O bilionário fundador da Microsoft está obcecado pela questão climática. Mas quer dividir os custos das soluções com os pobres do mundo.
O bilionário fundador da Microsoft está obcecado pela questão climática. Mas quer dividir os custos das soluções com os pobres do mundo.| Foto: Reprodução/ Netflix

“Num ano normal, o mundo emite mais de 51 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa e, se continuarmos assim, as consequências para a vida humana serão catastróficas”.

Assim começa o vídeo promocional do novo livro de Bill Gates, How to Avoid a Climate Disaster [Como evitar o desastre climático]. É realmente assustador pensar que o mundo pode estar à beira da catástrofe. Mas Gates é otimista e acredita que podemos mitigar a crise climática se fizermos a coisa certa nos próximos anos.

Mas essa “coisa certa” pode ser dolorosa. Situações drásticas exigem medidas drásticas, parece pensar Gates, e a principal medida que ele recomenda é eliminar totalmente a emissão de gases do efeito estufa.

“A defesa das emissões nulas era e ainda é sólida”, escreve Gates. “O objetivo de apenas reduzir as emissões — e não eliminá-las — não dará certo”.

Uma de suas propostas para eliminar totalmente as emissões é a captação direta do ar, isto é, a retirada do dióxido de carbono da atmosfera e seu armazenamento subterrâneo. Ele também espera aumentar os investimentos em energia solar e eólica para limpar a rede, e nos estimula a criarmos tecnologias revolucionárias para reduzir as emissões em outros setores.

Uma das mudanças mais radicais proposta por Gates é a transição alimentar para a carne sintética.

"Acredito que todos os países ricos deveriam passar a consumir apenas carne sintética”, disse Gates numa entrevista para a MIT Technology Review. “Você se acostumará com a diferença no sabor e a promessa é de que melhore com o tempo”.

Admito que sou cético quanto à possibilidade de a carne sintética substituir a carne de verdade no futuro próximo.

Calculando os custos

Chamar os objetivos de Gates de ambiciosos seria um eufemismo. Atualmente, cerca de 80% da energia produzida nos Estados Unidos vem de combustíveis fósseis, então para eliminar as emissões seria preciso transformar completamente a rede de energia. Acrescente a isso mudanças na agricultura, manufatura e outros setores e teremos uma revolução na economia norte-americana.

Uma revolução total e cara.

Um custo importante seria o gasto público em tecnologias limpas. Gates recomenda que o investimento seja quintuplicado para US$ 35 bilhões por ano. É um número alto, claro, mas o custo real é de recursos, na forma de terras, trabalho e matéria-prima usados nesses investimentos.

Fazendas de energia eólica, por exemplo, consomem terra — e muita terra — que poderia ser usada para a moradia e outros objetivos produtivos. As turbinas e outras infraestruturas de apoio usam apenas 3% da terra utilizada para gerar energia eólica e o restante é geralmente deixada “como está”, a fim de se evitar obstruções no fluxo de ar. Por isso, são necessários no mínimo 24 hectares de terra para gerar um megawatt de energia eólica.

A respeito das matérias-primas, o silício usado nos painéis solares é silício que não pode ser usado na fabricação de microchips. E quanto à mão de obra, os trabalhadores que produzem carne sintética em fábricas subsidiadas deixam de produzir outros bens e serviços em operações mais produtivas.

A questão é que, quando US$ 35 bilhões em recursos são alocados para as tecnologias limpas, isso significa que US$ 35 bilhões não estão sendo usados pela iniciativa privada, em coisas como pesquisa do câncer, saneamento básico, alimentos e moradia.

Assim, o custo real dos gastos públicos não está nos dólares e centavos. Está nas oportunidades perdidas de se desenvolver outros projetos que satisfaçam outras necessidades. Os economistas se referem a essas oportunidades perdidas como “custo de oportunidade”. Claro que é fácil ignorar esses custos porque eles são invisíveis, mas isso não os torna menos reais. Quando se está falando em gastar US$35 bilhões por ano, precisamos ter em mente as oportunidades perdidas embutidas nesse valor.

Dito isso, os gastos públicos são apenas parte do plano de Gates que envolvem custos significativos. Na verdade, as regulamentações que ele propõe também seriam prejudiciais para a economia, sobretudo para os mais pobres.

O problema das regulamentações é que elas dificultam a produção de energia, uma vez que a produção precisa abandonar métodos mais econômicos e passar a usar métodos mais ineficientes. Assim, não só menos energia é produzida como a energia se torna muito mais cara. Isso prejudica sobretudo os pobres, que precisam de energia barata e abundante para o transporte, aquecimento e outras necessidades básicas.

Os custos de oportunidade entram aqui também. Quando as pessoas são obrigadas a gastar mais em energia, elas têm menos dinheiro para gastar com outras coisas, como alimentos, moradia e saúde. Ironicamente, teríamos também menos resiliência climática porque menos recursos seriam usados em infraestrutura básica.

Vendo o que está oculto

Os custos de oportunidade vão muito além das medidas envolvendo a energia verde, claro. No clássico “Economia numa Única Lição”, por exemplo, Henry Hazlitt ilustra o conceito do custo de oportunidade com uma ponte pública.

“A ponte existe. Ela é, vamos supor, uma ponte bonita, não repugnante. Ela foi construída graças à mágica dos gastos públicos. Ela existiria se os obstrucionistas e reacionários fossem ouvidos? Não, assim não haveria ponte. O país seria muito mais pobre [ao que parece].

Aqui mais uma vez os defensores dos gastos públicos vencem o debate para os que não enxergam além do que seus olhos alcançam. Eles veem a ponte. Mas, se tivessem aprendido a procurar as consequências diretas e indiretas, poderiam ver, graças à imaginação, as possibilidades jamais tornadas reais. Eles poderiam ver as casas que deixaram de ser construídas, os carros e rádios que deixaram de ser fabricados, os vestidos e casados que deixaram de ser costurados e talvez os alimentos que deixaram de ser cultivados e vendidos. (...) O que aconteceu é apenas que uma coisa foi criada, em vez de outras”.

As iniciativas governamentais que Gates propõe podem muito bem virar realidade pela intervenção dele. Haveria mais fazendas de energia eólica, mais painéis solares, mais instalações de captação de CO2. Essas coisas existiriam. Mas, assim como a ponte na história de Hazlitt, também temos de pensar em tudo o que deixaria de existir. Em muitos casos, seriam itens essenciais dos quais as pessoas dependem para sua sobrevivência. Na verdade, se implementarmos o que Gates propõe, milhões cairiam na pobreza e milhares morreriam.

Assim, apesar de ser sedutor buscar soluções para o clima, deveríamos ter em mente as palavras de Thomas Sowell. “Não existem soluções. Só existem escolhas”. E nem toda escolha é boa. Algumas escolhas “vão de mal a pior”.

Portanto, apesar de o livro de Gates ensinar a “evitar o desastre climático”, a questão é se as soluções causarão desastres humanitários piores do que os desastre que elas dizem evitar.

Patrick Carroll é engenheiro químico e membro da Foundation for Economic Education.

© 2021 FEE. Publicado com permissão. Original em inglês 
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