Ciro Gomes apoia candidatura de Sarto à prefeitura de Fortaleza.| Foto: Assembleia Legislativa do Ceará
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A influência da família Ferreira Gomes sobre os rumos políticos de Fortaleza está sob risco. Depois de vários anos alternando aliados na prefeitura da capital cearense e também no governo do estado, a eleição de 2020 tem se mostrado um desafio inédito na tentativa de emplacar mais um prefeito alavancado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes.

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José Sarto (PDT) é deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa do Ceará, mas relativamente desconhecido do eleitorado – esta é primeira vez que ele tenta um cargo no Poder Executivo. Sarto foi o escolhido do partido liderado pelos irmãos Ferreira Gomes como o candidato de sucessão ao atual mandatário Roberto Cláudio (PDT), que não pode tentar a reeleição porque está finalizando o segundo mandato.

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O enredo é praticamente igual ao de 2012. Roberto Cláudio era presidente da Assembleia Legislativa e foi lançado como candidato à prefeitura pelo PSB, partido de Cid e Ciro Gomes na época. No segundo turno, ele bateu o concorrente do PT, Elmano de Freitas, com 53,02%. Quatro anos mais tarde, já filiado ao PDT, foi reeleito também no segundo turno ao vencer Capitão Wagner, então do PR – hoje ele é novamente candidato, dessa vez pelo Pros.

Ao contrário de 2012, a campanha do escolhido pela dupla não deslanchou completamente – pelo menos por enquanto. De acordo com pesquisa do Datafolha, divulgada na última quarta (28), Sarto tem 22% das intenções de voto, e está tecnicamente empatado com e Luizianne Lins (PT, 19%). Capitão Wagner lidera com 31%.

Sarto cresceu sete pontos da primeira para a segunda pesquisa Datafolha, enquanto Luizianne caiu 5. Mesmo assim, a ida para o segundo turno não está garantida – o que coloca dúvidas não só sobre a competitividade do candidato do PDT mas, especialmente, sobre o poder de mobilização e influência dos Ferreira Gomes.

Além disso, segundo o Datafolha, em um eventual segundo turno entre Capitão Wagner e Sarto, o primeiro teria 44% das intenções de voto, e o segundo, 43%, o que configura empate técnico dentro da margem de erro de 3 pontos percentuais.

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Atual prefeito assume palanque no lugar de Ciro Gomes

“Em 2012, o Cid Gomes era o governador, então o poder de influência e força para transferir votos para o candidato era muito expressivo”, avalia a cientista política e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Monalisa Soares. “Eles estão apagados na campanha. Não há a imagem deles, não há menção ao nome deles”, prossegue.

Os irmãos têm se limitado a trabalhar nos bastidores e usam a imagem positiva do atual prefeito para tentar impulsionar Sarto na disputa. Roberto Cláudio, segundo pesquisa Ibope, tem aprovação de 66%. E, de fato, ele tem sido o principal cabo eleitoral de Sarto, ainda mais após o candidato ter testado positivo para a Covid-19 em 5 de outubro – ele chegou a ficar no hospital por quatro dias.

Sem poder fazer campanha presencial, Sarto contou com o prefeito, que tem comandado carreatas e eventos eleitorais do correligionário. Somente na quinta-feira (22), após deixar o hospital, o candidato retomou o corpo a corpo. “Eles não estão diretamente no comando dos governos. Então mobilizam muito a força do atual prefeito. Ele é quem está integralmente na campanha. Com a internação do Sarto, o Roberto Cláudio praticamente assumiu a campanha”, diz Monalisa.

Os materiais de campanha de Sarto nada têm explorado a imagem dos irmãos Cid e Ciro. De certa forma é uma precaução, especialmente após o Datafolha apontar que 53% dos entrevistados não votariam de jeito nenhum em um candidato apoiado por Ciro Gomes – apenas 15% afirmaram que a figura de Ciro os levariam a votar no candidato apoiado por ele.

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Essa rejeição é particularmente curiosa porque Ciro Gomes foi o candidato a presidente em 2018 mais votado em Fortaleza. Naquele pleito ele abocanhou 40,13% dos votos – total de 546.488 eleitores –, ficando na frente de Jair Bolsonaro (sem partido, 34,38%) e Fernando Haddad (PT, 19,31%).

“Em dois anos, Ciro perdeu um capital político expressivo na capital. E nesse momento é difícil compreender o que é rejeição a ele e o que é rejeição ao grupo ou à continuidade política”, pondera Monalisa.

Ruptura com PT joga pressão extra sobre os Ferreira Gomes

Ao mesmo tempo em que usa a boa imagem do prefeito Roberto Cláudio, a candidatura de Sarto tenta se colar ao governador do Ceará, Camilo Santana (PT). Camilo foi alçado ao Executivo estadual em 2014, com forte apoio dos Ferreira Gomes que, inclusive, indicaram a vice Izolda Cela na chapa – em 2014, Izolda era do Pros e, em 2018, do PDT, partidos de Cid e Ciro Gomes em ambos os pleitos. Segundo o Ibope, 19% dos entrevistados consideram o governo do petista ótimo e outros 37% avaliam a gestão como boa.

A participação de Camilo, porém, é limitada, já que a disputa conta com uma candidatura forte do PT, a de Luizianne Lins. E é exatamente ela quem tem usado a imagem do governador para alavancar a campanha, o que até o momento tem funcionado.

E, apesar de estarem em espectros políticos mais próximos, PDT e PT não falam a mesma língua em Fortaleza desde 2012. Na eleição daquele ano, houve uma ruptura entre os petistas e os irmãos Ferreira Gomes. Apoiada por eles na reeleição em 2008, Luizianne não viu o mesmo tratamento no pleito seguinte, quando o candidato petista Elmano de Freitas foi preterido por uma candidatura própria do PSB encabeçada por Roberto Cláudio. O nome que os irmãos queriam no PT era o de Camilo Santana, eleito dois anos depois governador do estado.

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“Em Fortaleza, o caso é prévio. Já existe essa ruptura desde 2012. Ela [Luizianne] nutre mágoas e ressentimentos políticos. A Luizianne e os Ferreira Gomes são hoje dissidentes entre si. A pauta PT e Ciro Gomes de 2018 só adensou algo que já era local”, observa a professora da UFC, lembrando o distanciamento entre Ciro Gomes e o candidato do PT, Fernando Haddad, alçado pelo ex-presidente Lula.

A eventual ida de Luizianne para o segundo turno deixaria o PDT e seus principais líderes sem o mínimo controle do poder na capital cearense. Por isso, mais do que nunca, os Ferreira Gomes devem avançar pelos bastidores para levar Sarto ao segundo turno.

“Eles podem ter sucesso porque têm muitos elementos que ajudam. A máquina da prefeitura e do governo do estado, por exemplo. E o Sarto é um político com muitas relações na Assembleia e com capacidade de reproduzir isso em sucesso eleitoral. Mas a imagem simbólica dos Ferreira Gomes deixou de ser um ativo”, completa Monalisa.

Metodologia das pesquisas citadas nesta reportagem

  • Sob encomenda do jornal O Povo, o Datafolha ouviu 868 eleitores de Fortaleza entre os dias 26 e 27 de outubro de 2020. O levantamento tem nível de confiança de 95%, com margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob a identificação CE-07074/2020.
  • Sob encomenda do jornal O Povo, o Datafolha ouviu 812 eleitores de Fortaleza entre os dias 14 e 15 de outubro de 2020. O levantamento tem nível de confiança de 95%, com margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob a identificação CE-09449/2020.
  • Sob encomenda da TV Verdes Mares, o Ibope ouviu 602 eleitores em Fortaleza entre os dias 12 e 14 de outubro. O levantamento tem nível de confiança de 95%, com margem de erro de 4 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob a identificação CE-05307/2020.