
O período entre o início de 2007 e meados de 2008 tem boas chances de entrar para os livros de economia internacional como a era da "grande inflação de alimentos". Um fenômeno global que combinou ingredientes como estoques baixos, demanda em alta e uma pitada de especulação nos mercados de produtos agrícolas levou a uma aceleração intensa nos preços do setor alimentício. Também no Brasil, a comida virou o vilão da inflação: subiu mais de 11% no ano. Agora, com as cotações de itens básicos como milho e soja em queda, o mercado passa a prever preços mais comportados em 2009.
A inflação dos alimentos mostrou a cara no segundo semestre de 2007. As cotações das commodities agrícolas, produtos básicos como soja, milho, arroz e trigo, começaram a subir porque parecia que os estoques simplesmente não iam chegar para todo mundo. Ganhos de renda em países em desenvolvimento, em especial na China, aumentaram a demanda por grãos e carnes. Nos Estados Unidos, o estímulo descabido para a produção de etanol a partir de milho criou uma nova competição para a compra dessa matéria-prima que influenciou outros preços, como o do trigo e da soja. Não bastasse isso, investidores viram nas bolsas de mercadorias uma oportunidade para ganhar apostando na alta da comida.
Os efeitos da inflação alimentar apareceram na forma de protestos que se espalharam no primeiro semestre por países distantes que têm em comum a pobreza crônica, como Haiti, Somália e Bangladesh. O Banco Mundial, a Organização das Nações Unidas e diversas ONGs pediam medidas emergenciais para que a fome não se transformasse em uma catástrofe humana. Esse cenário mudou completamente com o derretimento dos mercados a partir de agosto. A crise da comida deu lugar para a crise das finanças. Pelo menos por enquanto.
"Havia uma demanda mundial não satisfeita e que estava causando alta generalizada. Essa tendência foi interrompida pela crise financeira, mas poderá voltar a partir de 2011, quando a crise passar", diz Geraldo Barros, coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Universidade de São Paulo (USP). No mercado internacional, a queda começou a ser notada entre julho e agosto. O preço da soja negociada em Chicago, por exemplo, bateu em US$ 16 por bushel (o que equivale a 27,2 quilos) em julho. Hoje vale menos de US$ 8, mesmo preço de agosto de 2007.
A queda nos preços foi vista na média das commodities agrícolas. O Commodities Research Bureau (CRB), instituto de pesquisas dos Estados Unidos, tem um índice que calcula o valor de uma cesta de produtos ao longo do tempo. O recorde histórico do índice foi batido em junho deste ano: 441 pontos. No fim de novembro, tinha caído mais de um terço, para 294 pontos. É alto ainda, e é provável que a retração continue com o aprofundamento da crise. "Os preços de milho e soja ainda estão um pouco acima da média histórica, e podem não se firmar nesse nível se a demanda da Ásia crescer menos", diz a analista Daniele Siqueira, da Agência Rural.
A notícia de preços em queda é ruim para os produtores rurais, que estão lidando com custos mais altos neste ano, e não chega a ser um alívio total para consumidores. Como os produtos básicos são cotados em dólares, a desvalorização recente do real, acima de 40%, compensa parcialmente a retração no mercado internacional. Mesmo assim, vários produtos ficaram mais baratos. Nas contas de Geraldo Barros, da Cepea, que considera julho como o início da crise, o milho caiu 30%, o leite 25%, a soja 15% e a laranja 11%. Somente o açúcar está em alta, de 17%, embora em um valor que historicamente não é alto.







