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O Ministério Público Federal (MPF) recebeu uma denúncia para apurar uma suposta estrutura de tráfico de influência na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) em meio à maior crise financeira da história da estatal. Segundo o sindicato de trabalhadores dos Correios no Rio de Janeiro (Sintect-RJ), autor da denúncia, um número estimado de 300 pessoas pode ter sido contratada em troca de um percentual dos salários, a popular “rachadinha”. Os denunciados negam as acusações e as atribuem a uma disputa eleitoral dentro do sindicato.
O esquema, descrito como “estável e hierarquizado” pelo sindicato, foi relatado por 13 testemunhas, que procuraram o MPF do Rio para formalizar a denúncia. Os relatos incluíram a contratação de nomes previamente aprovados, na condição de que fosse repassado um percentual dos salários.
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A suposta prática criminosa abrangeria a época da gestão do ex-presidente Fabiano Silva dos Santos (2023/2025) – que já foi chamado de "Churrasqueiro do Lula" (alcunha que o próprio rejeita). Ele negou em contato com a reportagem da Gazeta do Povo qualquer envolvimento e prometeu processar os autores da denúncia.
Além do então presidente da estatal, foi acusado o secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos (Fentect), Emerson Marinho. A notícia do fato, inicialmente distribuída ao MPF no Rio de Janeiro foi transferida de foro porque o Rio declinou da atribuição para o Distrito Federal (MPF/DF), onde o caso foi assumido em meados de maio.
A movimentação foi apurada pela reportagem com base nos documentos do processo e confirmada pelo MPF no DF. O órgão disse, por e-mail, que as acusações estariam em “averiguação preliminar”, fase em que relatos são cruzados para posterior instauração de um possível inquérito.
Os sindicalistas afirmam que os relatos motivaram o encaminhamento do caso à Polícia Federal (PF). À Gazeta do Povo, a PF informou por nota que não comenta eventuais investigações em curso.
Mudança para Brasília
A decisão sobre a competência teve como base o fato de os principais citados na denúncia ocuparem cargos nacionais, com domicílio funcional em Brasília, bem como a sede dos Correios ser Brasília, onde parte significativa das condutas criminosas teria sido executada. Os sindicalistas que denunciaram o caso afirmam que a mudança foi pedida pelos próprios acusados, como parte de uma estratégia de defesa.
Na notícia-crime, os denunciantes sustentam que os acontecimentos poderiam configurar tráfico de influência, concussão, corrupção passiva e associação criminosa, além de sanções civis que teriam como base a Lei de Improbidade Administrativa, denúncias que dependem de uma decisão do MPF no Distrito Federal.
Emerson Marinho, apontado na denúncia como suposto operador, prometeu processar criminalmente os autores pelas "falsas acusações".
Modus Operandi
Os documentos e denúncias anônimas encaminhadas ao MPF descrevem que o suposto esquema se basearia em uma "relação estreita de interesses" entre o ex-presidente Fabiano dos Santos e o líder sindical Emerson Marinho, que, segundo a denúncia, teria seu aval para realizar nomeações.
Emerson teria passado a atuar como uma espécie de "agenciador de cargos de gestão" dentro da estatal, usando a associação sindical como "fachada". As cobranças correriam, segundo os relatos, sobre uma gratificação dada a quem ocupava os cargos.
Estima-se, nos relatos do Sintect-RJ, que o grupo coordenado por Emerson pode ter indicado cerca de 300 pessoas para cargos de confiança nos Correios do Rio de Janeiro, em uma prática que teria posteriormente se espalhado para outros estados, como Santa Catarina e Paraná.
De acordo com o sindicato, depósitos bancários regulares teriam sido feitos diretamente na conta de uma espécie de gestor, apontado como o "tesoureiro" do esquema de rachadinha.
Segundo o presidente do Sintect, Marcos Sant’Aguida do Nascimento, os repasses mensais iam de valores simbólicos, de R$ 50 até R$ 1 mil, com percentuais que giravam entre 5% e 15% e dependiam da graduação hierárquica.
Acusados falam em perseguição
Emerson foi excluído do quadro de sócios do Sintect após um processo na Comissão de Ética da entidade. Testemunhas voluntárias relataram um histórico de supostas retaliações contra quem resistia ao esquema de nomeações.
A Gazeta do Povo fez contato com Emerson Marinho, que se diz perseguido desde que o grupo político de Sant’Aguida perdeu para ele a eleição na federação dos trabalhadores da estatal, derrota que nunca teria sido aceita.
“Trata-se de uma denúncia falaciosa, uma perseguição política para atacar minha honra. Desde 2023 sou perseguido”, declarou Emerson.
A reportagem também procurou o ex-presidente da ECT, Fabiano dos Santos. Ele disse que conhece “institucionalmente” todos os envolvidos, mas que não tem ciência dos fatos e não teria poder para realizar nomeações no Rio de Janeiro. Ele ainda prometeu processar criminalmente os denunciantes por ter seu nome citado nos relatos.
“Eu nomeio o Superintendente e não tenho qualquer poder sobre as gerências. Que eu saiba, não teve nem denúncia formal na empresa, teria sido instituído um procedimento administrativo. Pelo que entendo, é uma disputa sindical”, disse.
A Gazeta do Povo pediu o posicionamento oficial da ECT que, por meio de sua assessoria de imprensa, respondeu genericamente. "A Diretoria Executiva dos Correios não compactua com quaisquer condutas ilícitas. Desvios de conduta e irregularidades estão a cargo da Corregedoria da empresa. Sempre que constatadas ilegalidades, medidas cabíveis são adotadas".
A prática de "rachadinha" não tem um tipo penal específico. Dependendo da circunstância, pode se enquadrar no crime de concussão, que é a apropriação indevida de um benefício relativo ao cargo, ou peculato, que é a apropriação indevida de um bem público por um funcionário do Estado.
Senadora reage à denúncia e promete aumentar fiscalização
A senadora Damares Alves (PL-DF) repercutiu a denúncia da suposta "rachadinha" e disse que apresentou uma proposta de lei para fiscalização dos Correios.
"É revoltante ver o que estão fazendo com os Correios! (...) Vale lembrar que o presidente Bolsonaro deixou essa instituição dando lucro, de presente para o Brasil, e agora vemos o retorno dos escândalos. Mas nós não vamos nos omitir! Apresentei no Senado Federal uma proposta de fiscalização rigorosa e controle dos Correios. Nós vamos pegar todos os corruptos que estão tentando falir essa instituição tão séria", afirmou no X.
Impacto financeiro
As denúncias ocorrem em um período em que os Correios atravessam uma de suas maiores crises financeiras da história.
O presidente Fabiano da Silva dos Santos pediu demissão em julho de 2025, em meio aos recordes de prejuízos. No início de 2026, a empresa precisou recorrer a bancos estatais e ao mercado financeiro para um empréstimo estimado em R$ 20 bilhões para manter operações, além de um rigoroso processo de demissão voluntária.
Os resultados do primeiro trimestre de 2026 apontaram um prejuízo de R$ 3,1 bilhões. O resultado negativo praticamente dobrou o prejuízo em relação ao mesmo período do ano passado, quando a estatal acumulou um saldo negativo de R$ 1,7 bilhão.








