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Disputa municipal

Mudanças no cenário eleitoral e despolarização: o impacto das enchentes na política de Porto Alegre

Região central de Porto Alegre ficou completamente alagada após fortes chuvas de maio.
Região central de Porto Alegre ficou completamente alagada após fortes chuvas de maio. (Foto: Gustavo Garbino/Prefeitura de Porto Alegre)

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O cenário eleitoral de Porto Alegre (RS) ficou ainda mais incerto após as enchentes que invadiram a cidade e deixaram bairros embaixo d’água no mês de maio. Segundo especialistas, é possível que a esfera política caminhe para mudanças de apoios, esvaziamento da pré-candidatura à reeleição do atual prefeito Sebastião Melo (MDB), fortalecimento de outros candidatos e até nova opção para o eleitorado após movimentos do governador Eduardo Leite (PSDB).

Avaliar o impacto das enchentes na votação ainda é prematuro, considera o professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Rodrigo Stumpf González. Ele admite que Melo ficou desgastado com a reação da prefeitura às cheias mesmo com a estratégia do prefeito de tentar distribuir as responsabilidades com o governo do Estado e a União.

“A imagem dele ficou um pouco arranhada e isso não significa necessariamente facilitação da vitória da esquerda, mas talvez possa levar ao esvaziamento da candidatura dele com aliados que podem preferir outro candidato”, pondera González. A pré-candidatura do prefeito tem apoio do PL - que deve indicar uma mulher como vice da chapa, além de PP, Podemos, PRD e SD.

A redução da força eleitoral de Melo após as enchentes também é apontada pelo cientista político e consultor de marketing eleitoral Juliano Corbellini: “Há três ou quatro meses, não havia dúvidas de que ele (Melo) estava com o favoritismo e isso ele não tem mais”. Pesquisa eleitoral da Atlas Intel* divulgada após a crise da capital gaúcha, apontam que a pré-candidata do PT, Maria do Rosário, ficaria à frente de Melo no primeiro turno, mas o atual prefeito venceria no segundo turno.

Em uma tentativa de fortalecer a candidatura, Maria do Rosário tem feito rodas de conversas em bairros de Porto Alegre e também com ex-prefeitos. No último dia 9, publicou trechos de um diálogo com José Fortunati, que comandou Porto Alegre entre 2010 e 2016. A estratégia da campanha da pré-candidata deve ser o debate sobre a cidade - sem polarizar e nacionalizar as discussões.

Corbellini aponta, ainda, “duas peças” que, após esse período de crise, podem influenciar o cenário eleitoral: Nelson Marchezan Júnior (PSDB) e Juliana Brizola (PDT). Marchezan recebeu o apelo do governador Eduardo Leite (PSDB) para ser candidato no pleito de outubro. A possível entrada do ex-prefeito da cidade (2017-2020) na disputa eleitoral pode dividir os votos da direita. Em 2020, ele foi candidato à reeleição e ficou em terceiro lugar com 20,07% dos votos.

No entanto, o PSDB está federado com o Cidadania, que lançou Any Ortiz como pré-candidata. “O Cidadania já firmou posicionamento de que se não houver a possibilidade da Any Ortiz, o partido entende que não se deve colocar candidatura e, sim, apoiar o Melo”, diz o presidente da sigla em Porto Alegre, Rodrigo Karan.

Já em relação à pré-candidata Juliana Brizola, Corbellini afirma que se o partido conseguir o apoio do União Brasil, com uma possível indicação de Thiago Duarte (União Brasil) como vice, Juliana Brizola “muda o tamanho na eleição”. González diz, ainda, que ela pode se apresentar como uma alternativa de centro e centro-direita, atraindo votos de Melo e também de Maria do Rosário.

Segundo o presidente municipal do PDT, José Vecchio, o partido mantém as conversas para uma aliança com o União. “Há disposição para nos aliarmos, mas ainda há um longo caminho a ser seguido até fechar uma coligação”. No entanto, Duarte, que é presidente municipal do União Brasil, disse que segue firme como pré-candidato ao Paço Municipal.

Outro nome que despontou no cenário eleitoral, no momento pós-enchente, foi o do deputado estadual Felipe Camozzato (Novo). Na pesquisa Atlas Intel, divulgada em 20 de junho, ele aparece com 9,1% das intenções de voto em um dos contextos analisados pelo levantamento. “Agora é construir uma chapa competitiva”, diz Camozzato, que é o primeiro pré-candidato do Novo à prefeitura de Porto Alegre. Ele está conversando com partidos e lideranças para fortalecer a candidatura, inclusive com siglas que, atualmente, apoiam Melo.

A pré-candidata do PSTU nas eleições de Porto Alegre, Fabiana Sanguiné, deve intensificar as críticas que vinha fazendo à gestão Melo. Além disso, deve se posicionar, na campanha, contra a concessão do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) à iniciativa privada. Fabiana, que é servidora pública, lançou manifesto nesse sentido.

Por sua vez, a vereadora Cláudia Araújo, que é presidente municipal do PSD e também pré-candidata à prefeitura de Porto Alegre nas eleições 2024, entende que, em relação à enchente, é necessário considerar que o sistema de contenção vem desde 1960 e “nenhum governo investiu em manutenção ou reconstrução”. Ela admite, ainda, a possibilidade de entrar para uma chapa como vice, “podendo inclusive fechar apoio a uma majoritária e concorrer à reeleição de vereadora”.

*Metodologia da pesquisa mencionada: a pesquisa AtlasIntel/CNN foi realizada entre os dias 9 e 14 de junho e entrevistou 1.798 eleitores. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança, de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número RS-09253/2024.

Eleições em Porto Alegre devem ser menos polarizadas e focadas em questões da cidade

As enchentes, provavelmente, serão protagonistas da campanha eleitoral, e os candidatos terão que apresentar propostas contundentes de prevenção de cheias - ainda em julho moradores sofrem com as consequências das fortes chuvas, principalmente com lixos acumulados nas ruas.

Com foco maior no tema, a tendência é de que haja uma despolarização nas eleições em Porto Alegre. “As eleições anteriores foram polarizadas em torno de debate de costumes e isso talvez seja esvaziado por uma questão típica de infraestrutura que é como proteger a cidade das cheias, que vai cair no colo dos candidatos”, diz o professor de Ciência Política da UFRGS Rodrigo Stumpf González.

O cientista político Juliano Corbellini ressalta que, apesar da relevância da enchente no debate em Porto Alegre, as eleições não serão um “plebiscito só sobre isso e (o assunto) não vai apagar a questão de avaliação administrativa e de questões da cidade”. González cita, como exemplo, problemas no transporte público e o encolhimento da cidade: “Nos últimos anos, Porto Alegre tem perdido população e crescimento econômico para municípios do entorno e essas são questões que vão ser tomadas”.

Outro assunto que deve permear a campanha eleitoral são as irregularidades na Secretaria Municipal de Educação (Smed). A Polícia Civil fez uma operação, chamada Capa Dura, para investigar a suspeita de fraude licitatória e associação criminosa na prefeitura. A ação, desencadeada em janeiro de 2024, prendeu quatro pessoas.

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