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Opinião

Crueldade

Que o homem precise de proteínas para viver e se alimente de animais é algo compreensível, pois é carnívoro, e os animais carnívoros assim o fazem. Há presa e predador. Porém, com poucas exceções, como as hienas e o cachorros selvagens, que devoram suas presas vivas, a maioria dos predadores estrangula sua vítima e a mata em pouco tempo: caça sua comida apenas o suficiente para a prole, para si mesmo, até a próxima necessidade de alimento.

Mas que o homem torture bichos, exerça crueldade sobre eles, deixe-os morrer ao chão, agonizando; que um bicho observe o disparo da arma sobre outro bicho, sentindo que seu fim se aproxima e ele não tem o caminho da fuga: eis aí a perfeita crueldade do homem. Isso vemos estampado na primeira página da Gazeta do Povo de 9 de março de 2006. A cena está ali, explícita. É o mesmo triunfo frio da racionalidade humana que já conduziu a campos de concentração, à bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaqui, aos canis com cachorros abandonados, aos gatis com gatos abandonados, às crianças abandonadas e até mesmo chacinadas, como ocorreu com oito crianças em frente à Igreja da Candelária do Rio de Janeiro, em julho de 1993.

É a barbárie em meio à civilização, como se o homem quisesse, em certas circunstâncias e em certas localidades, eximir-se de assumir a responsabilidade sobre outros seres que também sofrem. E quando digo homens, não esqueço a cumplicidade do espectador, do silêncio em face do horror, a falta de crítica, como se tudo isso só ocorresse com "o outro", este eterno estrangeiro, com o qual pouco me importo. Se se deve comer carne de gado, isto não implica que se deve torturá-los com a agonia da morte.

Voltemos à foto. Observe-se o animal que, à esquerda do atirador, assiste à cena; observe-se outro animal, no canto direito extremo da foto, de costas viradas, desviando-se do horror que lhe é acenado pelo humano. Todos cercados, sem possibilidade de fuga (as demais presas da natureza têm esta possibilidade). Todos acuados ao lado dos que já estão mortos, ou sofrem antes do espasmo final, pois "apenas um disparo na cabeça" foi dado. Quantos foram mergulhados na agonia? E o homem que dispara, vestido de verde, protegido primeiro pela cerca, depois pela arma, por fim pela própria docilidade dos bichos atentos.

Covardia. Não é admissível tanta crueldade contra seres que também sofrem. O homem é um animal esclarecido, pelo menos foi este o alerta, ou boa aposta, dos filósofos do Iluminismo. Ensinavam que a razão, o homem iluminado deveria rumar para um bom fim, para um estado cosmopolita de seres racionais e dignos, que jamais tomariam o outro como um mero meio, ou seja, que sempre evitariam a violência de tornar o outro um instrumento manipulável. Isto era uma proposta ética. E nesse horizonte é que dizemos que a mesma razão, privilégio do homem, não pode continuar parindo monstros, sejam eles para torturar e devorar o homem, sejam eles para torturar animais.

A foto que a Gazeta do Povo publicou em primeira página na supramencionada edição, lembra cenas do holocausto nazista. Não precisamos ser tão trágicos, até admito, mas também não devemos esquecer que aqueles bichos ali acuados, sofrendo com um abate cruel, são a alegoria de uma violência humana que choca e em relação à qual não podemos nos eximir de criticar e combater, sob o risco de chegar um dia em que não nos assustaremos mais com a violência cometida contra nossos amigos, parentes, crianças...

Ou será que vivemos um momento parecido? Humm... A chacina da Candelária... Fiquei chocado com o conteúdo da foto do abate e o que ele significa. Em tempo, os animais da foto estavam magros: será que, por terem aftosa, foi-lhes negado o pasto, já que não mais trariam lucro?

Jair Barboza é filósofo, professor de Ética da PUC-PR. Atua na pós-graduação do Departamento de Filosofia.

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