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Não existe bala de prata para melhorar a educação no Brasil. A solução é sistêmica, exige mexer em várias peças ao mesmo tempo e, nessa ação, é preciso enfrentar com coragem algumas brigas, também com as universidades. A opinião é de Claudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, ex-professora da Universidade de Harvard, foi secretária de Educação do Rio de Janeiro e atualmente é diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Em entrevista para a Gazeta do Povo, ela comenta temas polêmicos – como a formação dos professores, a postura dos sindicatos, o Escola sem Partido – e explica por que é importante alfabetizar as crianças o quanto antes – brincando.

O Brasil melhorou um pouco, de acordo com o último Ideb, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. As maiores dificuldades de ensino e aprendizagem parecem estar do 6º ao 9º ano e no ensino médio. O que é preciso fazer para recuperar essas duas etapas no ensino público?

Antes de falar do que precisa ser feito, é preciso entender porque isso acontece. E uma das razões é a [baixa] atratividade da carreira de professor, peça-chave do aprendizado. A carreira do professor é pouco atrativa, e isso passa por salários, mas não só por salários, passa pela falta de reconhecimento social da profissão. 

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O que mais, além dos salários, depõe contra a carreira de professor?

Entre outras coisas, para além do salário, é o fato de que os contratos são, especialmente do sexto ano em diante, para cargas horárias muito pequenas – 16 horas, 10 horas –, o que obriga o professor ou a dar aulas em inúmeras escolas, às vezes até em cidades diferentes, ou a ter outra profissão além de professor. Ser professor vira uma das carreiras, e não “a carreira”. Isso leva a uma grande “desprofissionalização” do professor. 

Isso tem a ver também com outro problema, que é a carga horária reduzida do aluno. No ensino médio, por exemplo, e no ensino fundamental também, em média, o aluno tem quatro horas de aula. É muito pouco.

É verdade que na Finlândia, por exemplo, são só seis horas, mas quatro horas é muito pouco. Se você pega os trinta melhores do Pisa [avaliação internacional que reúne mais de 70 países], incluindo o horário de almoço – que, no Brasil, inclui a refeição, dentro das quatro horas na escola – os alunos ficam de sete a nove horas na escola. 

Isso melhora tanto a aprendizagem do aluno quanto a possibilidade de o professor ficar quarenta horas, como qualquer outro profissional de mesma escolaridade, em uma única escola com tempo de atividade extraclasse e trabalho colaborativo com os seus colegas, para poder corrigir os trabalhos na escola e tudo mais. Se ele não estiver nessas condições, e se o aluno não tiver mais aulas, perde-se qualidade.

Então a solução para melhorar o ensino fundamental de 6º ao 9º ano e no ensino médio passa, em primeiro lugar, por melhorar o salário e condições de trabalho do professor.

Sim, mas além de tornar a profissão mais atrativa, que passa pelo salário e outras condições de trabalho, passa, também, por tornar o processo de escolha da profissão muito mais seletivo.

O que quer dizer isso? O Chile tornou o acesso à profissão de professor mais seletivo exigindo uma nota de corte muito mais alta no equivalente do Enem deles, para poder entrar para a formação de professor.

A Finlândia tornou também muito mais seletivo o processo de acesso à profissão de professor. Quando é muito fácil “virar” professor, ou seja, o estudante faz um curso de Pedagogia que é pouco competitivo ou entra na licenciatura porque é mais fácil do que entrar no bacharelado, a profissão não é valorizada. 

Se os melhores alunos decidirem ser professores já resolveremos boa parte do problema da educação no país?

Há um segundo ponto que complementa isso que é a formação que eles [alunos de Pedagogia] recebem na universidade – que é excessivamente teórica e muito divorciada da realidade do chão da sala de aula.

Quando alguém vai formar um médico, desde o primeiro ano de faculdade faz o aluno frequentar os pacientes, o aluno é exposto à prática. Em engenharia também. Em educação, o aluno só vai dar a sua primeira aula quando termina a faculdade. Ele pode fazer um estágio, assistir às aulas de outros professores, ajudar outro professor, mas ele não pode dar aula. 

Todas essas condições afastam os melhores alunos. 

Temos professores fabulosos, mas há uma tendência a não ampliar o acervo de talentos porque a cada ano ela se torna menos atrativa.

Então a solução passa por tornar a carreira mais atrativa, selecionar os melhores alunos para serem professores e mudar como é a formação dos professores na universidade.

Isso. A solução para o problema é sistêmica, não tem uma bala de prata, é preciso mexer em várias peças ao mesmo tempo.

Mas mudar a faculdade é muito difícil.

É preciso enfrentar. Ninguém transforma a educação sem comprar algumas brigas. Nós tivemos avanços em algumas políticas públicas corretas, mas que demandavam menos brigas.

Se olharmos para o exemplo da Finlândia, eles só transformaram a educação deles em um processo de guerra com a universidade, há cerca de quarenta anos. Porque eles decidiram tornar a formação de professores mais profissionalizante. E a universidade achava que tornar mais profissionalizante era desmerecer a educação. Como se em medicina ser profissionalizante, como ela de fato é, fosse desmerecer a profissão de médico.

É uma questão ideológica?

A questão não é necessariamente ideológica... bom, depende do que se define como ideologia.

Existe certo preconceito com a técnica. É preciso resgatar o papel da práxis, da prática. Quando olhamos para Medicina, verificamos que há protocolos para tratar doenças. E técnicas para determinadas situações. Um médico muito bom, apesar de conhecer profundamente a técnica e os protocolos para tratar de determinadas doenças – baseados em evidências científicas – ele pode dizer que num caso específico, dada a combinação de diferentes doenças no caso deste paciente, ele não vai usar o protocolo recomendado.

Em educação, nem existem protocolos e há certo preconceito com técnicas. Mas alfabetizar é um fazer bastante complexo, que demandaria um professor bastante experimentado e capacitado para alfabetizar. Não é uma arte, o educar. Ela demanda procedimentos específicos e eles têm que ser ensinados na universidade. E aperfeiçoados com a prática.

Parece difícil melhorar em curto prazo prática em sala de aula no Brasil.

A mudança na Finlândia aconteceu há 40 anos, e podemos fazer isso. O Conselho Estadual de Educação de São Paulo, por exemplo, passou a exigir muito mais tempo de estágio das universidades estaduais paulistas na formação de professores (a Unicamp, a USP e a Unesp).

A BNCC [currículo mínimo a ser adotado nas escolas] está centrada em desenvolver competências nos alunos. E quais são as competências que os professores deveriam desenvolver ao longo do seu curso universitário? Iniciativas, como a Base Nacional Docente, deverão ajudar as universidades a melhorar seu syllabus das disciplinas. Escolher as disciplinas e não, simplesmente, organizar os currículos com base nos professores que eles conseguiram aquele ano para dar aula. Tem que ser uma coisa mais profunda.

Os sindicatos ajudam ou atrapalham?

Acho que no caso da universidade não tem a ver com o sindicato. Em todas as universidades existem posições de poder, e essas posições de poder advêm de um determinado conhecimento que eles têm. Se muda a forma de organizar o processo de ensino, alguns professores universitários veem sua posição de poder ameaçada.

Em relação aos sindicatos, a questão é outra. Temos, por um lado, a luta por melhores condições de trabalho, que é louvável, e que deveria haver pontes mais fáceis no diálogo entre o sindicato e os gestores para isso. Mas existe, também, em certo sentido, uma desvalorização dos direitos de aprendizagem dos alunos. É muito importante que o país olhe com muito respeito ao direito de aprender dos alunos. Por isso foi tão importante criar a BNCC e, depois, traduzir isso em currículos estaduais e municipais.

Como a senhora avalia o modelo de Goiás dos colégios militares? Eles têm tido bons resultados no ensino fundamental e médio.

A diferença do modelo de Goiás para os colégios militares convencionais – os da Bahia também estão indo para um caminho parecido – é que não tem prova de seleção para ingresso no colégio. Quando tem prova de entrada, o professor só trabalha com alunos sem grandes dificuldades, provavelmente de classe média em muitos casos, com raras exceções. Não dá para imaginar um modelo desse para todas as crianças.

No caso de Goiás, não tenho nada contra esse modelo. A educação pública deveria ser um espaço para, por um lado, não excluir, trabalhar com todos e, por outro, possibilitar a experimentação de boas práticas.

Os colégios militares têm bastante meritocracia, o que é criticado por muitos educadores.

Acredito em meritocracia desde que você construa igualdade de oportunidades. As duas coisas têm que caminhar juntas. Sou a favor de cotas, porque penso que é uma pré-condição para a meritocracia, porque acredito em meritocracia. 

Aos alunos mais vulneráveis, é preciso dar os melhores professores e construir um sistema de reforço escolar.

Mas, ao mesmo tempo, é preciso ter altas expectativas para todos, ou seja, não é porque um aluno vem de um meio vulnerável que vamos passar uma mensagem que qualquer coisa que ele fizer está bom. Então, promover a meritocracia, desde que tenha esse cuidado de dar condições melhores ou mais suporte para os alunos de ambientes mais vulneráveis.

Como melhorar a alfabetização e o ensino do 1º ao 5º ano do ensino fundamental?

Primeiro é preciso evitar a transição dolorosa da educação infantil para o primeiro ano, não deveria ser assim. A criança pequena aprende brincando, mas não é um brincando qualquer, tem que ser um brincando com intencionalidade pedagógica. Alguns acham que deveria ser proibido alfabetizar antes do primeiro ano, acho isso uma grande bobagem. Desde que seja de forma lúdica, a criança é sedenta para aprender, a criança pequenininha adora aprender. Então é ótimo organizar vários campos de experiência, de oportunidades para a criança se desenvolver e aprender dentro daquilo que ela está pronta para aprender. E as crianças têm grande curiosidade sobre a alfabetização.

E depois, não dá para entrar no primeiro ano e, imediatamente, enfileirar as crianças e colocá-las em uma situação de carga horária por disciplina. Nesse sentido, funcionam muito bem abordagens como Montessori, em que as disciplinas se integram, não existe enfileiramento de carteiras, as crianças trabalham em vários cantinhos. E fomentar uma alfabetização bem feita no primeiro ano, não precisa nem ser no segundo.

Uma criança que se desenvolve bem, é curiosa e que consegue trabalhar de uma maneira mais lúdica, ela pode se alfabetizar no primeiro ano e consolidar essa alfabetização no segundo ou no terceiro. 

Infelizmente, se considerarmos o nível 1 e 2 da escala do Saeb, mais de 50% das crianças não se alfabetizam no 3º ano.

Porque postergamos essa alfabetização, porque temos uma visão errada de que aprender é uma coisa difícil ou chata e vamos deixando para alfabetizar mais para frente na escola pública. Enquanto a criança que está na escola particular muitas vezes é alfabetizada na pré-escola. Se retardamos a alfabetização, só aumentamos a desigualdade educacional. Sanar essa lacuna é muito difícil. Na idade em que ela mais está motivada para aprender, não ensinamos.

EDITORIAL: O Escola sem Partido e a doutrinação no ensino: solução equivocada para um problema real

Iniciativas como o Escola sem Partido ajudam ou atrapalham?

Primeiro, doutrinação sempre existiu em escola. Como havia nos anos 40, como havia nos anos 50. Se visitamos o Museu do Holocausto, lá em Israel, vemos inúmeras páginas de livros didáticos na Alemanha com caricaturas de judeus, ensinando as crianças que os judeus são malévolos. Ora, sempre existiu doutrinação na escola.

Como é que combatemos? Certamente, não colocando as crianças para filmar ou fotografar trechos de aulas de professores. Já é tão pouco atrativa a profissão do professor. Vamos colocar todos os professores sob suspeita? Já é tão difícil para o professor impor disciplina. É grave dizer para os alunos: “não respeitem seus professores e filmem as aulas deles para denunciá-los”. Isso lembra ou o nazismo ou o stalinismo – para pegar duas vertentes bem diferentes.

O que vai resolver o problema de doutrinação são os cursos de formação de professores passarem a formar docentes que ensinam a pensar. Defendo essa tese há muito tempo, “por uma escola que ensine a pensar”. Ensinar a pensar não é decorar a visão de mundo do professor. Isso só forma seguidores de líderes das massas. É preciso ensinar métodos, técnicas para ensinar a pensar.

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