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Prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo: desempenho abaixo da média.
Prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo: desempenho abaixo da média.| Foto: Reprodução/USP

A baixa relevância da ciência brasileira, quando comparada à de outros países, é um fato que pode ser observado por diferentes tipos de análises. Mas também é possível, em tese, que a elite dos nossos cientistas se destaquem e, assim, ajudem a salvar a reputação do atual modelo de ensino superior. Em tese. Na prática, mesmo os artigos brasileiros mais citados não têm o desempenho esperado quando colocados no contexto global. E as ciências humanas são a área com pior desempenho. Essa é a conclusão de um novo estudo ao qual a Gazeta do Povo teve acesso.

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O professor Marcelo Hermes-Lima, do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB), analisou os papers brasileiros mais citados nos últimos anos. Ele escolheu os 10% do topo da lista, e traçou uma comparação com outros países. O esperado seria que pelo menos 10% dos artigos de elite do Brasil estivessem na lista dos artigos de elite mundial, mas só 8,6% desses artigos estão nesse rol. Ou seja, o impacto da nossa elite fica abaixo do esperado.

O resultado também mostra uma grande diferenciação entre as diferentes áreas de pesquisa (veja infográfico abaixo).

Um dos destaques é a Química, área em que 14,7% dos artigos de elite publicados por brasileiros em 2018 estão entre os 10% mais citados no mundo - uma evolução considerável desde 20 anos antes, quando o índice estava próximo de 5%. Ao mesmo tempo, a média geral do desempenho dos artigos brasileiros na área da Química tem caído. Isso aponta para um distanciamento entre os pesquisadores de ponta e os demais.

“Enquanto o impacto médio da nossa produção cai de 2005 para cá, há um aumento de estudos muito influentes dentro do total de artigos publicados – ou seja, ocorre uma elitização (do ponto de vista intelectual) na área de Química. Isso mostra que a elite de nossa ciência química se distancia cada vez mais do pesquisador médio na área”, explica o texto.

Mau desempenho nas humanas

Nas ciências humanas, todas as cinco disciplinas estão abaixo do esperado - ou seja, os 10% de artigos brasileiros mais citados ficam abaixo dos 10% mais citados globalmente.

Apenas em Administração o índice se aproximou da média (9,8%). Em seguida, aparece a Economia (7%). Em situação ainda pior, estão a Psicologia (4,1%), as Ciências Sociais (2,1%) e as Artes e Humanidades, com o pior índice (0,8%). De acordo com o professor Marcelo Hermes-Lima, o mau desempenho não pode ser atribuído apenas à falta de financiamento adequado. “Esse resultado das humanas é o mais catastrófico, porque o desempenho foi caindo justamente na era de maior influxo de dinheiro. E nós estamos falando da elite das humanas”, reforça.

Outras áreas com baixo desempenho de acordo com a classificação feita pelo pesquisador são a Matemática (3,7%) e a Veterinária (1,7%). Como destaques, acima do limiar de 10%, aparecem as áreas de Energia (15,5%), Engenharia Química (15,1%), Química (14,7%), Meio Ambiente (14,1%), Física (14%) e Imunologia (12,6%).

   Biologia e Agricultura 7,4
   Bioquímica 13
   Farmacologia 12
   Imunologia 12,6
   Neuro 14
 
   Medicina 9,1
   Odontologia 7,3
   Enfermagem 6,4
   Veterinária 1,7
   Saúde-outros 5,3
 
   Física 14
   Matemática 3,7
   Meio Ambiente 14,1
   Química 14,7
   Geologia 10,3
 
   Engenharias 9,0
   Computação 5,3
   Materiais 10,6
   Engenharia Quím. 15,1
   Energia 15,5
 
   Ciências Sociais 2,1
   Artes e Human. 0,8
   Psicologia 4,1
 
   Administração 9,8
   Economia 7,0

Paquistão: exemplo positivo

Um exemplo positivo citado no estudo é o do Paquistão, um país cujo Produto Interno Bruto (PIB) per capita é apenas um quinto do brasileiro. Nas últimas duas décadas, o país deu um salto expressivo na qualidade da sua produção científica, e superou o desempenho dos brasileiros mesmo nas áreas em que o Brasil se destaca, como a Física.

No valor agregado, levando em conta todas as áreas de pesquisa, a diferença é ainda mais evidente: tendo em conta sempre o critério dos 10% de artigos mais citados de cada país, o Paquistão saltou de aproximadamente 4% no índice global em 2000 para mais de 14,4% em 2018 (embora os dados de 2019 estejam disponíveis, eles são menos confiáveis por serem muito recentes). No mesmo período, o Brasil patinou por volta dos 8%, com uma ligeira evolução nos últimos anos (de 2005 para 2019, o índice passou de 7,4% para 8,6%).

Para efeitos de comparação, países com similaridades culturais e econômicas apresentaram índices superiores ao do Brasil no índice que leva em conta todos os campos da ciência: é o caso do Chile (13,1%) e de Portugal (14,5%).

Por fim, o estudo também analisou a "super-elite" da pesquisa, que abrange os 1% de artigos mais citados. Também por esse critério, o Brasil fica abaixo do esperado. O 1% de artigos mais citados corresponde a 0,8% da super-elite global, quando o natural seria que eles representassem pelo menos 1% desse número. Entretanto, apesar de estarmos atrás de Paquistão (1,7%), Portugal (1,7%) e Chile (1,6%) neste critério, o ponto positivo é que a participação da super-elite brasileira tem aumentado. O percentual passou de 0,4% para 0,8% entre 1996 e 2018. Esses números, entretanto, são menos representativos porque, devido ao número reduzido de artigos nesta categoria, a oscilação nos índices tende a ser maior.

O estudo do professor Hermes-Lima sugere que o Brasil precisa dar atenção especial a quatro áreas cuja relevância está em queda, quando levado em conta o desempenho da elite dos pesquisadores: as Artes e Humanidades, a Matemática, a Bioquímica e a Odontologia. “A elite da comunidade acadêmica é o motor da inovação científica. Se ela está ineficiente e com baixo impacto, há grande chance de afetar o pesquisador médio”, diz ele.

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