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Entrevista

Dunga revela que não tem medo de pressão na seleção brasileira

Dunga: "Não pode se preocupar com o que fulano fala. As pessoas que falam, em sua maioria, nunca comandaram time, seleção" | Bruno Domingos / Reuters
Dunga: "Não pode se preocupar com o que fulano fala. As pessoas que falam, em sua maioria, nunca comandaram time, seleção" (Foto: Bruno Domingos / Reuters)

O técnico da seleção brasileira parece um pouco mais maleável e disposto a trabalhar com zelo a sua imagem, desgastada pela irregularidade da equipe na temporada e por um humor até então indomável. Nesta entrevista exclusiva, Dunga analisou o período em que dirige a seleção e admitiu que às vezes não mede as palavras e, por isso, cria situações embaraçosas. Ele ainda fez um alerta: a classificação para o Mundial de 2010 será tensa e complicada. Na próxima quarta-feira, o Brasil joga pela última vez no ano - um amistoso contra Portugal, no Distrito Federal.

AE - Você chegou à seleção em agosto de 2006 com um discurso claro da CBF: mudança de atitude dos atletas depois de alguns excessos na Copa da Alemanha. Conseguiu isso? Aproximou-se do objetivo?

Dunga - Não posso falar como era antes. Mas posso dizer que na seleção não houve nenhuma polêmica nestes dois anos e três meses Os jogadores comportando-se em altíssimo nível. Na viagem para a Venezuela, em outubro, houve vários percalços, sem nenhum estresse no grupo. Isso mostra a maturidade e o profissionalismo dos jogadores e de como gostam de estar na seleção. Enfrentam dificuldades e imprevistos como profissionais.

Qual foi seu melhor momento até agora como técnico da seleção?

A conquista da Copa América (em 2007, na Venezuela). Era nossa primeira competição oficial, tivemos duas semanas para trabalhar, organizar tudo direitinho e fomos crescendo dentro da competição.

E a fase mais difícil?

Aquela seqüência contra Venezuela (0 a 2), Paraguai (0 a 2) e Argentina (0 a 0) (em junho deste ano) - foi bem delicada. A gente já sabia que ia ter problemas, talvez nem tanto naquela proporção. Mas sabia que ia encontrar dificuldades, com jogadores que estavam sem jogar havia 30 dias.

Ainda existe amor à camisa da seleção ou isso é apenas uma visão romântica, nostálgica?

Existe, sem dúvida. Quando os jogadores ficam fora, a ansiedade é grande de voltar à seleção. Eu noto isso claramente.

O futebol brasileiro é o melhor do mundo?

Melhor do mundo é algo momentâneo. O melhor é quem ganha a Copa do Mundo, independentemente da forma de jogar, se gostam ou não, do sistema de jogo, dos atletas. Então, sim, a Itália é a melhor.

Por que Ronaldinho Gaúcho não consegue ter uma seqüência empolgante na seleção?

Comigo agora ele vem de lesões, de um tempo parado, está se recuperando aos poucos. Ele tem uma massa muscular forte, quanto mais jogar, mais fácil para readquirir a forma. No Barcelona, e agora no Milan, o Ronaldinho treina o ano todo. E o que acontece muitas vezes é que assistimos na Internet e na TV aos melhores lances do Ronaldinho, editados, de dois minutos. E aquilo ali não representa a verdade do jogo, de 90 minutos. Tem de ter esse discernimento. Em dado momento, é bom lembrar que o cara é um ser humano, nem sempre vai estar no topo, com 100% das suas condições.

Os atletas, hoje, pagam preço alto pelo que fazem fora de campo?

O jogador está cada vez mais exposto hoje na mídia. Cada vez mais se criam espaços novos para o futebol. E a cobrança sem dúvida é maior. O atleta tem de aliar as duas situações. Saber que é um personagem e que as pessoas vão cobrar, mais ainda se não corresponder em campo. Tem que se preservar ao máximo.

Como você convive com a pressão de treinar a seleção?

Nós planejamos, fazemos reuniões. Temos que jogar, ver se a equipe vai ganhar ou não. Não pode se preocupar com o que fulano fala. As pessoas que falam, em sua maioria, nunca comandaram time, seleção. Quando eu vejo um prédio e digo: "Poxa, esse prédio tem que ser assim, assim." Imagine a estrutura dele. "Será que eu sei alguma coisa sobre o prédio?" Se fui eu que o construí, eu posso mandar derrubá-lo. É o que eu digo. Tem que acreditar no trabalho e ir em frente.

A pressão tem sido razoável, aceitável? Existe ou existiu em algum momento campanha orquestrada pela sua saída?

Com todos os ex-treinadores da seleção ocorreu a mesma coisa. Quando tinha o Pedro, havia um grupo que era mais chegado ao Pedro. Quando saiu o Pedro e entrou o João, aqueles que estavam com o Pedro ficaram revoltados. E os outros não. Então é normal. Vou fazer meu trabalho e vamos jogar. É o jogo, não tem essa de vou ganhar antes, vou perder. Mas tem gente que fica falando mal, orquestrando. O que vale é o campo, é o jogo.

Mas não existe esse "outro" jogo, além do campo?

Se eu dissesse que não existe, estaria sendo irônico, cínico. Claro que tem.

E qual o jogo mais difícil, o da bola rolando ou o "outro"?

O outro é mais difícil, mas não é só por culpa alheia. É por culpa minha também, a minha personalidade, minha forma de ser, de como pensar que as coisas são. Posso ser um sonhador, um cara maluco, mas é preciso tratar todo mundo no mesmo tom, respeitar todos.

Você costuma refletir sobre o seu trabalho, as cobranças com as quais têm de lidar?

Não me preocupo muito com que pensam de mim, me preocupo muito comigo: de ser um cara honesto, que respeita cada um na sua profissão. Eu não gosto é que invadam meu espaço. Pressão vai ter, cobranças, essas coisas. Agora não adianta me botar contra a parede...

Esperava que seria assim, que teria de passar por essas dificuldades quando assumiu a seleção?

A cobrança, algumas situações, eu esperava. Às vezes, nos momentos mais difíceis, eu paro para pensar: "Mas o Felipão, o Zagallo, o Parreira não passaram por isso?" Só que, quando eu analiso isso, eu me lembro da pressão, das cobranças sobre eles, mas eu não sabia como era feita. Agora estou vendo como as coisas acontecem.

E surpreende a forma como essa pressão é feita?

Ah! Surpreende, alguma coisa me surpreende, sem dúvida nenhuma... Fico meio assim e penso: "Será verdade? Não é possível! Mas o que vou fazer?" Tenho que trabalhar, ter convicção. Eu só não gosto do cara que mostra credencial e diz: "Sou fulano, eu trabalho lá"... "Não. Não me interessa onde você trabalha, eu vou atender no horário marcado, onde for determinado, não importa se eu goste ou não da pergunta".

No auge das críticas e dos protestos da torcida, chegou a pensar em pedir demissão?

De forma nenhuma. Naquele momento eu já estava entendendo como funcionavam as coisas. A seleção não pode ir para um jogo e uma semana antes você ver publicado que aos 10 minutos o time vai ser vaiado. Então você já vai vacinado. Aí começa a entender como é esse outro jogo. Se jogar mal, a vaia é normal. Agora, se já se sabe com 10 dias de antecedência que vai haver vaia, isso não é estranho?

Você conversa com o presidente da CBF sobre isso?

Não, ele já está mais acostumado do que eu com essas coisas. Converso bastante com o presidente, sem interlocutor, sobre a seleção, nossos objetivos. Ele sempre me deixa à vontade Até quando atribuem a mim coisas que eu não falei e, por conta disso, levo pau. Sei que ocupo cargo que incomoda.

Nestes dois anos e três meses, teve alguma coisa que fez e que não faria de novo e vice-versa?

Tudo é aprendizado. Eu me cobro muito e sou sincero. Se gosto, eu digo. Se não gosto, não gosto. Quando não pode, é não pode, e acabou. As pessoas não estão acostumadas com as coisas diretas, francas. Gostam de ser enganadas. É normal em qualquer profissão falar dos outros. "Ah, o Dunga é chato." Não sou chato Não pode é atrapalhar o meu trabalho, não atrapalho o seu ... Só quero que as pessoas sejam honestas comigo.

A classificação para o Mundial pode se tornar menos tensa agora no returno das Eliminatórias?

Vai ser sempre tensa para o Brasil. Quando joga fora, você é vaiado, xingado no aeroporto, no hotel; as dificuldades são imensas. Vamos jogar com Uruguai fora e Bolívia, na altitude, uma guerra. Mas estamos em segundo lugar.

O que mudou do Dunga de 1994 para o Dunga 2008?

Meus conceitos básicos não mudaram. Agora sou um cara mais maduro. Em 94, era um tipo de liderança, de postura, e a responsabilidade de controlar tudo cabia ao Parreira. Hoje, essa atribuição é minha. Fui até mal interpretado quando falei que era bem resolvido. Teve gente de coração malicioso que achou que falei isso pelo lado financeiro. Mas não. É profissionalmente. Se amanhã tiver que cortar capim, com a enxada, cortar grama, não tem problema. Eu vou começar do zero. Nunca me preocupei com emprego, mas com trabalho. É nesta questão que sou bem resolvido Eu quero trabalho. Tem gente que se preocupa muito com emprego e acaba não fazendo nem uma coisa nem outra.

O técnico do Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo, tem sido alvo de críticas até mesmo de conselheiros do clube, que pedem a saída dele. É a sina dos treinadores brasileiros?

O treinador é o responsável por todo o trabalho. Sempre estoura tudo nos seus braços. Todo grande time gera uma expectativa maior, a cobrança aumenta, e o treinador é a pessoa que está mais exposta.

Você teria alguma palavra de apoio ao Luxemburgo?

Ele está habituado com esse tipo de cobrança. É consciente daquilo que faz, das metas que busca. É um cara muito experiente, vai saber sair dessa situação.

Qual sua expectativa para a reta final do Campeonato Brasileiro?

Uma rodada pode modificar tudo. As equipes na disputa não podem ter a mínima desatenção, falta de concentração. O São Paulo tem vantagem, mas não dá para dormir, não pode fechar os olhos até o final.

O Brasil não vence Portugal há quase 20 anos. É um atrativo a mais para o amistoso de quarta-feira tentar quebrar essa escrita?

O Brasil tem a obrigação de vencer, é sempre assim. Esse dado demonstra a importância da partida e é motivação a mais para os jogadores. E vai ser o primeiro amistoso contra uma seleção européia, no Brasil, depois de vários anos.

O que espera do confronto Kaká x Cristiano Ronaldo?

Kaká é o atual melhor do mundo e Cristiano Ronaldo está bem cotado para a eleição do fim de ano da Fifa. O atacante português deixou de ser um jogador só de drible. Agora, é mais objetivo, aliou força e velocidade à vontade de fazer gol. Vai ser bom vê-los em ação, mas há outros que podem elevar o nível do jogo.

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