
Em setembro do ano passado, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou uma nova regra proibindo que investidores tivessem participação sobre os direitos econômicos dos jogadores de futebol. A medida, por muito tempo reivindicada por dirigentes como Michel Platini, presidente da Uefa, sempre foi vista como sendo benéfica aos clubes, que poderiam lucrar mais com a venda de seus talentos sem a intromissão dos empresários e fundos de investimento. O remédio aplicado pela Fifa, porém, pode acabar trazendo efeitos colaterais inesperados.
Quem alerta é o maior empresário do futebol paranaense, Rafael Stival. Com cerca de 50 jogadores espalhados por Atlético, Coritiba e Paraná, ele prevê uma futura escassez de talentos nos times da capital paranaense. Stival arrendou por 20 anos, em 2005, as categorias de base do Trieste, clube amador de Curitiba, para formar atletas que são depois repassados ao trio de ferro. Ele não cobra nada por isso, mas fica com uma fatia geralmente de 40% a 50% dos direitos econômicos do jogador.
"Projetos como o meu existem aos montes pelo Brasil. Com a nova regra, todos vão parar", adverte. "Eu descubro a pedra preciosa em estado bruto. Será que os clubes estão preparados para pegar meninos de dez anos e deixá-los prontos aos 15?" Entre as joias preciosas já lapidadas por Stival estão o meia-atacante Marcos Guilherme, do Atlético; o zagueiro Luccas Claro, do Coritiba; e o meia Marcos Serrato, do Paraná .
Como os contratos desses jogadores foram assinados antes deste ano, eles seguem o modelo antigo. Caso sejam negociados, o dono do Trieste ainda fica com uma porcentagem da venda. A sua preocupação são os contratos que serão fechados de agora em diante. "A dúvida é muito grande. Estamos fazendo muita pesquisa jurídica, mas não temos ideia do que fazer ainda. Só sei que, como está, vai ficar inviável."
Uma das possibilidades é simplesmente acabar com tudo. "Prefiro parar, recuperar meu investimento e procurar outro ramo", afirma Stival. Profissionalizar o Trieste para continuar negociando jovens atletas, já que a Fifa permite que os clubes detenham os direitos econômicos dos jogadores, não é uma opção. O clube, arrendado há dez anos pela Stival Alimentos (empresa criada pelo pai de Rafael em 1971), proibiu a profissionalização no contrato.
Montar outra equipe também está fora de cogitação. "O time teria de disputar a Terceira Divisão do Paranaense. Fatalmente eu precisaria trabalhar com atletas mais velhos, e este não é o meu objetivo", diz.
O ponto final na estrutura criada no Trieste, que já rendeu 23 convocações para as categorias de base da seleção, não comove os dirigentes. "O [Mario Celso] Petraglia já me disse que o Atlético tem estrutura para formar os próprios atletas."
Declarado torcedor do Atlético, clube do qual é conselheiro, Stival discorda de que a nova regra da Fifa será vantajosa para seu time do coração. "Em qualquer ramo, se você tem um investidor é um bom negócio. Os negócios feitos com o Douglas Coutinho e com o Marcelo Cirino foram excelentes", afirma. Os dois foram vendidos para um grupo de investidores por R$ 26 milhões, no total.
Sem saber o futuro do projeto ao qual vem se dedicando desde 2005, e com o qual espera lucrar, Stival adverte. "É preciso lembrar que jogadores como o Marcos Guilherme não caem do céu. Eles precisam de uma longa formação, física e psicológica. Talento tem de monte. Falta formar."



