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Uma mulher acende uma vela em frente à escola pública Raul Brasil. (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP)
Uma mulher acende uma vela em frente à escola pública Raul Brasil. (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP)| Foto:

Nesta quarta-feira (13), dois jovens realizaram um massacre em uma instituição de ensino da cidade de Suzano, região metropolitana de São Paulo. O episódio resultou na morte de dez pessoas, incluindo os atiradores — um baleou o outro antes de se suicidar.

Opinião da Gazeta: A tragédia de Suzano e as famílias fragmentadas

Sempre que ocorre uma tragédia como a verificada na escola estadual Raul Brasil, todos os holofotes dos veículos de comunicação se voltam para o caso. Contudo, não raramente a exposição destaca mais os agressores do que as vítimas.

De forma similar à cobertura de suicídios, em que há evidências de que a exposição poderia estimular outras pessoas, alguns estudos apontaram que a cobertura midiática sobre os massacres pode favorecer a geração de novos casos.

Conforme afirmou o escritor britânico Malcolm Gladwell, "cada tiroteio em massa reduz o limiar para o próximo”. No Brasil houve dois episódios de tiroteios em escolas menos conhecidos pelo público, que ocorreram em Salvador, no ano de 2002, e em Taiúva (SP), em 2003. No entanto, desde a tragédia de Realengo, que aconteceu em 2011 e contou com ampla exposição, dois casos antecederam Suzano em um espaço de tempo menor: um ocorrido em João Pessoa, em 2012, outro em Goiânia, em 2017, e mais um em Medianeira, no interior do Paraná, em 2018. À época, diversas hipóteses foram levantadas pela imprensa acerca da motivação do agressor — e acabaram por “humanizá-lo”.

Exposição e estímulo

Essa tendência de perfis criminosos à repetição de comportamentos realizados por assassinos em série denomina-se "Copycat Effect". O termo se popularizou com o lançamento do livro 'The Copycat Effect: How the Media and Popular Culture Trigger the Mayhem in Tomorrow's Headlines' (Copycat Effect: Como a Mídia e a Cultura Popular criam as tragédias das manchetes de amanhã', em tradução livre), em 2004. O caso mais simbólico apontado por especialistas é o Massacre de Columbine.

Em oito dos doze maiores tiroteios em escolas nos Estados Unidos ocorridos nos oito anos seguintes após Columbine, os atiradores fizeram referência explícita a Harris e Klebold, os agressores da escola de Colorado. Já uma investigação da ABC News descobriu que, nos 14 anos após Columbine, ao menos 17 atiradores escolares — e outros 36 estudantes que ameaçaram ataques que foram evitados — deixaram claro a influência do ataque.

Na ocasião, em abril de 1999, a extensa cobertura dos dois atiradores, do planejamento e organização do ataque e de seus próprios manifestos os tornaram famosos. Duas décadas após o episódio, outros autores de tiroteios ficaram conhecidos como “Columbiners”, seguidores que tornavam explícita sua referência. A própria tragédia de Suzano guarda semelhanças com o Massacre de Columbine.

Esses episódios mostram o perigo de dar publicidade a esses ataques — a exposição pode estimular outros jovens perturbados que buscam a fama. Ao constatar que isso funciona, há maior reprodução desse tipo de evento. Conforme afirma o psicólogo forense da Universidade da Califórnia, Reid Meloy, não se deve subestimar o quanto esses indivíduos entendem como podem capitalizar em cima de sua exposição visual.

Há estudos que demonstram que um tiroteio em massa aumenta a probabilidade de ocorrer novos incidentes no futuro, não apenas no curto prazo, mas também no longo. Portanto, há graves consequências em tornar os agressores famosos.

O psiquiatra da infância e adolescência Gustavo Estanislau alerta que não há a mesma quantidade de estudos e informação no tocante aos assassinatos em massa como há em relação a suicídios, por exemplo. Logo, é necessária alguma cautela.

“A literatura não tem um consenso sobre o tamanho da influência ainda, mas está apontando para o sentido de que há, sim, esse efeito. As pessoas que cometem esse tipo de crime não estão nas melhores condições de saúde mental, e por isso buscam algum tipo de atenção. Quando a mídia acaba por dar essa atenção, muitas vezes de forma completamente desproporcional, outros indivíduos vivendo a mesma necessidade podem ver uma lógica para conseguirem o que querem”.

Já em relação a pessoas saudáveis e comuns, o autor de 'Saúde Mental na Escola' ressalta que sua percepção é a de que as pessoas com boa saúde mental possuem mais senso crítico e melhor expectativa de conseguir a atenção desejada de outras formas.

A partir da constatação do 'Copycat Effect', movimentos nos Estados Unidos passaram a defender que a mídia deve parar de conferir exposição a atiradores escolares, pressionando em massa por mudanças em torno de reportagens.

Entre as recomendações de campanhas como o No Notoriety e Don’t Name Them, constam limitar a divulgação do nome e da imagem dos autores, e não publicar ou transmitir materiais produzidos por eles (como publicações em redes sociais). Assim, a imprensa deveria relatar o episódio dando ênfase às vítimas, sobreviventes e indivíduos que os socorreram, mas evitar nomear ou mostrar os responsáveis.

Gustavo Estanislau sustenta que nos estudos existentes nem sempre há conclusões tão claras sobre o que pode ser melhor em relação à cobertura de mídia. “Apesar disso, a literatura tem apontado para essa direção de que não se veicule com muita frequência o nome dos agressores, e ao fazê-lo, tratar de forma sutil, sem detalhar muito o episódio: por mais que saber sobre o acontecimento seja importante, não se pode elevar os agressores ao status de fama. Expor o tipo de arma e a quantidade de tiros é um tipo de detalhe que não contribui em nada para o público e que também não é interessante do ponto de vista da saúde pública”.

As campanhas, bem como declarações de autoridades norte-americanas, surtiram efeito e já tem se observado que as redações de veículos norte-americanos estão dando maior enfoque às vítimas do que aos assassinos.

Outras possíveis causas

O psiquiatra Ivan Mario Braun afirma que não se conhece as causas precisas que levam pessoas a executar tiroteios e assassinatos em massa, além de motivações financeiras ou políticas. “Os fatores que condicionam a ocorrência deste tipo de comportamento são múltiplos e o aprendizado com base em exemplos de outras ocorrências, provavelmente, só constitui um deles”.

Ele esclarece que entre os possíveis fatores envolvidos estão a tensão social (insucesso profissional, má-aceitação e bullying), além da existência de locais com grande concentração de pessoas, facilitando a maximização dos danos e exposição.

Braun destaca ainda o fator da ausência de laços familiares e sociais que possam frear atos violentos, bem como predisposição biológica. Ele não descarta que o desejo de notoriedade também pode estar envolvido, em alguns casos.

Nossas Convicções: O valor da família

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, atribuiu a possível influência de videogames para a tragédia de Suzano, algo de que o psiquiatra discorda: “Apesar da exposição a videogames violentos estar associada a dessensibilização à violência e prejuízos no desenvolvimento comportamental, não há provas definitivas de que seja um fator causal no desenvolvimento de comportamentos violentos em jovens."

A outra hipótese comumente levantada, o bullying, faz sentido acadêmico para Estanislau. “Estudos demonstram que em diversos eventos do tipo havia bullying envolvido, mas essa busca por tentar se estabelecer um perfil a partir dos casos é delicada e perigosa. Cada situação é diferente, não podemos buscar simplificar questões complexas. Além disso, é preciso deixar claro que a grande maioria dos casos de bullying são solucionados sem chegar a uma situação extrema”.

Diretrizes da OMS

Ivan Mario Braun salienta que, em virtude da ampla literatura disponível sobre suicídio, a Organização Mundial da Saúde concluiu que a imprensa tem de ser cautelosa na divulgação desse tipo de ato, além de ter sugerido algumas diretrizes para sua comunicação, como educar o público em relação à prática, evitar linguagem sensacionalista ou a tratar com naturalidade, bem como evitar a descrição explícita do método usado numa tentativa de suicídio ou suicídio consumado, entre outras.

“Apesar de existirem recomendações neste sentido em relação aos tiroteios em massa, a OMS ainda não possui tais diretrizes”, segundo o especialista, muito provavelmente por não haver tantos estudos sobre.

Ataque à liberdade de imprensa?

Os críticos das campanhas No Notoriety e Don’t Name Them nos Estados Unidos sustentam que elas minam o direito do público de ser totalmente informado sobre eventos importantes.

Alguns argumentam que limitar o relato dos detalhes a respeito de um assassino em massa poderia prejudicar pais e familiares na identificação de indícios da intenção de cometer o crime em jovens, o que os faria buscar ajuda policial e/ou médica, evitando novos casos.

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Nossas Convicções: Liberdade de expressão

Há ainda a crítica de que, ao restringir o público de determinadas informações, seria mais difícil apresentar respostas políticas sólidas.

Não se trata, entretanto, de restringir a liberdade de imprensa, mas apenas de compreender as limitações éticas do jornalismo e fazer o que é mais adequado à saúde pública.

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