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A escolha de uma mulher para ocupar a vice-presidência na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é uma das principais apostas da pré-campanha do PL para reduzir a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre o eleitorado feminino. A estratégia ganhou ainda mais relevância após o atrito público entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, considerada um dos principais ativos do partido junto às mulheres conservadoras.
A avaliação de integrantes da campanha é de que a composição da chapa pode facilitar o diálogo com um dos segmentos em que o senador enfrenta maior resistência. Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostra Lula com 41% das intenções de voto entre as mulheres, enquanto Flávio aparece com 24%. Outros 13% das entrevistadas afirmaram não saber em quem votar, percentual que alimenta a expectativa do PL de conquistar parte desse eleitorado durante a campanha.
A preocupação com o voto feminino antecede o desentendimento entre Flávio e Michelle. Ao longo das últimas semanas, o presidenciável passou a defender publicamente uma maior participação feminina em cargos de comando e afirmou que pretende escolher uma mulher para compor a chapa.
"O que posso falar é que o perfil é de alguém que complemente a nossa chapa, uma pessoa preparada, de bem e interessada; uma mulher", disse ele durante evento em São Paulo no último dia 15.
A estratégia de ampliar a participação feminina também começou a se refletir na estrutura da pré-campanha. Flávio convidou a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques para integrar a equipe responsável pela elaboração do programa de governo na área econômica e passou a citá-la como exemplo de liderança feminina ligada ao campo conservador.
Em outra frente, o PL avalia diferentes nomes para ocupar o posto de vice na chapa. Entre eles estão os das deputadas federais Júlia Zanatta (PL-SC) e Bia Kicis (PL-DF) e o da vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL-CE). Fora da legenda, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP) também aparecem entre as cotadas.
Embora a escolha da vice tenha ganhado peso na estratégia eleitoral, integrantes do PL afirmam que a definição dependerá das negociações conduzidas por Flávio com partidos aliados e da palavra final do ex-presidente Jair Bolsonaro. A expectativa da campanha é anunciar a composição da chapa durante a convenção partidária prevista para o fim de julho, após as conversas com legendas como PP, União Brasil e Republicanos.
Vice mulher é aposta para ampliar alcance da candidatura de Flávio
Entre os nomes que aparecem na disputa está o da deputada Júlia Zanatta, que ganhou projeção nacional ao defender pautas ligadas à direita conservadora e foi publicamente elogiada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A parlamentar afirma estar "pronta para o combate" caso seja escolhida, mas aliados reconhecem que a identificação dela com o campo mais ideológico fortalece a militância, sem necessariamente ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.
Ainda dentro do PL, outro nome discutido é o de Bia Kicis, que, até o momento, é pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio Bolsonaro citou a parlamentar ao comentar a busca por uma mulher para compor a sua chapa.
"Todo mundo quer saber quem vai ser minha vice. Quando eu falei que vai ser uma mulher, surgiram alguns nomes, inclusive o seu [Bia Kicis]. Sei que você é uma pessoa que topa alguns desafios, que está disposta a dar o seu melhor para o Brasil", disse o senador à parlamentar.
A deputada respondeu que está preparada para assumir a função e destacou que pode contribuir com a chapa justamente porque Flávio busca uma mulher para ampliar a composição eleitoral. Outra possibilidade seria a vereadora Priscila Costa, ligada ao eleitorado evangélico.
Ela ganhou projeção nacional por causa da atuação em pautas conservadoras, como a oposição ao aborto e à chamada ideologia de gênero. A aposta dentro da pré-campanha é de que o nome poderia ampliar a presença da chapa no Nordeste e reforçar o diálogo com um segmento considerado estratégico para reduzir a vantagem do presidente Lula na região.
Segundo a Quaest, o petista tem 54% das intenções de voto, enquanto o senador aparece com 25% na região. Apesar disso, os coordenadores da pré-campanha afirmam que Flávio Bolsonaro deve buscar nomes fora do PL para ampliar o grupo político em torno do seu nome.
Neste caso, a senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro e atual líder do Progressistas no Senado, é vista como um nome capaz de aproximar a campanha do agronegócio e do Centrão. Já a deputada federal Simone Marquetto, que também integra a bancada do PP no Congresso, é apontada como uma opção capaz de ampliar o diálogo da campanha com o eleitorado católico praticante, segmento em que o PL busca crescer.
Segundo o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), a parlamentar tem uma forte relação com o movimento carismático da Igreja Católica, característica que pode ajudar a campanha a alcançar um segmento relevante do eleitorado religioso.
"A Zanatta dialoga muito bem com o eleitorado bolsonarista mais mobilizado e reforçaria a conexão com a base conservadora. Por outro lado, seu nome não representa, em princípio, uma ampliação significativa para o eleitorado de centro", analisa o cientista político Elias Tavares.
Na avaliação da analista política Yolanda Tolentino, uma candidata com forte identificação ideológica tende a mobilizar a base, mas pode dificultar o diálogo com eleitores moderados em uma disputa presidencial. Por isso, Yolanda acredita que nomes de partidos aliados podem oferecer maior retorno eleitoral.
"Um nome do PP, do Republicanos ou do União Brasil resolve dois problemas ao mesmo tempo: formaliza uma aliança partidária com capilaridade nacional e entrega um perfil que sinaliza moderação para o eleitor de centro", afirma.
- Metodologia da pesquisa citada: A Genial/Quaest fez 2.004 entrevistas domiciliares com brasileiros de 16 anos ou mais entre os dias 5 e 8 de junho. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-07661/2026.
Para analistas, apenas vice mulher não resolve desafio entre eleitoras
Embora a escolha de uma mulher para a vice seja considerada um passo importante pela campanha de Flávio Bolsonaro, especialistas avaliam que a estratégia, sozinha, não será suficiente para ampliar de forma significativa o apoio entre o eleitorado feminino. A avaliação é de que a composição da chapa pode facilitar o diálogo com esse segmento, mas dificilmente mudará um cenário consolidado apenas pela representatividade da candidata.
Para o cientista político Elias Tavares, a indicação de uma mulher funciona como um gesto político relevante, mas os efeitos dependem de uma estratégia mais ampla. "A escolha de uma mulher para a vice funciona como um sinal político importante, sobretudo porque amplia a percepção de representatividade dentro da chapa. No entanto, a redução da resistência do eleitorado feminino depende também da campanha, do discurso e da credibilidade construída ao longo do processo eleitoral", afirma.
Ainda de acordo com ele, a crise pública envolvendo a ex-primeira-dama tornou a discussão sobre a escolhado do vice ainda mais sensível para o PL. Segundo o cientista político, Michelle deixou de ser apenas um ativo da campanha para se tornar uma "liderança política com peso próprio", com apoio estratégico para a candidatura de Flávio.
"O apoio dela vale mais do que a escolha de qualquer nome para completar a chapa porque a Michelle entrega algo que nenhum vice consegue oferecer sozinho: legitimidade junto a segmentos fundamentais do eleitorado conservador", ressalta.
A analista política Yolanda Tolentino avalia que a escolha da vice representa um ganho mais tático do que estrutural para a candidatura. "O que essa escolha faz de concreto é criar um gancho de comunicação com eleitores indecisos e dificultar o ataque adversário no terreno da representatividade."













