Gosto quando sou convidado a falar para estudantes. Nos tempos de aluno, adorava o contato com gente do mercado. Também não deixo de considerar um reconhecimento ser chamado para ensinar algo a um grupo de estudantes. Na segunda-feira, cumpri mais uma dessas missões ao participar, na UFPR, de uma mesa-redonda sobre racismo no futebol com o Tinga, o Dionísio Filho e o Serginho Prestes.

Já no fim da conversa, uma pergunta que não tinha a ver com racismo fez valer a noite. Era um universitário, atleticano, se queixando da pouca atenção que a imprensa dá ao que ele chamou de preconceito contra torcedores. Um preconceito manifestado na agressividade da polícia, na visão preconcebida que se tem de membros de organizadas, da falta de conforto e segurança em muitos estádios.

A pergunta me levou de volta ao passado. Uma viagem a muito antes de ser jornalista, quando era mais um torcedor de arquibancada como a maioria de vocês que leem esta coluna. Da experiência quase suicida de ir a um clássico como visitante, do prazer indescritível de ganhar um grande jogo na casa do adversário, da noite de insônia que precede qualquer decisão, de imaginar como seria, ao menos um dia, levantar um estádio inteiro com um gol.

Há um momento em que qualquer jornalista que pretenda levar a sério o trabalho com futebol precisa deixar essa experiência de lado. Não dá ficar pulando na arquibancada domingo e querer explicar taticamente um resultado na segunda. Nem xingar cartola na quarta e ditar regra de gestão na quinta. Nós, jornalistas de futebol, temos a obrigação de ser uma ilha de razão em um ambiente que transborda emoção. Mas nunca podemos esquecer do futebol pela perspectiva de quem torce. Já estivemos deste lado e trabalhamos para quem vê o futebol como diversão e paixão, não como ganha-pão.

Neste segundo grupo estamos nós, os jornalistas, mas também jogadores, técnicos, dirigentes remunerados. Faço essa ponte para relembrar outro grande momento do bate-papo de segunda-feira. Tinga repetiu o que havia falado no calor da criminosa manifestação racista que sofreu no Peru. Que ele trocaria todos seus títulos por um mundo livre de racismo.

Tinga vive do futebol. Nasceu em um bairro pobre de Porto Alegre. Pela lógica, deveria engrossar o pior lado de qualquer índice de desenvolvimento humano, educação, saúde, distribuição de renda. Construiu um caminho oposto. É ídolo de diversas torcidas, fala alemão com fluência, tem dinheiro suficiente para viver bem, manter projetos sociais e proporcionar um futuro seguro para a família. Nem por isso perdeu a noção de que o futebol que salvou sua vida e arrebata o coração de todos nós é menor do que os valores que devem guiar o nosso dia a dia. Tinga e o torcedor só fizeram reforçar uma certeza que eu tenho: sempre saio de qualquer debate ou palestra melhor do que entrei.

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