“Fazenda” de painéis solares na China é exemplo de adoção de uma tecnologia que ajuda a limpar a matriz energética global e que vai crescer nas próximas décadas. | Carlos Barria/Reuters
“Fazenda” de painéis solares na China é exemplo de adoção de uma tecnologia que ajuda a limpar a matriz energética global e que vai crescer nas próximas décadas.| Foto: Carlos Barria/Reuters

Três fenômenos vão ditar como será a economia global nas próximas décadas: evolução tecnológica, demografia e as mudanças climáticas. O menos conhecido e mais imprevisível dos três é o clima. A elevação na temperatura do planeta provocada pelas emissões de gases que causam o efeito estufa é um fato que ainda não mostrou totalmente seu poder transformativo. E as mudanças virão, por bem ou por mal.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura média da superfície terrestre subiu quase 0,8°C desde o século 19, quando começou a queima de combustíveis fósseis para a produção de energia. O esforço atual das lentas negociações conduzidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) está em não permitir que o aquecimento ultrapasse 2ºC. É na busca dessa meta que se concentra a mudança “por bem” na economia.

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Manter o aquecimento do globo abaixo de 2°C só é possível com um corte rápido nas emissões. Elas precisam cair a zero até o fim do século, com uma redução de mais de 40% até 2050 em relação a 2010. Isso é necessário para que a concentração de gás carbônico na atmosfera fique abaixo dos 450 ppm (partes por milhão). Sem qualquer ação, esse nível será atingido dentro de 20 anos.

Um corte assim significa repensar uma economia que é dependente do carbono. A geração de energia para movimentar automóveis, fábricas, acender lâmpadas e aquecer e resfriar casas é responsável por 65% das emissões. Outros 11% vêm do desmatamento e da agricultura. Será preciso investir rapidamente em novas fontes de energia, remodelar as cidades e tornar a agricultura mais produtiva.

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Custos

Uma conta feita pela consultoria McKinsey em 2009 apontava para a necessidade de um investimento anual de até 350 bilhões de euros (em torno de R$ 1,2 trilhão) por ano até 2035 para limpar a matriz energética global. Isso representa 1% do PIB mundial, valor que se somaria aos investimentos já feitos na economia. No ano passado, um relatório da Comissão Global sobre Economia e Clima calculou que seriam necessários US$ 4 trilhões além dos US$ 90 trilhões que seriam normalmente investidos até 2030. O dinheiro extra, portanto, seria pouco. O impasse nas negociações sobre clima está, no fundo, em como fazer o dinheiro sair da economia “suja” para a de baixo carbono.

Os dois relatórios mostrem que muitas tecnologias permitem que haja economia de dinheiro. O uso de leds na iluminação, por exemplo, já se tornou um investimento com retorno positivo no longo prazo. “O potencial para a redução das emissões com ganho econômico é enorme”, diz Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima. “Há tecnologias já testadas, como o etanol de cana de açúcar e a geração eólica, que podem ganhar escala. Além disso, há muito o que fazer em ganho de eficiência energética.”

A transição para a economia de baixo carbono também exigirá o desenvolvimento de novas tecnologias. Um grupo de cientistas do Reino Unido pede que seja criado um “Projeto Apollo Global” para o clima, em referência ao esforço feito nos Estados Unidos para levar o homem à Lua. A proposta é que os países envolvidos apliquem 0,02% do PIB até 2025 no desenvolvimento de painéis solares mais baratos, tecnologias de armazenagem de energia e redes mais inteligentes para a distribuição.

Fundo verde

O financiamento internacional para países pobres é um ponto-chave para a transição para a economia de baixo carbono. As nações ricas concordaram em direcionar US$ 100 bilhões ao ano, até 2020, para bancar projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Nos últimos quatro anos, a cifra não passou de US$ 30 bilhões por ano. Nos próximos cinco anos, portanto, outros US$ 70 bilhões precisam entrar no orçamento.

O fato por trás dessa ideia é que as tecnologias atuais ainda não são suficientes para que o ritmo de redução das emissões seja o adequado. As usinas térmicas garantem energia a qualquer hora do dia, o que não ocorre com um painel solar ou torre eólica. Além de ficarem mais baratas, essas fontes precisam ser complementadas por sistemas de armazenamento, como baterias e hidrogênio.

“A economia precisa caminhar para um modelo mais descentralizado de produção e consumo de energia”, resume Carlos Rossin, líder de sustentabilidade da consultoria PwC. “Ao mesmo tempo, os efeitos negativos da produção precisam ser internalizados nos preços.” Isso significa que, em algum momento, taxas, limites e créditos envolvendo as emissões se tornarão uma ferramenta para estimular a adoção de tecnologias mais limpas.

A boa notícia é que o mercado responde aos incentivos. No Brasil, o crédito via BNDES e os leilões de energia fizeram com que os projetos eólicos se multiplicassem. A capacidade instalada no país chegou a 6 GW, o mesmo que vão gerar as hidrelétricas do Rio Madeira. “As políticas públicas serão determinantes. O Plano Decenal de Energia brasileiro ainda prevê 70% dos recursos para energia fóssil”, afirma André Ferretti, gerente de Estratégias de Conservação da Fundação O Boticário.

Ritmo

O tempo para elaborar as políticas certas e fazer o dinheiro ir para o lado limpo da economia é curto e o ritmo atual não é animador. Um estudo da PwC mostra que, globalmente, a queda na intensidade de carbono da economia (uma medida de quanto é emitido para se produzir US$ 1 milhão) foi de 0,6% ao ano entre 2008 e 2013. A taxa precisaria ser de 6,2% ao ano, segundo o estudo.

Uma das razões para a lentidão é a falta de um acordo entre os maiores poluidores. As negociações do clima ainda não levaram a um tratado com a ambição necessária para reduzir as emissões. Neste ano, no fim de novembro, uma reunião que será realizada em Paris, a COP 21, dará mais uma chance para que haja metas para o clima. “Estamos esperando demais. Se houver acordo em Paris, ele só terá efeitos a partir de 2021”, lembra Ferretti.

Até o momento, países em desenvolvimento vêm se recusando a um acordo em que tenham metas iguais às de países desenvolvidos. Em Paris, é possível que haja uma alternativa, com medidas diferentes para cada nação. O que pode ser insuficiente para atender o limite de 2°C.

Por que 2°C?

A meta de se manter o aquecimento da Terra em 2°C é uma escolha dentro do possível. Os modelos climáticos mostram que não se pode evitar que o globo continue aquecendo porque os gases do efeito estufa ficam até um século na atmosfera. Levando-se em conta que é preciso tempo para se criar uma economia de baixo carbono, foi estabelecido um limite para a concentração de gás carbônico: 450 ppm. Com isso, espera-se que o aquecimento não passe dos 2°C, um ponto a partir do qual os modelos demonstram haver perturbações elevadas no clima.

Um estudo recente do Banco Mundial diz que um aquecimento de 1,5°C está implícito nas emissões já feitas pela humanidade, o que traz consequências inevitáveis, como a redução na produção agrícola, aumento no número de eventos climáticos extremos e ondas de calor. A janela para se evitarem os 2°C está se fechando.

Para o economista Petterson Vale, pesquisador da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, é preciso pensar alternativas para as negociações e complementar as metas de redução de emissões com estratégias de adaptação. “O paradigma da COP vem falhando. E a opção a ele são leis unilaterais e acordos entre países”, defende.

O histórico das reuniões sob supervisão da ONU não é dos melhores, e a própria organização da COP 21 elevou para o topo da agenda os investimentos em adaptação. A ideia é que 50% do Fundo Climático Global sejam alocados para ações como pesquisa de novas variedades de plantas, relocação de pessoas em áreas de risco e apoio a pequenas ilhas que vão sumir com a elevação dos oceanos.

“Até hoje não existe um bom modelo para se calcular o custo econômico que será provocado pelas mudanças climáticas”, lembra Vale. O mundo, além de tentar evitar uma catástrofe, precisará fazer um seguro para o futuro sem ter ideia de quanto ele pode custar. Essa é a transformação da economia que pode vir a contragosto.

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