Escritório da QEdu, em São Paulo| Foto: Divulgação/

O uso de grande volume de dados para a tomada de decisões, o chamado big data, não é algo novo. Existe há pelo menos meio século. Mas a grande quantidade de informações produzidas nos últimos anos tem aproximado diversos setores até então improváveis da ferramenta. Uma dessas áreas é a educação.

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Foi essa aproximação que os professores da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Madeira e Fernando Botelho, fizeram seis anos atrás. Ambos faziam avaliações de impacto da educação na academia, mas sentiam que as análises eram subaproveitadas. Nascia, desta inquietação, a Tuneduc.

A startup paulistana começou oferecendo um serviço chamado “Módulo Enem”. Era um momento de crescimento da avaliação de ensino do governo federal, que passou gradativamente a ser adotada como método de seleção nos cursos superiores.

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Com a ferramenta, que utiliza big data para identificar déficits no aprendizado, a escola pode tomar decisões pedagógicas com base no desempenho de seus alunos. Hoje são 300 instituições, todas do ensino privado, que pagam por uma assinatura anual do Módulo Enem. ”Assim podemos entender quais escolas têm uma melhor evolução em quesitos específicos, como matemática, por exemplo”, diz o CEO da empresa, Harry Cerqueira.

Posteriormente, a Tuneduc aplicou essa mesma solução às redes estaduais de ensino: surgiu o Foco Brasil. Enquanto no ensino privado a rentabilidade vem de uma cobrança de anuidade pelo serviço, na área pública o trabalho conta com o apoio de instituições como a Fundação Lemann, Fundação Itaú Social, Instituto Natura, entre outras.

“Existem muitas empresas do terceiro setor que sabem que essa é uma das maiores necessidades do Brasil. Muita gente que está na Tuneduc poderia estar no setor financeiro, de serviços, e estaria bem empregado”, diz Cerqueira.

Sem apoios

À frente da MercadoEdu, outra empresa do segmento que começou como uma startup, o empresário Leonardo Labres diz que a iniciativa se manteve até hoje basicamente com investimento próprio e cobrança de uma licença anual pelo serviço — o principal deles é uma ferramenta de análise de dados que possibilita a tomada de decisões estratégicas.

Labres e o outro sócio-fundador — ambos da área de marketing de um grupo educacional em Porto Alegre (RS) — desenvolveram, em um primeiro momento, uma ferramenta que ajudava na captação de alunos. Não vingou. “Na época, em 2011, as instituições não tinham dificuldade para arranjar novas matrículas”, conta.

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Após alguns meses de trabalho, entenderam que a maior dificuldade das instituições era com indicadores, a partir de dados públicos. “Mas todo o processo foi na ‘cara e na coragem’. A gente não foi incubado ou impulsionado por ninguém”, conta Labres. São 100 clientes hoje.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

Indicadores

Foi também tentando suprir a falta de indicadores que um grupo de pessoas, que já tinha uma empresa que lidava com big data, a Meritt, criou a QEdu — mas com o apoio da Fundação Lemann. A iniciativa mantém três ferramentas, sendo a principal delas a publicação de indicadores educacionais em um site, com base em informações públicas.

“A QEdu surgiu do fato do Brasil está super bem posicionado no ranking de dados abertos, mas a acessibilidade é baixa”, explica. “Serve desde o cidadão comum interessado no assunto, até a um secretário de educação que quer tomar uma decisão”, explica o CEO da startup, César Wedemann.

Para Wedeman, o futuro da QEdu está em atender todas as secretarias que hoje demandam o serviço. Cerqueira, da Tuneduc, diz que o setor público pode ter demandas “quase infinitas”. No mês passado, a empresa passou a fazer parte do espaço Cubo, em São Paulo. “Somos uma startup que precisa rapidamente encontrar respostas para os nossos desafios. A gente entendeu que o Cubo seria o lugar ideal para as nossas questões”, diz.

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Em amadurecimento

O país tem mais de 360 startups especializadas em educação, de acordo com levantamento da AbStartups e do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb). Quase a metade (47%) atua no segmento de educação básica — o mais representativo.

Entre as soluções oferecidas por essas empresas, 15% são de auxílio na aprendizagem dos alunos e 18% são as soluções de gestão escolar. Foram nessas ferramentas que a reportagem identificou o uso de big data.

O diretor executivo da ABStartups, Rafael Ribeiro, explica que o mercado brasileiro de análise de dados na educação vem amadurecendo. “Mas ainda há um alto culto. Por isso a maioria das startups de educação trabalham com produção de conteúdo: é um retorno rápido”, diz.

Ribeiro ressalta que uma outra questão a se pensar é que, na educação, muitas vezes se lida com dados de pessoas menores de idade, os alunos. “Com uma escola precisa de autorização dos pais dos alunos. É um pouco mais complicado que uma empresa”.