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A reinauguração do Maracanã despertou uma onda de revolta contra o perfil dos novos estádios brasileiros. Uma saudade inexplicável de gelar o traseiro no concreto umedecido pela chuva, pelo saco plástico com líquido de procedência duvidosa estourando nas costas, pelo ingresso de papel vagabundo e pelo pão com bife Charles Bronson (o de nervos de aço) caindo como uma bomba no estômago. Alto lá, camaradas...

Antes de mais nada, é preciso separar as coisas. Dinheiro público em estádio de futebol é dinheiro mal investido. Nem mesmo a contratação de uma massagista por torcedor, com serviço de bordo de primeira classe e torneiras de ouro no banheiro justificam queimar 1 bilhão em um campo de futebol. Ainda mais, sabe-se bem, que boa parte dessa nota é revertida para os bolsos de amigos, parceiros, parentes e companheiros de quem assina o cheque. E, em via de regra, os estádios da Copa parecem estar saindo de uma linha de montagem. O novo Maracanã parece o novo Mineirão, que não tem nada a ver com velho Mineirão. Todos estádios randômicos de PlayStation.

Mas fazer com que o assunto se encerre por isso mesmo é de uma miopia que se abraça com burrice. Há anos reclamamos que torcedores são tratados como gado. Que os estádios não têm conforto. Que o torcedor toma chuva na cabeça. Que as lanchonetes são um atentado à saúde pública. Que os corredores por baixo das arquibancadas são labirintos em que é impossível se achar. Reclamações legítimas, que são, por conceito, resolvidas com os estádios novos.

O problema maior é o mesmo que leva a gastos absurdos como o do Maracanã: gestão. A prioridade é entupir os bolsos de dinheiro, não proporcionar um bom serviço que, no fim das contas, vai encher os cofres do mesmo jeito. Uma boa lanchonete vai fazer o torcedor comprar duas vezes o lanche de 4 reais, ao invés de se espantar ao ver que o cachorro quente custa 8 reais. Cobrar 500 reais do bacana que frequenta a área vip garante lucro suficiente para sustentar um setor popular de 30 reais que mantenha o mínimo de democracia nas arquibancadas. Notem, o problema não é o estádio novo em si, mas sim quem o administra.

Este, por sinal, é outro ponto que logo resultará em gritaria. Eike Batista deveria ter o bom senso de não participar de uma concorrência que ele mesmo ajudou a formatar – ou a própria concorrência deveria vetar esse conflito de interesses. Mas já começou o chororô de que poderosos grupos empresariais vão esfolar os clubes cariocas no aluguel do Maracanã. Ok, mas os clubes cariocas em algum momento se organizaram para formar um consórcio em que eles gerissem o estádio? E em BH, Cruzeiro e Galo se propuseram a por a mão na massa ou são inquilinos no Mineirão e no Independência, respectivamente?

Como se vê, faltou iniciativa. Algo que certamente haverá de sobra na hora de se queixar. A julgar pelo saudosismo repentino dos velhos poleiros do futebol brasileiro, não faltará mão para passar na cabeça dos clubes.

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