Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil e presidente do PP, lideram as articulações pela reeleição do presidente Jair Bolsonaro| Foto: Benné Mendonça/Casa Civil
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O Centrão segue, em sua maioria, unido e fiel ao governo Bolsonaro, mas a proximidade da disputa eleitoral começa a seduzir algumas poucas lideranças a darem sinais públicos de desembarque da base governista para apoiar outras pré-candidaturas, incluindo a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Cientes da aptidão política de alguns, os caciques de PL e PP atuam internamente para manter o grupo unido pela candidatura à reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL).

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O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o presidente licenciado do PP e ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, são as duas principais vozes que atuam pela unicidade eleitoral da campanha de Bolsonaro em suas legendas. Os dois conversam continuamente com dirigentes partidários e outras lideranças e não sentem uma sinalização de debandada na base.

Porém, Nogueira e Costa Neto sabem que não vão conseguir reter o apoio integral de todo o Centrão — que ainda inclui o Republicanos — em torno da candidatura de Bolsonaro. Cientes disso, ambos têm usado seu próprio capital político para destacar em conversas com seus liderados que é melhor estar com o governo em 2022 do que no palanque com Lula.

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A convivência com Bolsonaro e a leitura do cenário eleitoral feita pelos caciques de PP e PL sugere que, para os partidos e as bancadas da atual base governista, há mais previsibilidade política em apoiar a reeleição do que embarcar em outra candidatura, mesmo a de Lula, com quem Nogueira e Costa Neto têm uma boa relação pessoal.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

O que pensam Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto sobre Lula

O histórico da relação de Lula com Valdemar Costa Neto e Ciro Nogueira não é de distanciamento. Naturalmente, dada a atual conjuntura política, os presidentes de PL e PP não têm mais a mesma proximidade em comparação a quando o petista estava no comando do Palácio do Planalto, mas também não são opositores.

Pessoalmente, Costa Neto e Nogueira gostam de Lula, são amigos e, em outro momento, até se sentariam para jantar com ele. Entretanto, politicamente falando, eles não confiam mais em Lula como na campanha de 2002, afirmam lideranças de ambos os partidos à Gazeta do Povo.

A leitura feita pelos caciques do Centrão é de que existe mais previsibilidade em um cenário com Bolsonaro reeleito do que em um com Lula de volta ao poder. Com Bolsonaro, o Centrão já tem um vasto comando das emendas de relator por meio da figura do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Depois, o grupo político passou a ter um poder inédito para administrar o Orçamento.

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Com Lula, a análise de Costa Neto e Nogueira é de que não teriam a mesma influência, ainda que elejam bancadas numerosas na Câmara dos Deputados – que é o principal objetivo de ambas as legendas em 2022. Mesmo cientes de que Lula ainda precisaria negociar com o Centrão para aprovar projetos mais polêmicos, sobretudo propostas de emendas à Constituição (PEC), o cálculo político é de que não teriam a mesma abertura política que têm atualmente.

Uma análise na cúpula do Centrão é de que, em caso de eleição, Lula estruturaria sua equipe ministerial majoritariamente com quadros do PT e de partidos que o apoiarem na campanha presidencial. Pesa na conta, ainda, o fato de a maioria de PP e PL terem apoiado o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

A análise feita na cúpula do Centrão sobre Lula foi destacada nas entrelinhas pelo próprio Ciro Nogueira em recente entrevista à CNN Brasil, quando ele afirmou que "o Lula de 2022 é muito pior que o Lula de 2002".

Correligionários de Ciro sustentam que não se trata de uma fala meramente oportunista, apesar de, em 2017, ele ter declarado que não se via em uma eleição "votando contra Lula". "A questão é que, agora, existe uma desconfiança [sobre] se Lula realmente montaria uma gestão 'paz e amor' com o PP e o PL", diz um deputado do Centrão.

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Qual é o recado transmitido às bases do Centrão

A avaliação da conjuntura eleitoral chegou a ser discutida por Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto junto a lideranças próximas. No PP, a diretriz é feita de "cima para baixo", explicam deputados. O Rio de Janeiro, base eleitoral do presidente de honra do partido, o ex-governador e ex-senador Francisco Dornelles, é um exemplo.

O presidente honorário do PP é um dos que pregou a unidade no partido nas discussões sobre uma possível filiação de Bolsonaro. Embora não tenha se posicionado como um franco defensor de lançar o presidente à reeleição pelo partido, auxiliou a evitar um racha maior na sigla e, agora, é uma das vozes que defende a tese pragmática de Ciro Nogueira de manter o PP na base do governo.

O presidente do diretório estadual do PP no Rio, deputado federal Luiz Antonio Teixeira Júnior (PP-RJ), o "Dr. Luizinho", tem alertado a bancada fluminense de que é preciso ter cuidado em um possível governo Lula. O discurso é de ligar o sinal amarelo e ter cuidado e os "pés atrás" por entender que qualquer aliança com o petista não asseguraria compromissos em uma possível nova gestão petista.

No caso do PP, a estratégia de Nogueira em transmitir diretrizes de "cima para baixo" do partido se deve ao fato de que, diferentemente do PL, o Progressistas tem menos concentração de poder em suas mãos. Lideranças reconhecem que ele tem um controle limitado e não consegue, por exemplo, assegurar o apoio das bases da legenda a Bolsonaro, sobretudo no Nordeste, a região onde o PP mais se opôs a uma possível filiação do presidente e ainda se opõe a uma coligação nacional.

O PP e o Republicanos são os partidos da base onde há oposição a Bolsonaro nos estados. Por isso, os presidentes Ciro Nogueira e Marcos Pereira cogitam liberar suas bancadas nos estados para fortalecer as articulações de que, a nível federal, ambos os partidos estejam na mesma coligação com o PL, que não enfrenta mais resistências.

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"O PP não é o PL, que o Valdemar tem um poder mais concentrado. Tem bases que não obedecem o Ciro, como no Nordeste. Por isso existe, sim, a possibilidade de ele liberar as bancadas nos estados", sustenta uma liderança do PP. "Ele vai respeitar quem quiser outro caminho, mas quem não quiser estar com o Bolsonaro já sabe que ele pode ajudar mais ou menos, em cima daquilo que for fidelidade e comprometimento com a decisão nacional do partido, que estará com Bolsonaro", complementa.

Ou seja, embora o discurso no PP é de que Nogueira vai dar autorização para alguns diretórios articularem seus arranjos estaduais, quem não estiver com Bolsonaro pode ser preterido nos acordos envolvendo o empenho e o pagamento de emendas parlamentares. Além disso, o ministro da Casa Civil também tem avisado que fará movimentos de filiação de novos membros, inclusive ministros do governo, como Fábio Faria, das Comunicações, e Tereza Cristina, da Agricultura.

O discurso não é diferente no Republicanos. Uma liderança do partido afirma que, nacionalmente, o partido ficará com Bolsonaro, mas que, nos estados, Marcos Pereira deve liberar os diretórios estaduais a construírem suas alianças para governadores. "E o Bolsonaro nem está ligando muito para os estados, ele quer fazer senadores, deputados", sustenta uma liderança do Republicanos.

Quais as chances de debandada da base do governo

A cúpula do Centrão acredita que o trabalho desempenhado nos bastidores por Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto, e também por Marcos Pereira será determinante para evitar uma dispersão da base nas eleições. Porém, algumas poucas lideranças tomaram a dianteira e já acenam com apoio ao ex-presidente Lula. A exemplo do deputado federal Sílvio Costa Filho (Republicanos-PE), que declarou apoio público ao petista em outubro. O parlamentar se articula para ser o candidato do petista ao Senado. "O nosso caminho em Pernambuco, não tenha dúvida, será ao lado do ex-presidente Lula", revelou, no ano passado, ao Blog do Alberes Xavier.

Outra liderança que deve apoiar Lula é Cacá Leão (PP-BA), líder do partido na Câmara. Leão é filho do vice-governador da Bahia, João Leão (PP), estado governado por Rui Costa (PT). O PP no estado vai permanecer na base petista e apoiar a pré-candidatura de Jaques Wagner (PT-BA) ao governo do estado.

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"Apesar do apoio nacional a Bolsonaro, temos a garantia de independência e autonomia. O ex-presidente Lula tem buscado a conciliação, somar apoios", declarou Cacá, ao site Política Livre. "A conversa do PP da Bahia e de outros estados, como Pernambuco, é no sentido de ele [Lula] receber o apoio do partido", complementou.

Uma liderança do PP no Nordeste afirma à reportagem que vai estar na base de Bolsonaro nas eleições, mas reconhece que outros embarcarão na candidatura de Lula motivados pelo apelo que o ex-presidente tem junto ao eleitorado nordestino.

O vice-presidente do PL, deputado federal Capitão Augusto (SP), avalia que casos como o de Sílvio Costa Filho e Cacá Leão são pontuais e, por isso, não acredita que aliados deixarão de apoiar Bolsonaro. "Não há debandada alguma, estamos mais otimistas do que nunca. Alguns deputados da base a gente já sabia que jamais estariam conosco e nunca foram centro de nada, sempre foram esquerda, e é natural, não tem como ter unanimidade. No próprio PL, tínhamos 43, dois eram contrários [a Bolsonaro], e isso não é debandada", destaca.

O deputado federal Giacobo (PL-PR), presidente do diretório paranaense, reforça que não existe debandada na base e que os apoios de alguns ao PT precisam ser analisados caso a caso. "Alguns estados sempre têm um ou outro probleminha, e esses casos citados não podem ser reportados como debandada. Debandada de base aliada do governo, que eu saiba, não existe", avalia.