Recrudescimento da pandemia e vacinação lenta afetam retomada do emprego| Foto: Sejuf/PR
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O Brasil encerrou o desafiador ano de 2020 com uma taxa de desemprego próxima de 14% – segundo o dado mais recente – e saldo positivo na geração de vagas com carteira assinada. O bom resultado do emprego formal, conquistado em meio à disseminação da Covid-19, foi celebrado pelo governo federal. Mas o recrudescimento da pandemia ainda deve reservar maus bocados para alguns setores e para o mercado de trabalho, especialmente o informal.

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Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados pelo Ministério da Economia, apontam que, no saldo entre contratações e demissões, o país criou 142.690 empregos formais no ano.

Por outro lado, a Pnad Contínua, do IBGE, demonstra que pouco mudou no contingente de desempregados. No trimestre de setembro a novembro de 2020 o desemprego ficou em 14,1%. Houve ligeiro recuou na comparação com o cenário do período imediatamente anterior (quando era de 14,4%), mas ainda são 14 milhões os brasileiros sem trabalho em um momento de incertezas que tornam mais distante a perspectiva de reaquecimento.

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Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que o avanço no número de casos da Covid-19 neste início de ano, as consequentes medidas de restrição à circulação de pessoas em algumas regiões e a lentidão do um programa de vacinação devem adiar as chances de uma retomada mais veloz do emprego no país.

Vacinação como solução para o emprego

Para o pesquisador Rodolpho Tobler, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), não é possível vislumbrar a recuperação do mercado de trabalho antes de se ter uma vacinação completa ou a queda expressiva de mortes, casos e contaminações pelo novo coronavírus.

"Enquanto não se conseguir achar uma solução definitiva [para a pandemia], ter um cenário de quando isso vai acontecer, é difícil imaginar uma recuperação do mercado de trabalho e de tudo o que foi perdido em 2020", afirma. O pesquisador ainda completa que a taxa de desemprego continua estabilizada num patamar muito alto e a tendência é de que ela aumente com o fim do auxílio emergencial, que deve empurrar mais gente para a busca por colocação.

Na avaliação de Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, os informais serão mais duramente afetados pela piora na pandemia, uma vez que chegam a este momento duplamente vulneráveis.

"No mês de novembro, observávamos índices muito baixos de isolamento social. As pessoas estavam circulando e com isso o informal estava encontrando oportunidade de vender, de fornecer serviços. Isso foi de fato muito importante naquele momento, porque já havia a redução do valor da parcela de auxílio emergencial. O que acontece é que a gente entra no ano de 2021 com o fim da concessão desse auxílio e um recrudescimento das medidas de isolamento", destaca.

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Menos ajuda e demissões represadas

O já citado fim do auxílio emergencial e também do Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda (BEm) ativam alertas com relação à economia de modo mais amplo. A retirada do socorro federal deve reduzir a capacidade de consumo de parte da população e, com menos dinheiro para girar a economia, a retomada também continua com freio puxado.

Apesar disso, Cosmo Donato classifica como improvável a retomada dessas medidas. "O grande problema é que pioraria muito o fiscal que já está em um momento de vulnerabilidade. E aí você esbarra em outra questão que é o custo benefício. Em quanto o que você conceder de auxílio vai ser compensado por uma piora da perspectiva de crescimento da economia por conta da piora do fiscal", pondera.

No que se refere ao programa de preservação do emprego, Donato diz que o seu sucesso pode ser medido pelos resultados do Caged, entretanto haverá oscilação com o que ficou represado em 2020.

"O que permitiu a criação de vagas de fato foi o programa do Ministério da Economia. Nesse sentido ele preservou os empregos e ofereceu estabilidade naquele momento de pico da pandemia. Entretanto, o que vai haver no ano de 2021 é uma normalização do Caged. As demissões devem aumentar, mas quando elas aumentam não é nada mais que o mercado de trabalho formal voltando à sua normalidade", frisa.

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O governo federal não descarta a possibilidade de retomar o BEm, conforme admitiu na quinta-feira (29) o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco Leal. A equipe econômica avalia essa e pelo menos outras seis medidas para estimular a atividade econômica nos próximos meses. Uma delas é o restabelecimento do auxílio emergencial, ainda que mais restrito – embora o Ministério da Economia seja contrário à ideia, sabe que é grande a pressão política pela reedição do benefício.

Dificuldades também no mercado formal

A avaliação de especialistas é de que o mercado de trabalho formal está mais protegido nesta entrada de ano, mas não isento de dificuldades. A preocupação vale especialmente para o setor de serviços. Único a ter saldo negativo de vagas em 2020 na medição do Caged, ele é o que mais emprega no país.

Com as medidas de isolamento e distanciamento social impostas durante a pandemia, o segmento teve 132.584 mais demissões do que contratações. Na contramão, a construção civil e a indústria acumularam os saldos mais positivos de geração de emprego com carteira assinada no ano.

Segundo o pesquisador do Ibre/FGV Rodolpho Tobler, o setor foi o que mais sofreu justamente porque depende da circulação de pessoas. "A indústria e o comércio têm conseguido mostrar algum tipo de reação para voltar àquele ritmo pré-pandemia, mas serviços não porque demandam algum tipo de presença física, algum tipo de interação social, diz". É o caso de hotelaria, alimentação fora de casa, bares, restaurantes, turismo, transporte aéreo.

Segundo Tobler, o que se esperava para 2021 era uma uma recuperação um pouco mais forte, mas a demora para observar os efeitos da vacinação também deve manter o segmento estagnado, pois, sem o avanço da imunização, as medidas restritivas permanecem.

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"Tudo influencia negativamente para o mercado de trabalho", resume. "Se a gente tiver uma vacinação mais rápida, conseguir alguma melhora nos casos de contaminação, isso pode tornar o cenário melhor, mas a nossa expectativa é que 2021 seja um ano complicado para o mercado de trabalho, ainda recuperando o que foi perdido ao longo de 2020."

O economista Cosmo Donato também aponta a imunização como saída para destravar a ocupação. "Teria sido muito importante vacinar com antecedência os grupos de risco. Assim se diminui ocupação de UTI, deixa a situação epidemiológica um pouco mais leve, com leitos disponíveis, e, com isso, não precisa de tanto isolamento social. A vacinação, ainda que não de todo a população, é superimportante na medida em que se diminui a ocupação de leitos e não exige, por exemplo, ir para uma fase vermelha", explica.

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