conteúdo das interlocuções divulgado até agora não representaria todo o material recuperado do celular do ex-banqueiro, o que ainda pode comprometer outras autoridades dos Três Poderes da República.

Nesta semana, a PF confirmou o envio da íntegra aos gabinetes de Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, e há registro de que Zanin determinou a entrega do material ao gabinete. Moraes também passou a ter acesso ao conteúdo no contexto do caso. O ponto mais importante é que o material original continua sob custódia da PF e a discussão sobre o compartilhamento integral passou a ser parte da própria crise processual.

Isso indicaria, por exemplo, que novas mensagens podem alterar ou ampliar o quadro conhecido da suposta rede de relações do ex-banqueiro.

Fontes a par das apurações alertam que a crise já não pode ser explicada por uma única relação, já que há envolvimento, mesmo que em condições pontuais, de metade da Corte com Daniel Vorcaro. Para investigadores, o que ainda precisa ser esclarecido é se essas relações produziram benefícios indevidos, como a influência em decisões judiciais.

A Gazeta do Povo procurou o STF e as assessorias dos ministros citados para solicitar esclarecimentos sobre os contratos, patrocínios, viagens, uso de aeronaves, participação em eventos e demais relações mencionadas na reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação e, caso haja resposta, o conteúdo será atualizado.

Disputa sobre investigação contra Moraes chega ao plenário do STF

A situação ganhou novo peso na sessão de 15 de setembro, quando o tribunal começou a analisar se os elementos reunidos pela Polícia Federal justificariam uma investigação sobre Alexandre de Moraes. Na ocasião, Moraes classificou as mensagens atribuídas a ele como uma “farsa montada”. Anteriormente, o ministro já havia dito que não existiam contatos seus com Vorcaro, condição que ele evitou cravar na sessão de terça.

O ministro concentrou sua defesa na contestação da forma como uma suposta investigação contra ele teria sido conduzida, bem como na autenticidade e na interpretação dos elementos extraídos do celular de Vorcaro.

A PF identificou cerca de 50 mensagens enviadas por Vorcaro para um número atribuído a Moraes desde o fim de 2023 até horas antes de o ex-banqueiro ser preso no fim do ano passado.

O material teria sido obtido durante a quebra do sigilo do celular do ex-banqueiro. Vale destacar que não há registro nem conteúdo das mensagens que eventualmente Moraes tenha enviado a Vorcaro.

As mensagens de Vorcaro tratam de assuntos que vão desde preocupações com as investigações que o atingiriam até pedidos relacionados a autoridades que pudessem interferir em medidas judiciais em curso. Em uma delas, o ex-banqueiro pergunta, ao número atribuído a Moraes, sobre a possibilidade de intervenção com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Em sua defesa apresentada antes da sessão, Moraes sustentou que não havia mensagens suas no relatório da PF apresentado por Mendonça e que textos encontrados em blocos de notas do celular de Vorcaro não poderiam ser tratados automaticamente como conversas efetivamente enviadas. Também questionou a cadeia de custódia dos dados.

Na sessão, o ministro voltou suas críticas principalmente contra André Mendonça, responsável pela determinação que levou ao aprofundamento da análise do conteúdo apreendido no celular do ex-banqueiro. O embate entre os dois chegou ao plenário, com Moraes acusando Mendonça de tentar incluí-lo em uma colaboração premiada e Mendonça respondendo que a acusação era falsa. 

O plenário ficou dividido sobre a proposta de Gilmar Mendes de juntar os casos de Moraes e Mendonça. O placar foi 4 a 3 entre os oito ministros aptos a votar, já que Toffoli e Nunes Marques estavam impedidos/suspeitos. Flávio Dino pediu vista, suspendeu a análise e, por isso, seu voto ainda não foi oficialmente computado. Quando o julgamento for retomado, o placar ficará empatado em 4 a 4. Ainda há dúvidas sobre os critérios para o desempate. Além disso, o outro julgamento - dessa vez sobre Mendonça - foi mantido para 23 de setembro.

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