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A discrepância entre os levantamentos divulgados na reta final da campanha e os resultados das urnas no primeiro turno das eleições de 2026 reforçou as cobranças pela revisão das normas que regem as pesquisas eleitorais. O tema foi impulsionado por críticas de Flávio Bolsonaro (PL) aos institutos de pesquisa e promessa de aliados do campo conservador de instalar uma CPI para investigar a atuação dessas empresas.
Na noite deste domingo (4), logo após a divulgação dos resultados, o candidato do PL afirmou que os levantamentos internos da campanha apontavam um cenário distinto daquele projetado por parte dos institutos na reta final da disputa.
"Estou muito satisfeito porque muitos institutos de pesquisa davam a gente atrás. Os nossos trackings davam a gente na frente, como aconteceu, com uma chance real de que nós tivéssemos uma vitória no primeiro turno", afirmou Flávio.
Parlamentares também se manifestaram sobre as divergências. Em publicação no X nesta segunda-feira (5), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) reafirmou a intenção de propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a atuação das empresas de pesquisa. "Em Minas, Datafolha deu 5 pontos pra Lula na frente. Terminou Flávio 5 pontos na frente do Lula. Prometi e lutarei pra isso: faremos a CPI dos institutos de pesquisa ano que vem", disse.
Os números divulgados na véspera da votação ajudam a explicar as críticas. Dos seis principais institutos que publicaram pesquisas na reta final da campanha, apenas o Gerp mostrava o candidato do PL numericamente à frente de Lula nos votos válidos, por 46% a 44%. PoderData (45% a 43%), Datafolha (45% a 42%) e Quaest (46% a 45%) registravam empate técnico, dentro da margem de erro, com vantagem numérica para o petista.
Outros dois levantamentos indicavam uma liderança mais consistente de Lula. A CNT/MDA apontava 47,8% dos votos válidos para o candidato do PT, contra 42,1% para Flávio, enquanto a AtlasIntel registrava 47% a 44,1%.
Na contagem das urnas, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%.
Ainda no sábado (3), data em que foram divulgadas as últimas pesquisas presidenciais antes da votação, o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, avaliou em entrevista ao portal Terra que o cancelamento do debate presidencial da TV Globo poderia provocar um movimento de voto útil em favor de Flávio na reta final da campanha.
O confronto acabou cancelado após impasses envolvendo decisões judiciais relacionadas à exibição do púlpito vazio de Lula e à participação do presidenciável Renan Santos.
Pesquisas eleitorais e urnas divergiram no Paraná e no Rio de Janeiro
As diferenças entre pesquisas e urnas, porém, não se limitaram à corrida presidencial. No Paraná, os institutos acertaram o favorito, mas não a dimensão da vantagem obtida por Sérgio Moro (PL).
O candidato foi eleito ainda no primeiro turno com 50,1% dos votos válidos, acima dos 43% apontados pela Quaest, dos 44,7% da AtlasIntel e dos 40% da Real Time Big Data. Enquanto os levantamentos projetavam uma disputa encaminhada para o segundo turno, Moro ultrapassou a barreira da maioria absoluta e definiu a eleição já no primeiro turno.
O estado também foi palco de disputas judiciais envolvendo pesquisas eleitorais. Às vésperas da votação, a Justiça Eleitoral determinou que Moro retirasse das redes sociais publicações que divulgavam um levantamento do instituto Neokemp indicando uma possível vitória em primeiro turno. O episódio mostrou a preocupação de candidatos e partidos com o potencial das pesquisas de influenciar a percepção do eleitorado sobre o andamento da disputa.
No Rio de Janeiro, os resultados das urnas também contrariaram o cenário traçado pelos principais institutos. Embora as pesquisas indicassem vantagem confortável do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), quem terminou o primeiro turno na liderança foi Douglas Ruas (PL). O candidato chegou perto dos 50% dos votos válidos necessários para liquidar a disputa já na primeira rodada.
Na véspera da eleição, a AtlasIntel atribuía 48,6% das intenções de voto a Paes, contra 39,8% para Ruas. O Datafolha apontava cenário semelhante, com 46% para o candidato do PSD e 38% para o adversário do PL. O resultado das urnas, porém, revelou não apenas uma diferença em relação aos percentuais projetados, mas uma inversão completa da liderança apontada pelos principais levantamentos divulgados às vésperas da votação.
As críticas aos institutos estão longe de ser um fenômeno novo. Nas eleições de 2022, a disputa presidencial já havia sido marcada por diferenças entre pesquisas e resultados das urnas. Na véspera do primeiro turno, os principais levantamentos projetavam uma vantagem de 11 a 14 pontos percentuais de Lula sobre Jair Bolsonaro, mas a diferença final foi de apenas 5,2 pontos.
As divergências também apareceram em disputas estaduais. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pesquisas indicavam vantagem de Cláudio Castro sobre Marcelo Freixo variando entre 9 e 19 pontos percentuais, enquanto o resultado das urnas mostrou uma distância de 31,3 pontos.
Diferenças em 2022 levaram Kassio Nunes a propor mudanças
Essas diferenças observadas nas eleições de 2022 estimularam Kassio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a defender uma revisão das regras aplicáveis às pesquisas eleitorais, com foco em transparência e fiscalização. Entre as propostas discutidas está a criação de um selo de qualidade para institutos cujas projeções apresentem maior proximidade com os resultados das urnas.
As propostas, porém, não se converteram em mudanças concretas antes do pleito de 2026. Com isso, as novas divergências entre levantamentos e urnas voltaram a alimentar cobranças por alterações no sistema.
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo em agosto alertaram que pesquisas eleitorais registram a intenção de voto em um determinado momento e não devem ser interpretadas como previsões definitivas do resultado das urnas. Para a advogada e professora de Direito Eleitoral Francieli de Campos, eventuais discrepâncias entre levantamentos e votação não invalidam, por si só, a credibilidade dos institutos.
Na avaliação dela, possíveis mudanças nas regras devem priorizar a ampliação da transparência e evitar interferências do poder público na metodologia das pesquisas. "Regulamentações focadas em dados abertos e autorregulamentação do setor tendem a ser mais eficazes e imunes à captura política do que tentativas estatais de ranquear ou validar o 'acerto' das estatísticas", afirmou Francieli à Gazeta do Povo na ocasião.
O cientista político Ricardo de João Braga, também ouvido pela Gazeta do Povo em agosto, fez uma avaliação semelhante. Para ele, a confiança nas pesquisas depende mais da transparência dos institutos do que da ampliação do controle estatal. Segundo o especialista, a reputação de cada instituto é construída pela consistência metodológica, pela clareza na divulgação de seus procedimentos e pela proximidade entre os cenários projetados e os resultados efetivamente observados nas urnas.
Metodologia das pesquisas para Presidência da República citadas
- Gerp: 2.400 entrevistados pela Gerp de 30 de setembro a 2 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95,55%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-00509/2026.
- PoderData: 4.000 entrevistados pela PoderData de 30 de setembro a 2 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 1,5 ponto percentual. Registro no TSE sob o nº BR-03519/2026.
- CNT/MDA: 2.007 entrevistados pelo instituto MDA de 30 de setembro a 2 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Confederação Nacional do Transporte. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2,2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-04756/2026.
- Datafolha: O Datafolha entrevistou 4.006 pessoas em 3 de outubro de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Folha de S.Paulo e pelo Grupo Globo de Comunicação e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-01708/2026.
- Quaest: 3.702 entrevistados pela Quaest de 02 a 03 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Editora Globo e pela Globo Comunicação e Participações S.A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-02197/2026.
- AtlasIntel: 4.945 entrevistados pela AtlasIntel de 27 de setembro a 2 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 1 ponto percentual. Registro no TSE sob nº BR-00999/2026.
Metodologia das pesquisas para governo do Paraná citadas
- Real Time Big Data: 1.600 entrevistados pelo Real Time Big Data de 28 de setembro a 1º de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela 3 Poderes Mídia e Comunicação Ltda. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº PR-04002/2026.
- Quaest: 2.004 entrevistados pela Quaest de 2 a 3 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela TV Paranaense. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº PR-05119/2026.
- AtlasIntel: A AtlasIntel entrevistou 1.812 pessoas no estado do Paraná do dia 27 de setembro a 2 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número PR-05944/2026.
- Neokemp: 1.008 entrevistados pela Neokemp nos dias 29 de setembro e 1º de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Jornal O Correio do Povo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3,1 pontos percentuais. Registro no TSE nº PR-05600/2026.
Metodologia das pesquisas para governo do Rio de Janeiro citadas
- AtlasIntel: 2.244 entrevistados pela AtlasIntel de 27 de setembro a 2 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-02601/2026
- DataFolha: 2.010 entrevistados pelo Datafolha em 2 e 3 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Folha de S. Paulo e pela Rede Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-01334/2026.



