Produtividade por hora trabalhada no campo cresceu mais de quatro vezes entre 1995 e 2021, aponta a FGV.| Foto: Wenderson Araújo/CNA
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Um estudo sobre produtividade por hora trabalhada no Brasil, realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra que o crescimento do indicador se concentrou principalmente no campo.

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Apesar de ainda contar com a taxa mais baixa, com geração de R$ 18,6 por hora trabalhada em 2021, a agropecuária foi o setor com maior crescimento no longo prazo: sua produtividade aumentou mais de quatro vezes desde 1995. Os serviços tiveram uma pequena expansão no período, 10,4%, enquanto na indústria o indicador recuou 5,7%.

Em seu conjunto, a produtividade por hora trabalhada da economia brasileira teve uma expansão de 27,6% entre 1995 e 2001. Mesmo assim, a produtividade do trabalhador brasileiro caiu frente ao americano. No ano passado, de acordo com o Total Economy Database, ela correspondia a 25,5% do trabalhador americano, o que significa que são necessários quatro brasileiros para produzir a mesma riqueza gerada por um norte-americano. Em 1980, essa relação era de 46,1%, ou seja, dois brasileiros produziam quase o mesmo que um trabalhador dos EUA.

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O pesquisador Fernando Veloso, da FGV, aponta que a principal característica do setor agropecuário no Brasil é que ele é bem aberto ao exterior. “É um modelo completamente diferente do praticado por indústria e serviços.”

A importância do campo na pauta de exportações brasileira vem crescendo, destaca Veloso. “E também importa bastante, como é o caso dos fertilizantes”, cita.

Outro destaque, segundo o pesquisador, é que é um setor com uma visão mais tecnológica, obtida inicialmente a partir de parcerias desenvolvidas com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “É produção de conhecimento aplicado. Faz bem parcerias de pesquisa realizadas com o setor privado.”

Um dos impactos desses ganhos de produtividade se reflete na melhoria dos salários no campo. Apesar de ainda serem os menores na economia brasileira, Veloso aponta que a diferença para a indústria, que tradicionalmente tem as melhores remunerações, diminuiu muito de 1995 a 2021: “Antes era de oito vezes, agora está em duas vezes”.

Quais os desafios para ampliar a produtividade da agropecuária

Mesmo com os ganhos obtidos nesse período, Caroline Nascimento Pereira e César Nunes de Castro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontam que os desafios persistem para o país. O momento é de facilitar a difusão de novas tecnologias.

“O crescimento da capacidade produtiva agrícola possui ganhos inegáveis do ponto de vista econômico para a balança comercial brasileira e para a autossuficiência alimentar do país, porém, os impactos ambientais também podem ser substantivos, se o crescimento não for baseado em forte uso de tecnologias, o que pouparia o maior uso de terras”, citam os pesquisadores do Ipea.

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Eles apontam que “o papel de destaque do Brasil nesse setor levanta questões sobre as implicações da maior demanda sobre o modo de produção, ou seja, como se dará esse aumento de produção sem causar maiores impactos negativos com a expansão de área". "O ideal é que esse crescimento ocorra baseado em tecnologias existentes ou novas, principalmente aquelas relacionadas à transformação digital e à Agricultura 4.0”, afirmam.

Caroline e Castro lembram que a agricultura digital já é uma realidade em muitas propriedades brasileiras, principalmente nas mais capitalizadas: “Assim, acompanhar o avanço das novas tecnologias de perto é fundamental para que seja possível ofertar aos pequenos produtores opções viáveis para que não se amplie o ‘abismo’ produtivo entre os grandes e os pequenos”.

Os pesquisadores do Ipea também destacam que estar atento às políticas de apoio para adoção de tecnologias possibilita que não somente os grandes, mas também os pequenos tenham condições de atender à crescente demanda por produtos agropecuários brasileiros.