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Doping

Escândalo testa o limite da relação entre atleta e técnico

Renato Araújo e Diego Hypólito, exemplo de relação duradoura e bem sucedida entre um treinador e um atleta | Oliver Lang/AFP
Renato Araújo e Diego Hypólito, exemplo de relação duradoura e bem sucedida entre um treinador e um atleta (Foto: Oliver Lang/AFP)

Eritropoietina. A versão sintética do hormônio de nome complicado foi o estopim do mais recente caso de doping no atletismo brasileiro e que aponta a fragilidade da relação de confiança entre um técnico e seus comandados.

O EPO foi encontrado em nível excessivo nos exames de cinco atletas da Rede Atletismo (de Bra­­gança Paulista), no último dia 4. A indicação da substância foi admitida por um dos técnicos da equipe, Jayme Netto. Ele afirmou que os atletas acreditavam ser doses de aminoácidos, não um produto proibido.

Se de fato os atletas não sabiam qual a natureza do produto que autorizaram injetar em seus corpos, a mentira atingiu diretamente a base da relação entre atletas e o técnico. O professor de Psicologia do Esporte da Universidade Fe­­deral de Minas Gerais (UFMG), Luiz Carlos Moraes, afirma que acreditar no comandante é essencial para chegar a bons resultados nas competições, especialmente nos esportes individuais, em que a tendência é a maior proximidade entre as duas partes.

"O treinador é o maestro, é quem conduz o o treinamento, a quem o atleta entrega sua carreira", resume.

O exemplo mais reluzente e atual de tal entrega é a relação en­­tre o nadador Cesar Cielo e o téc­­nico Brett Hawke. A presença do treinador para o brasileiro é tão importante que a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) assumiu o risco de ferir egos e bancou a ida do australiano à Olimpíada de Pequim, em 2008, e ao Mundial de Roma, encerrado há duas semanas. Nestas competições Cielo obteve três medalhas de ouro e uma de bronze.

"Tenho confiança total no Brett. Ele sabe onde pode apertar e onde não pode. O fato de ele ter nadado os 50 m livre ajuda bastan­te", declarou o velocista.

Desde cedo

Técnico de ginástica artística há 20 anos e há um comandando Jade Barbosa, Ricardo Pereira considera que acompanhar o atleta desde a infância facilita a relação de confiança. "Cada treinador tem seu estilo. Alguns são mais duros, acham que estabelecer amizade pode resultar em perda de comando. Eu não creio muito isso. Prefiro ajudar na vida pessoal, estar próximo", diz.

Para driblar a fama de chorona da atleta de 18 anos, Pereira diz que a estratégia é a conversa. "Pro­­curo mostrar que a responsabilidade é dela e que a ginástica é a profissão que ela escolheu. É o trabalho dela, assim como é o meu", fala Pereira.

Diego Hypólito também treina com quem o conhece desde seus primeiros anos no esporte. O técnico Renato Araújo acompanha o ginasta desde 1994. Estavam juntos quando o atleta viveu sua maior frustração na carreira, a queda durante a série de solo apresentada na final em Pequim, há um ano, quando ambos consideravam certa a medalha de ouro.

A sensação de que o mundo tinha caído naquele momento era comum aos dois. "Eu e o Diego precisamos de alguns dias para retomar os trabalhos. Era hora de eu respeitar o momento dele e ele, o meu. É uma cicatriz que não vai sair", conta o técnico. A volta por cima da dupla veio com a conquista do tricampeonato mundial, em dezembro.

"A base para que essa nova relação tenha sucesso é o respeito. São dois corpos, duas mentes todo dia juntos. Se termina o respeito, termina a relação", resume o técnico Larri Passos, responsável por levar o tenista Gustavo Kuerten ao tricampeonato de Roland Garros e conhecido pela rigidez de seus trei­­namentos.

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