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Pobreza e falta de recursos: por que no Brasil a alfabetização a distância é mais difícil
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Houve, durante a pandemia, educadores que gastaram tempo debatendo se alfabetizar sob um regime de isolamento social era possível ou não - e o debate acabou engessando medidas práticas. Na outra ponta, iniciativas isoladas despontaram e mostraram que era possível aproveitar a oportunidade e, por meio de recursos digitais, trabalhar a leitura e escrita com crianças que estavam em casa.

De qualquer forma, não há como negar que o fechamento de escolas impactou negativamente a alfabetização de muitos alunos. “As crianças em fase de alfabetização podem estar sendo especialmente prejudicadas pelo fechamento das escolas, principalmente se pensarmos em uma etapa inicial fundamental para uma alfabetização bem sucedida, que é a automatização dos processos de decodificação de letras em sons e vice-versa", explica Janaina Weissheimer, especialista no Instituto do Cérebro (InsCer) de Natal e professora do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

No país, não há determinação peremptória acerca do retorno às aulas presenciais, embora importantes órgãos mundo afora, como a ONU, além de grupos de médicos pediatras e infectologistas, tenham vindo a público, munidos de bases científicas, para afirmar que a retomada das atividades presenciais é segura para crianças e deve acontecer o mais breve possível.

Num cenário ideal, com pais dispostos e intelectualmente capazes, além de conectividade e materiais de qualidade, especialistas apontam ser possível alfabetizar alunos a distância. Na prática, professores orientariam os responsáveis, que, por sua vez, dariam estímulos e coordenadas para as crianças. Mas o cenário do Brasil está distante dessa realidade, apontam os interlocutores. E os números confirmam: na própria escola, que, em tese, é o ambiente mais adequado, mais da metade das crianças chegam ao terceiro ano do ensino fundamental sem saber ler ou escrever.

Ainda que isso fosse possível, nada substituiria o papel que o ensino explícito e sistemático por parte do docente, somado ao universo escolar, desempenham nessa etapa. O fechamento de escolas de educação primária pode gerar perdas cognitivas e gargalos no desenvolvimento subsequente dessas crianças, mesmo se elas estiverem em ambientes familiares dotados de estímulos. A literacia familiar começou a ser alvo de investimento do governo federal apenas neste ano.

Por outro lado, em casos nos quais o "aluno" não dispõe de nenhum amparo intelectual, didático e tecnológico, os prejuízos podem ser ainda maiores, embora não se possa falar em sequelas. Isso poderia impedir a iniciação do ciclo de alfabetização, sua interrupção ou não consolidação no tempo adequado.

"A aquisição da leitura é tão importante no desenvolvimento cognitivo da criança que uma área específica se desenvolve no cérebro dela quando está aprendendo a ler– a chamada Área da Forma Visual das Palavras”, afirma Janaina. Segundo ela, para que o processo de decodificação se consolide e essa área cerebral atinja os níveis de ativação esperados é necessária a prática sistemática e intensa de instrução de leitura, “resultando na construção do repertório grafo-fonológico (das letras e seus sons correspondentes) e, consequentemente, na fluência do processo de leitura”. Daí, também, a importância do professor e do ensino sistemático e explícito.

Há, por outro lado, especialistas que apontam para reflexos pouco significativos e que apenas evidenciam uma realidade já vista na própria escola, com aulas presenciais. A opinião é vista como ousada por alguns educadores, mas os próprios números comprovam o diagnóstico: no Brasil, mais da metade das crianças chegam ao terceiro ano do ensino fundamental sem saber ler ou escrever, segundo o último levantamento oficial do governo.

É como pensa, por exemplo, João Batista Oliveira e Araujo, presidente do Instituto Alfa e Beto, que ficou responsável por um programa na televisão aberta para ajudar no processo de alfabetização e ensinar noções de matemática às crianças que estão terminando a pré-escola e para as que estão no 1.º ano do ensino fundamental.

"Temos um sistema que trata muito mal a alfabetização - mesmo dentro da escola. Se ele leva três anos para alfabetizar metade das crianças, não é grande coisa. O prejuízo da pandemia é infinitamente menor do que o prejuízo que a educação vem causando a essas crianças há décadas por não levar a sério a alfabetização. Ficam brincando de 'alfabetização na idade certa', falando que método não é relevante etc, e, em nome dessas ideologias, têm punido gerações de estudantes que não aprender a ler", diz ele. “Não estamos perdendo muito porque o que havia antes não era grande coisa”.

Para ele, o país precisa pensar em soluções estruturais para lidar com essas questões em vez de se "distrair" com emergências passageiras do retorno à “normalidade”. É preciso olhar o todo.

Prejuízos cognitivos

Segundo a neurociência da leitura, embora os prejuízos cognitivos causados pela ausência de ensino explícito e sistemático na educação infantil sejam preocupantes, não é possível falar em sequela definitiva. Há uma chamada plasticidade neural – habilidade do cérebro de se recompor, de reaprender.

“A aquisição da leitura é um marco importante no desenvolvimento cognitivo da criança; é a porta de entrada para muitas habilidades que essa criança virá a desenvolver ao longo de sua vida escolar. Por isso, a preocupação especial com a interrupção deste ciclo específico de aprendizagem, por entendermos que, se não bem consolidado, ele criará um gargalo para muitos desenvolvimentos cognitivos subsequentes”, explica Janaina.

“No entanto, não podemos falar em sequela definitiva, pois estamos lidando com uma situação sem precedentes. Além do mais, as crianças apresentam uma plasticidade cerebral muito grande, ou seja, o cérebro delas tem uma resiliência natural e uma capacidade de se recuperar de situações prejudiciais, minimizando os prejuízos e sequelas. Estamos apostando nessa plasticidade para mitigar as lacunas que estão sendo geradas pela falta de instrução; entretanto, meu conselho seria no sentido de não esperarmos para ver, mas sim tomarmos uma atitude o quanto antes”, diz a especialista do InsCer.

Kátia Benedetti, professora de educação básica em São Paulo e autora do livro a Falácia Socioconstrutivista, aponta outras consequências às quais se deve ter atenção, como por exemplo, o fato de que uma ausência tão prolongada pode comprometer o processo de adaptação das crianças à escola, à rotina escolar e ao processo de socialização entre os pares nesse ambiente. “Para muitas crianças, esse processo de adaptação ao início da vida escolar não é tão conflituoso, mas, para muitas delas é emocionalmente custoso, pois marca a saída da criança, pela primeira vez, do convívio exclusivo do ambiente familiar”, explica a professora.

Segundo ela, o processo do ensino também é profundamente prejudicado, uma vez que, fora da escola, as crianças não contam com as experiências de aprendizagem deliberadamente elaboradas para prepará-las para o ingresso no ensino fundamental. “Além disso, sabemos que, infelizmente, a maioria dos lares brasileiros não conta com adultos que tenham tempo ou habilidades para suprir adequadamente a falta do ensino escolar, de maneira que a grande maioria das crianças não vai recuperar esse tempo fora da sala de aula”, diz.

O terceiro aspecto apontado pela especialista relaciona-se à dimensão psicossocial: para uma parcela imensa da população infantil, a escola é o espaço onde encontram regularidade, previsibilidade, rotinas positivas e, inclusive, alimentação e segurança física. “Nesse sentido, apenas daqui a algum tempo é que nosso país poderá, realmente, mensurar a dimensão dos efeitos dessa quarentena, não apenas em relação ao desempenho escolar das crianças, como também em relação ao seu desenvolvimento integral”, afirma.

Para crianças que estão passando pelo processo de alfabetização, a perda pode ser muito onerosa, pois essa fase, segundo os achados científico, necessita de ensino explícito e diretivo, “de muitas atividades planejadas, de ambiente adequadamente organizado”. “Por mais que os professores alfabetizadores gravem vídeoaulas e elaborem atividades para serem feitas em casa, as dúvidas sempre são muitas nessa etapa e os pais geralmente não conseguem oferecer o suporte, o apoio e os estímulos de que as crianças necessitam nessa fase da escolarização”, afirma Kátia.

É possível fazer alfabetização a distância?

“As aulas e atividades virtuais de maneira alguma estão alcançando o mesmo resultado que as presenciais (que, aliás, já não é bom...), por incontáveis motivos, que vão desde dificuldades físicas, de acesso mesmo, a problemas de motivação, dificuldade em relação à compreensão dos conteúdos e falta de rotina e comprometimento”, lembra Kátia. “Há tanto aqueles que têm mais dificuldade para aprender (ou ensinar) por meio das aulas virtuais, como aqueles que, diante do distanciamento, ficaram perdidos e desmotivados, como, ainda, aqueles que passaram a se aproveitar da situação para “jogar a toalha”.

Mas é possível fazer alfabetização a distância, e, neste caso, a família desponta com um papel essencial. Segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, os adultos responsáveis devem se preparar, principalmente conhecendo as bases de uma boa alfabetização, como o desenvolvimento da consciência fonológica (consciência de que a fala é formada por unidade mínimas de sons, os fonemas); aquisição do princípio alfabético (consciência de que o sistema de escrita alfabética, antes de representar o significado das palavras, representa sua pronúncia, ou seja, as letras representam os sons da fala) e da lógica da decodificação grafo-fonêmica (a cadeia de grafemas ou letras de uma palavra representa a cadeia de fonemas ou sons que compõem sua pronúncia).

“É preciso que eles lancem mão de bons métodos (em especial os fônicos, como o Método das Boquinhas, da fonoaudióloga Renata Jardini, o do professor Fernando Capovilla, da professora Leonor Scliar-Cabral, os materiais do Instituto Alfa e Beto e, claro, o atual material da Secretaria de Alfabetização do MEC, o Conta pra Mim, elaborado a partir de dados de pesquisa em ciência cognitiva de ponta)”, sugere Kátia.

“Mas é importante ressaltar que apenas o uso de um ou outro método não garante a qualidade do processo de alfabetização, pois este deve ser fundamentado, principalmente, na manipulação da linguagem oral, por meio de brincadeiras (parlendas, lenga-lengas, jogos de adivinhação, poemas infantis com muitas rimas, aliterações, repetições), músicas (canções com letras bem elaboradas) e, claro, muita contação de histórias e leituras compartilhadas (nas quais o adulto lê para a criança) de narrativas adequadas à faixa etária”.

Segundo ela, a exploração adequada da oralidade nas brincadeiras, poemas e canções é que impulsionará o desenvolvimento da consciência fonológica que, por sua vez, ajudará no processo de alfabetização. “Este desenvolverá, cada vez mais, os níveis da consciência fonológica, num processo que se alimentará mutuamente. O ideal é que os pais dediquem um tempo diário ou semanal, desde muito cedo, a desenvolver esse tipo de atividade linguística com os filhos, explorando os jogos de palavras, a leitura compartilhada, a contação de histórias e, claro, a música. A importância da literacia familiar é crucial para o sucesso da alfabetização e de todo o processo de escolarização das crianças”.

Janaina, do InsCer, lembra de ações do governo como o lançamento do Graphogame e de exemplos exitosos da comunidade internacional, que revelam a possibilidade e viabilidade de se utilizar ferramentas tecnológicas para a alfabetização de crianças em circunstâncias como a de pandemia.

“Durante o enfrentamento da Covid-19, ficou evidente para todos nós que as tecnologias podem ser um forte aliado da educação. Nesse sentido, nada impede que a instrução e a prática necessárias durante a alfabetização sejam continuadas em casa através de, por exemplo, aplicativos e plataformas online. Neste sentido, uma opção é o Graphogame, um jogo educacional com um ambiente virtual para a aprendizagem de habilidades fonológicas, que são fundamentais para a construção das relações entre os sons da língua e suas letras correspondentes”, destaca.

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