Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
A estudante de direito Flavia Oliveira: cartões cancelados e dívida de mais de R$ 6 mil | Antônio More/ Gazeta do Povo
A estudante de direito Flavia Oliveira: cartões cancelados e dívida de mais de R$ 6 mil| Foto: Antônio More/ Gazeta do Povo

Carteira vazia

Jovens se enrolam nas contas e insistem em velhos hábitos

A estudante de direito Flávia Alves Oliveira, 22 anos, engrossa a fila dos jovens endividados. Ela viu uma conta de R$ 3,2 mil no cartão de crédito passar para R$ 6 mil com juros e ainda tem outra de R$ 300 em outro cartão, que está sem pagar. A primeira dívida foi refinanciada em 2007, com prestações de R$ 200, que ela vai acabar de pagar somente em outubro de 2011. Segundo ela, parte do problema veio do aumento do limite do banco. "Abri uma conta universitária, que tinha um limite de R$ 300, e como eu movimentava muito, o banco ampliou o limite para R$ 1,8 mil sem me avisar. É exatamente isso que os bancos querem. Eu fui gastando e quando o percebi já estava endividada, passava o mês inteiro no negativo pagando só a parcela mínima, e a cada mês a dívida aumentava", lembra. Com os cartões e o cheque especial cancelados, agora ela só compra à vista.

Flavia, que divide o apartamento onde mora com uma amiga, recebe R$ 580 do estágio e mais R$ 1,4 mil dos pais. "Meus pais sabem da dívida, mas não aumentaram a minha mesada por causa disso. A minha mãe joga isso na minha cara sempre, me fala que eu estou com o nome sujo e que meu nome é tudo que eu tenho. Eu já disse pra ela que não vou parar de viver só porque o meu nome está no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito)", diz.

A estudante diz que gasta principalmente em baladas e com o seu time de futebol, o Coritiba. Como torcedora fanática ela paga todas as mensalidades, vai a todos os eventos sociais e jogos, participa da torcida e compra uniformes. "Apoiar o time é muito caro", afirma. Apesar das dificuldades, Flavia não sabe dizer se aprendeu a lição. "Continuo gastando mais ou menos como gastava antes, mas aprendi a priorizar as contas que precisam ser pagas, como luz, condomínio, aluguel, mensalidade do time. Mas continuo aproveitando a minha vida normalmente, não vou me enfurnar em casa por causa disso."

O dinheiro que o estudante de engenharia civil G.T, de 23 anos, recebe do estágio todo o mês dura, em geral, até a terceira semana. "A partir daí eu entro no vermelho", diz ele, que gasta a maior parte da sua renda de R$ 500 em eventos sociais, como baladas e saídas com amigos em bares, e na conta do celular, que chega a R$ 200. O estudante tem cartão de crédito, que usa para pagar combustível e bancar a compra parcelada de roupas mais caras.

Colaborou Natalia Diamante

O que fazer

Saída é a educação financeira

O problema do endividamento da população mais jovem só poderá ser resolvido com a educação financeira nos lares e nas escolas, apontam especialistas. De acordo com Gilmar Mendes Lourenço, chefe do departamento de economia da FAE, a educação financeira é a única forma de evitar uma "bolha de endividamento" nos próximos anos. A população mais nova está crescendo em um ambiente muito diferente do das gerações anteriores. A inflação está estável, os juros estão mais baixos, o crédito nunca foi tão farto e há possibilidade de financiamento para praticamente todos os produtos de consumo, do tênis de marca ao celular de última geração, da roupa ao automóvel.

Quem está na faixa dos 50, 60 anos provavelmente só foi pensar em financiamento quando ingressou no mercado de trabalho e mesmo assim usou o crédito para adquirir o carro, a casa própria. Quando jovem essa população não teve acesso a empréstimos como o crédito parcelado ou o consignado, lembra o consultor em finanças pessoais Raphael Cordeiro. "Hoje, ao contrário, as facilidades são muitas e há imediatismo para realizar os desejos", diz.

Os especialistas alertam os pais que bancar os arroubos de consumo dos jovens é um péssimo negócio não apenas para o bolso. O jovem não aprende a ter responsabilidade. Para Cordeiro, a grande dificuldade dos pais é que eles próprios não tiveram educação financeira. "O importante é não apenas falar, mas dar bons exemplos e acompanhar os jovens, sobretudo quando eles entram no mercado de trabalho", acrescenta. De acordo com ele, o grande desafio é explicar para os filhos porque é importante evitar o endividamento excessivo. "É necessário estabelecer a noção de valor das coisas, dos juros pagos e a relação entre o esforço, tempo e a realização", acrescenta.

O endividamento está crescendo entre a população mais nova. A fal­­ta de planejamento financeiro fez com que o número de devedores com até 20 anos dobrasse em um ano. A falta de experiência, as compras por impulso e as facilidades de crédito começam a formar uma no­­va geração de devedores. Um le­­vantamento da Paraná Pesquisas exclusivo para a Gazeta do Povo revela que 46% dos jovens curitibanos entre 18 e 21 anos têm dívidas. Desses, 23% estão com as contas atrasadas.

"É um número muito alto, principalmente se considerarmos que estamos falando de pessoas que têm apenas duas décadas de vida. Um quarto dessa população já está inadimplente. São jovens que estão crescendo dentro da cultura da dívida", diz Murilo Hidalgo Lopes de Oliveira, presidente da Paraná Pesquisas.

O consumo começa cada vez mais cedo e se ampara sobretudo na combinação do crédito farto, do forte apelo do consumo e da velha necessidade de afirmação dentro do grupo social. "Muitos jovens usam o crédito para transmitir um padrão de vida maior do que o real. O consumo está relacionado a status social. Eles parcelam a compra do tênis com juros, que de R$ 800 passa a R$ 960, o celular de R$ 1,2 mil e por aí vai. E daqui a quatro, cin­­co meses, eles trocam por um no­­vo. Com isso vem o descontrole das contas", diz Marcelo Segredo, pre­­sidente da Associação Brasileira do Consumidor (ABC).

Para ele, trata-se de um problema social que guarda relação com a geração anterior. "Esses jovens cres­­ceram vendo seus pais ‘pendurados’, parcelando suas compras, usando o limite do cheque especial. Ao mesmo tempo, esses pais ti­­veram dificuldade em dizer não e impor limites ao consumo dos fi­­lhos." Uma pesquisa da Associa­ção Co­­mercial de São Paulo – não há da­­dos sobre o tema em Curitiba – re­­velou que a participação da popu­­lação com até 20 anos entre os inadimplentes dobrou no último ano – passou de 4%, em março de 2009, para 8% em 2010.

Sem experiência

Para o economista da instituição, Marcel Solimeo, parte desse resultado se deve à própria inexperiência. Os consumidores mais novos no mercado têm mais dificuldade pa­­ra organizar suas contas. Um le­­­­vantamento realizado com 100 en­­trevistados mostra que em seis me­­ses os novatos tinham uma ina­­dim­­plência de 8,4% contra 6,7% do pessoal que já estava no mercado.

Para especialistas, o aumento da chamada bancarização da po­­pulação também tem facilitado o endividamento. Junto com a abertura da conta bancária, vêm os cartões, o limite do cheque especial, o crédito parcelado, o crédito consignado. Adolescentes têm acesso ca­­da vez mais cedo a esses plásticos.

Segundo a Paraná Pesquisas, 16% dos jovens entre 14 e 17 anos já possuem cartão de crédito. Entre os de 17 e 21 anos, essa proporção so­­be para 49%. A armadilha, muitas vezes, está no aumento do limite pe­­lo banco. "O jovem acaba se­­duzido por aquele crédito, mas não dá para usar o crédito como se fosse a renda mensal. Temos jovens de 21 anos que já estão quebrados", diz Gilmar Mendes Lourenço, chefe do departamento de ciências eco­­nômicas da FAE Business School.

Os gastos com jovens e adolescentes também vêm afetando as contas das famílias, que muitas vezes têm dificuldade para fechar o orçamento no fim do mês. "Quando o jovem não se endivida, ele acaba endividando a família."

Para ele, o movimento é preocupante. Dados do Banco Central mostram que cerca de 20% dos brasileiros com mais de 16 anos têm dívidas que equivalem a, pelo menos, quatro vezes a renda média mensal. A retomada do crédito no período pós-crise elevou em 40% o número de brasileiros com dívidas acima de R$ 5 mil. O comprometimento do orçamento com elas vem subindo. Em 2001, as dívidas tragavam 5% da renda do brasileiro. Em 2009, esse porcentual subiu para 18% – volum e superior ao do consumidor norte-americano com essas despesas (15%).

* * * * * *

Interatividade

Que atitudes sua família adota para administrar o gasto dos jovens, evitando que gastem acima do que podem e comprometam o orçamento doméstico?

Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br

As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]