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Membros de um grupo ambientalista da Coreia do Sul usam máscaras de gás e seguram cartazes nos quais se lê “contra a liberação de água radioativa no oceano”, em protesto na frente da embaixada japonesa em Seul, em 04 de junho de 2021.
Membros de um grupo ambientalista da Coreia do Sul usam máscaras de gás e seguram cartazes nos quais se lê “contra a liberação de água radioativa no oceano”, em protesto na frente da embaixada japonesa em Seul, em 04 de junho de 2021.| Foto: EFE / EPA / Jeon Heon-Kyun

Adotar fontes alternativas de energia no lugar de combustíveis fósseis para mitigar os efeitos do aquecimento global é louvável. Pelo menos em teoria. Muitos governos, no entanto, estão tomando decisões irracionais ou baseadas em relações públicas. Governos democráticos, que devem reagir à opinião do eleitorado, podem fazer más escolhas com base em uma opinião pública sobre riscos que é mais baseada em emoções e obras ficcionais que em fatos. É o que parece estar acontecendo com a Europa e os EUA. Os políticos refletem as opiniões de seus eleitores, que em geral estão convencidos de que a energia nuclear é perigosa e que pode ser completamente substituída pelas fontes renováveis, com baixo custo e baixo risco.

Após décadas da sombra projetada pelo acidente de Chernobyl e pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, o mundo viu no acidente de 2011 em Fukushima mais motivos para preocupação com a energia nuclear. O desastre no Japão instou a Alemanha a iniciar um programa radical de fechamento de suas usinas nucleares em favor das energias renováveis.

O resultado não tardou a vir. O vento parou. A Europa enfrenta agora uma crise energética, antes mesmo de o inverno chegar. Preços de energia e gás subiram vertiginosamente. O uso de combustíveis fósseis como carvão e gás natural tapou o buraco e chegou a cobrir 56% do consumo de energia na Alemanha no primeiro semestre, junto a uma cada vez menor participação da energia nuclear. Não faltaram avisos.

No final de 2019, Stephen Jarvis, da Universidade da Califórnia em Berkeley, junto a colaboradores, avaliou a sabedoria desta decisão da Alemanha. Consideraram a redução de metade da produção de energia nuclear no país realizada até então. Antes de Fukushima, a energia nuclear supria 25% das necessidades do país. A conclusão dos cientistas é categórica: entre 2011 e 2017, a Alemanha gastou cerca de 12 bilhões de dólares anuais em custo social com a substituição da energia nuclear, ao fechar dez de seus 17 reatores. Mais de 70% deste custo está no maior risco de mortalidade associado à poluição atmosférica causada pela obrigatória dependência de combustíveis fósseis. A conta não inclui os 36 bilhões anuais que a Alemanha gastou em energias renováveis. O risco apresentado pela energia nuclear, em comparação, é sempre inferior a esses custos da substituição, mesmo nas estimativas mais pessimistas.

A Alemanha não é um caso isolado. No mesmo período considerado por Jarvis e colegas, a Califórnia, um dos estados americanos que mais investem em energias renováveis como a eólica e a solar, viu o preço da energia aumentar seis vezes mais que no resto do país. Já o custo da eletricidade industrial cresceu 32% no estado, enquanto caiu 1% no resto do país. Uma das grandes beneficiadas com painéis solares é a China, fabricante da maior parte deles.

A era Obama deu pesados subsídios às energias renováveis. Biden está dando continuidade a essas políticas desastrosas.

Alarmistas não se baseiam em ciência

O alarmismo é uma estratégia política eficaz. Captura mentes, chama a atenção. E, com típico viés da confirmação, busca por confirmações de sua mensagem exagerada, mas não por evidências. O movimento alarmista Extinction Rebellion, que parou Londres em outubro de 2019, tem líderes que alegam que “nossas crianças morrerão nos próximos dez ou 20 anos”. Mal a pandemia deu trégua em 2021, voltaram a bloquear ruas, impedindo a passagem de ambulâncias com orgulho. Os alarmistas causam problemas reais de ansiedade: numa pesquisa com 30 mil pessoas ao redor do mundo, quase metade declarou que acredita que o aquecimento global extinguirá a humanidade.

É esse tipo de ativismo, talvez com um pouco mais de moderação que esses extremos, que guia boa parte da rejeição às alternativas óbvias como a energia nuclear, e os investimentos massivos em energias renováveis que, até o momento, não entregaram o que prometem. É um alarmismo muito parecido com o que se viu na pandemia: sem nuance, intolerante, e que, com foco em suposta hiper-segurança que desemboca em hipo-liberdade, promete panaceias fadadas ao fracasso. Suas ideias começaram a ocupar pesadelos de uma parte considerável das crianças em países desenvolvidos.

A desesperança é contagiosa, mas, nos últimos anos, duas principais vozes surgiram como contraponto sóbrio ao alarmismo climático: o americano Michael Shellenberger e o escandinavo Bjorn Lomborg. O primeiro tem duas décadas de experiência como ativista do clima, e uma década de especialização em energia. Era contra a energia nuclear até notar que era a alternativa com zero emissão já existente e de relativo baixo risco, sem paralelos. O IPCC, maior autoridade institucional nas mudanças climáticas, fez um convite a Shellenberger para ser um de seus revisores especialistas.

O problema das energias renováveis

Imagine uma torneira cuja vazão varie entre mais de 90% da esperada e menos de 5%. Certamente seria considerada inconsistente e substituída. É exatamente esta a natureza das energias renováveis eólica e solar, como mostra uma semana da sua produção na Alemanha em 2020. No ano anterior, o naco de eletricidade gerado por esses métodos atingiu 35% no país.

A impressão de que as energias renováveis são baratas veio principalmente de trilhões de dólares dados como subsídios por governos no começo dos anos 2000, o que as faz artificialmente mais baratas. Assim, os cidadãos acabam pagando por elas em duas instâncias, via impostos e via consumo.

Há, também, a questão da ineficiência: para produzir a mesma quantidade de energia, campos de painéis solares tomam 450 vezes mais espaço que as usinas nucleares, enquanto as turbinas eólicas tomam 700 vezes mais espaço que poços de gás natural.

Outra dificuldade é o armazenamento, altamente dependente de baterias. Como mostram os carros elétricos, essas baterias, geralmente de lítio, são pesadas, e promessas de inovações nelas podem já estar atingindo limites físicos muito difíceis de superar. Promessas não cumpridas de baterias de estado sólido têm decepcionado o mercado.

A aposta nuclear de Bill Gates

O pai das janelinhas do seu computador há mais de 20 anos investe em projetos filantrópicos e de inovação. Entre outras iniciativas para mitigação do aquecimento global, fundou uma empresa startup, a TerraPower, para oferecer uma alternativa nuclear mais segura. O motivo de ter feito isso, diz na minissérie documental da Netflix sobre sua vida, o Código Bill Gates, é que ele quer “inovação em todos os setores de emissão, entre todas as diferentes áreas”. A energia nuclear, diz o bilionário, demanda “um tipo de inovação que poderia não ser feita ao menos que eu ajudasse”. Entre os desafios, está a percepção negativa do público sobre a energia nuclear.

Na TerraPower, Gates juntou um time de estrelas da inovação, incluindo Lowell Wood, que superou Thomas Jefferson em número de patentes. Após muito debate e complicadas modelagens em supercomputador, a equipe entregou um projeto novo para reator nuclear: o reator de onda progressiva (TWR). O TWR diminuiria a chance de erro humano, usaria urânio empobrecido e lixo nuclear de outras usinas nucleares. Há cerca de 700 toneladas de lixo nuclear nos Estados Unidos. Se fosse possível usar tudo nisso em TWRs, o país poderia viver da energia desse material por 125 anos, alegam membros da startup. O TWR, como uma pilha que se descarrega lentamente, só precisaria ser reabastecido a cada dez anos. Mais importante: o reator usaria remoção passiva de calor pelo ar, sem necessidade de água. Foi este o problema em Fukushima: o abalo sísmico destruiu os geradores de energia de emergência necessários para manter sob controle o calor dos reatores com água.

Tendo o projeto, faltava construir o protótipo, mas não há ambiente permissivo a isso nos Estados Unidos ou em lugares como a Alemanha. A ideia do fundador da Microsoft e sua equipe foi embarcar em nove anos de negociações com o governo chinês, para construir por lá. Até que veio Trump e sua guerra comercial, que desestabilizou a negociação e tornou nulos os contratos, de forma indireta.

O documentário da Netflix é bastante simpático a Bill Gates, não sem razão, pois sem dúvidas é um dos homens mais inovadores das últimas décadas. Porém, há que se questionar a decisão de negociar com a ditadura chinesa para abrigar experimentos com seu novo reator. A China, notoriamente ignorada por celebridades do ativismo climático como campeã de emissões, está de olho no uso das fraquezas ideológicas do Ocidente como alavanca, do identitarismo ao ambientalismo vulgar.

O ministro das relações exteriores de Xi Jinping, que endureceu o regime, deixou claro em linguagem diplomática que a China pretende usar o clima como refém para obter um esquecimento da hipótese de que o vírus da Covid-19 pode ter escapado de um laboratório em Wuhan, além de seu papel na opressão do povo uigur, na extinção de liberdades em Hong Kong e provocações a Taiwan, cuja tomada é a maior obsessão chinesa. A declaração vem na esteira de uma 26ª cúpula climática a ser realizada em Glasgow em novembro.

Outra autocracia está atenta: a Rússia, que fornece o gás natural que tapa o buraco deixado pela ineficiência de fontes de energia renovável como a eólica, já está fazendo uso dessa vantagem. O grupo de Putin faz pressão sobre a União Europeia para conseguir mais gasodutos, ampliando a dependência dos europeus. Enquanto isso, ainda há líderes alemães insistindo em dar um fim no que resta das usinas nucleares do país até o fim do próximo ano. “O debate terminou”, disse Michael Müller, chefe de finanças da RWE — uma empresa de energia que opera usinas nucleares. Restam seis no país. A França, que ajudou a Alemanha na crise energética deste ano emprestando energia nuclear de sua malha, discorda tanto que vai investir em novas usinas nucleares.

Se a promessa de um reator mais seguro, mais eficiente e que oferece uma possível solução para o lixo nuclear depende de negociação com regimes autocráticos do Oriente, pois não há ambiente receptivo no resto do mundo, com poucas exceções como a França, realmente, como disse Gates, “não é fácil”. Como declarou Shellenberger ao Congresso americano, “as mudanças climáticas são reais, mas não são o fim do mundo, nem mesmo nosso problema ambiental mais importante. (...) Estão nos distraindo de uma ameaça maior e mais urgente: a dominação global da energia nuclear por China e Rússia, que seria desastrosa para o liberalismo e a democracia ao redor do mundo”.

Para completar, voltemos aos painéis solares: Daqo, a principal fabricante deles favorecida pelo governo chinês, usa trabalho análogo ao escravo da minoria uigur, contra a qual a China é acusada de tentar fazer genocídio, na província de Xinjiang.

O Brasil

No nosso país, as usinas termonucleares de Angra suprem 3% da energia da nossa malha. O estado do Rio de Janeiro é o maior beneficiário, onde este valor atinge 40%. Nos Estados Unidos, a energia nuclear cobre 20%.

Um cientista do programa nuclear brasileiro, que preferiu não se identificar, disse à reportagem que um dos entraves ao avanço dessa energia no Brasil é que ela é monopólio do Estado. Aqui, portanto, iniciativas como a do Bill Gates seriam impossíveis sem uma mudança de atitude de concentração de decisões na mão do governo. É um dos vários assuntos em que nosso país é impedido de se desenvolver por estatolatria. E quanto às hidrelétricas, orgulho do Brasil?

“A construção de novas hidrelétricas esbarra em diversos fatores, um dos principais é a disponibilidade de áreas próximas aos centros consumidores, no caso Sudeste e Sul do país. Além disso há questões envolvendo o licenciamento ambiental, [embargos de] movimentos sociais, custos de construção e outros fatores. Basta olhar a situação da Usina de Belo Monte, que a despeito de todo seu potencial inicial gera apenas uma fração do que poderia produzir caso operasse de acordo com o projeto inicial. Além de todos esses problemas, temos de lembrar das recentes secas que mostraram a fragilidade da dependência de apenas uma forma de geração, no caso a hídrica”, completa o cientista. Em qualquer país, portanto, a diversidade de fontes na malha energética é crucial.

“A geração nuclear é capaz de garantir o fornecimento estável e geração em áreas muito menores do que as necessárias para a construção de hidrelétricas, cujos lagos podem ocupar áreas consideráveis de terra. Lembrando ainda que o Brasil possui uma das maiores reservas de urânio do planeta, com menos de 1/3 de seu território prospectado, ou seja, a energia nuclear pode e deve ser encarada como uma fonte limpa, confiável e que pode nos ajudar a atingir metas de redução de emissões de gases do efeito estufa. E esse não é um movimento inédito, diversos países como a França, Inglaterra e Japão já sinalizam ou passaram a considerar a energia nuclear como limpa e importante na busca pela redução de emissões. Na minha opinião, a nuclear é primordial para a manutenção e garantia do abastecimento dos países, haja vista a instabilidade de outras fontes como eólica e solar. E para aqueles que dizem que a energia nuclear não é renovável, é preciso lembrar que as turbinas dos geradores eólicos e placas solares também não são obtidas de materiais renováveis, são produtos da mineração, tal qual o urânio.”

Não parece haver solução realista para o aquecimento global que deixe de fora a energia nuclear. O maior desafio, agora, é convencer o público e por extensão os governos democráticos que ele escolhe.

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