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O ator Mark Ruffalo durante lançamento do filme "Vingadores: Ultimato", em 2019: o Hulk quer seu voto
O ator Mark Ruffalo durante lançamento do filme “Vingadores: Ultimato”, em 2019: o Hulk quer seu voto| Foto: EFE/ETIENNE LAURENT

Nos últimos dias de abril, diversos artistas de Hollywood impulsionaram uma campanha nas redes sociais, iniciada por artistas brasileiros como a cantora Anitta e a ex-BBB Juliette, a atriz Taís Araújo e o youtuber Felipe Neto, apelando para que adolescentes brasileiros tirem o título de eleitor e votem nas próximas eleições.

Dentre os participantes mais ilustres estão o ator americano Mark Ruffalo, o Hulk dos filmes da Marvel; Mark Hamill, o Luke Skywalker de 'Star Wars'; a atriz Julianne Moore, estrela de 'Jurassic Park'; e o ator Leonardo DiCaprio. Este último teve a sua publicação no Twitter respondida de forma irônica pelo presidente Jair Bolsonaro, que agradeceu dizendo que o povo brasileiro decidirá se a Amazônia continuará soberana ou será entregue a "vigaristas que atendem a interesses especiais estrangeiros”.

A divulgação dos artistas segue um padrão: destacam a importância do voto para adolescentes a partir de 16 anos — que no Brasil só são obrigados a votar depois dos 18 anos —, incluem as hashtags das campanhas e acrescentam links redirecionando para sites que agregam informações sobre a forma que jovens podem tirar o seu título de eleitor.

Mark Ruffalo divulgou o site da campanha 'Olha o Barulhinho', que procura ter uma linguagem descontraída com memes para atrair os jovens, mas não possui nenhuma informação sobre quem são os autores ou financiadores. Além disso, o site foi registrado em um domínio estrangeiro, de forma que fiquem ocultas as informações do proprietário. Já DiCaprio, além do 'Olha o Barulhinho', divulgou os sites 'Seu Voto Importa' e 'Cada Voto Conta', agradecendo-lhes por serem “heróis da democracia”.

A estratégia é que as manifestações dos artistas pareçam espontâneas. No entanto, por trás dessa campanha existe uma intensa organização, grandes produções (até um videoclipe, com iniciativa da organização Atlas das Juventudes, ONG que produz dados para auxiliar em políticas publicas, foi produzido pelo canal de funk Kondzilla, que tem mais de 65 milhões de inscritos no YouTube), ligações com partidos de esquerda e ONGs ambientalistas e estrangeiras, e potenciais interesses bilionários nas próximas eleições.

A organização lembra o “Mensalinho do Twitter”, um esquema descoberto nas eleições de 2018 em que influenciadores eram pagos para elogiar o candidato à reeleição ao governo do Piauí, Wellington Dias (PT), com publicações padronizadas semelhantes a estas. O caso foi investigado pela Justiça Eleitoral.

Especialistas acreditam que a atribuição de alistamento eleitoral é de competência do Poder Judiciário, não devendo-se admitir interferência na vontade dos jovens por influenciadores digitais. Além disso, além de uma mensagem implícita para que estes jovens votem em determinados candidatos, a estratégia pode ser uma forma de buscar votos para Lula: pesquisas apontam o petista com quase o dobro de votos entre os jovens de 16 a 24 anos com relação a Bolsonaro. A diferença diminui conforme a idade avança.

Movimento ligado ao PSOL entre os organizadores

Quem executa a campanha Olha o Barulhinho — cujo nome é referência ao som emitido pela urna eletrônica após o voto — é a empresa de marketing Quid, que possui poucas informações na internet, além do que as que estão no próprio site.

Entre os sócios da Quid estão Pedro Telles, co-fundador da Bancada Ativista, movimento ligado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) dedicado a eleger ativistas de esquerda para o legislativo em São Paulo. Segundo informações do site Advocacy Hub, do qual Telles é conselheiro, ele atualmente chefia o gabinete da bancada, chamada de "Mandata" após as eleições de 2018.

Também integram a sociedade a jornalista Ana Freitas; o ativista Caio Tendolini, diretor executivo da Quid e também ligado à Bancada Ativista; e Ricardo Borges Martins, cientista social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Influência Social pela Université d'Aix-Marseille. Além disso, pessoas que trabalharam na assessoria de campanha eleitoral de Fernando Haddad (PT) e da própria Bancada Ativista do PSOL trabalham para a empresa.

Não há menção à Quid no site da campanha 'Olha o Barulhinho', mas em entrevista à seção Ecoa do Portal UOL, Caio Tendolini disse ser o seu idealizador. Nesta entrevista a Quid é citada por ter realizado uma pesquisa explicando os motivos para abstenção dos adolescentes nas eleições, mas não é mencionado que a Quid estivesse executando a campanha.

O roteirista Marcel Izidoro, que também é colunista do Ecoa UOL, disse nessa entrevista ser um dos articuladores da campanha. Entramos em contato com Izidoro, que confirmou ter participado da criação da estratégia do Olha o Barulhinho, mas negou ter recebido pagamento. Izidoro não quis nos contar quem executou a campanha.

Entramos em contato com a administradora do grupo de Whatsapp do “Olha o Barulhinho”. Solicitamos informações sobre o projeto e foi-nos entregue o e-mail da jornalista Clarissa Beretz, que estaria cuidando da comunicação do projeto.

Beretz trabalha para o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IIEB), ONG ambientalista que gerencia o Fundo Amazônia. O fundo foi criado em 2008 para captar recursos bilionários, que vêm principalmente dos governos norueguês e alemão, para a preservação da Amazônia.

O fundo, de quase R$ 3 bilhões, se encontra hoje congelado pelo governo Bolsonaro após este reformular a gestão dos recursos e estabelecer novos critérios para sua aplicação. Assim, as decisões que antes estavam nas mãos de ONGs, como o IIEB, que atuava como ONG guarda-chuva repassando recursos para outras instituições menores, passam ao Executivo Brasileiro.

A primeira publicação do 'Olha O Barulhinho' no Instagram obteve poucas curtidas, mas entre estas curtidas estava a do perfil do IIEB.

Mais campanhas

Outra campanha divulgada por Di Caprio é a Cada Voto Conta, uma iniciativa do NOSSAS, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve campanhas de mobilização social com o intuito de fortalecer "a democracia, justiça social e igualdade". Embora a NOSSAS não seja abertamente partidária, todas as causas que promove são de esquerda.

A NOSSAS, que é dona da plataforma utilizada pelo Sleeping Giants — grupo que persegue ativistas e jornais não alinhados com suas ideologias e tenta desmonetizá-los — é financiada por grupos bilionários como Open Society, OAK Foundation, Skoll Foundation, Tinker Foundation, Malala Fund, Instituto Avon e entre outros.

A ação 'Cada Voto Conta' prevê a entrega de prêmios como incentivo para que jovens votem nas próximas eleições. Quem conseguisse convencer mais jovens a tirar títulos de eleitor poderia ganhar de telefones celulares iPhone a leitores digitais Kindle. Segundo o site, pessoas mais velhas não podem disputar as premiações.

A campanha 'Seu Voto Importa', que teve o apoio da Quid, é patrocinada pela Girl UP, organização feminista com foco em garotas adolescentes conhecida no Brasil por promover a campanha — da qual a NOSSAS também participou — de distribuição de “absorventes gratuitos” nas escolas.

A Girl UP foi criada pela United Nations Foundation (UN), uma organização internacional baseada nos Estados Unidos, parceira estratégica da ONU. Além do governo americano, a UN recebe financiamento da Jhonson & Jhonson — uma das maiores fabricantes de absorventes no mundo —, Bill & Melinda Foundation, Nike Foundation, Royal Dutch Shell e também a Disney.

Na última sexta-feira (29), a conta da Sleeping Giants no Twitter divulgou um evento em que a Girl UP, em parceria com o Greenpeace, estaria distribuindo sorvetes veganos para jovens entre 16 e 18 anos que fossem tirar títulos de eleitor na Avenida Paulista, em São Paulo. “Tá calor? Que tal um sorvetinho de graça sabor democracia?”, convocava o texto, com iniciativa semelhante à da rede Burguer King, que ofereceu desconto para quem apresentasse o título de eleitor na hora da compra.

Competência do Poder Judiciário

Para Adriana Farias, Procuradora Regional da República, mestre em direito e pós graduada em direito eleitoral, o alistamento eleitoral, obrigatório ou facultativo, faz parte do processo eleitoral e se submete a todos os princípios e regramentos a ele inerentes. Ela explica que esta é uma atividade administrativa permanente da Justiça Eleitoral desde o Código de 1932, quando, em busca da “verdade eleitoral”, o controle do alistamento do eleitor foi retirado do poder político.

Adriana destaca que atualmente, a livre manifestação de vontade em se alistar é protegida contra induzimento “com infração de qualquer dispositivo do Código Eleitoral”, caracterizando, inclusive, conduta tipificada como crime eleitoral (Art. 290, CE).

“Há que se ter muita cautela quando se opta por fazer uma campanha para influenciar o jovem eleitor a realizar seu alistamento eleitoral e a votar, principalmente quando essa atividade é entregue à influenciadores digitais, organizações internacionais e da sociedade civil, que podem levar seus seguidores a votarem ou não votarem em determinado candidato (como esta fala de Anitta), ou a se posicionarem contra ele no debate público (como esta letra de música, que cita uma guerra da direita contra a esquerda)”, diz.

Por isso, diz Adriana, a livre formação da vontade do jovem eleitor para se alistar e exercer a faculdade de votar deve estar sempre protegida da influência indevida do poder político, econômico ou de outros abusos, pois, uma campanha como esta, por mais bem intencionada que seja, pode fugir do controle de seu patrocinador — o TSE, principalmente por se tratarem de adolescentes, que possuem uma ingenuidade, própria de sua faixa etária.

“A cidadania é um dos fundamentos da República e todo jovem possui a condição de cidadão e sua cidadania merece total respeito, tanto pelo Estado como pelos demais cidadãos. Se alistar é uma opção do cidadão entre 16 e 18 anos, um direito seu, assim como escolher se deve votar ou não. Não se deve confundir cidadania com direitos políticos”, diz.

Votos para Lula

Para o escritor e analista político Flavio Morgenstern, o desinteresse crescente dos jovens em política — em março o Brasil atingiu o menor número de adolescentes com título de eleitor da história, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, pode ser em parte um refluxo da onda dos protestos de 2013, que até hoje não teria acabado perfeitamente.

Para Morgenstern, as celebridades perceberam que os jovens hoje não são mais “revolucionários descerebrados” e estão mais para pessoas já cansadas de discursos ideológicos repetitivos. “Se os discursos cansam, melhor trocar quem diz. Não mais professores ou burocratas, mas celebridades dizendo a mesma coisa e pedindo votos para a esquerda”, diz.

Morgenstern acredita que a aposta de pedir votos de jovens — que dificilmente têm conhecimento histórico e sabem o que foi o Mensalão — é uma tática velha e que nessa faixa etária, na qual jovens ouvem mais os professores do que os pais, fica fácil ter mais votos para alguém como Lula.

“Resta saber se o mesmo discurso mofado vai convencer alguém. Algumas das celebridades escolhidas no Brasil para showmício pró-Lula só lançaram música relevante em 1992, quando o Senna estava vivo, o Brasil era tri e a nossa moeda era o cruzeiro. Difícil acreditar na tática”, disse.

O que dizem os envolvidos 

A Quid informou que faz parte de um conjunto de iniciativas, entre empresas, agências, organizações não-governamentais e influenciadores, trabalhando para incentivar a participação de jovens de 16 e 17 anos nas eleições de 2022. E que a campanha “Olha o Barulhinho” foi criada e financiada pela Quid, mas que por política institucional, não seriam divulgados valores das campanhas.

“Hoje existe uma crescente tendência de abstenção eleitoral no Brasil, que é especialmente preocupante entre eleitores mais jovens, e o incentivo ao voto é importante para o fortalecimento de qualquer democracia”, explicou sobre suas motivações.

A Quid também informou que Pedro Telles é um dos fundadores da Quid, mas se desligou da equipe em fevereiro deste ano, antes do início da campanha. Entretanto, Telles ainda consta como sócio administrador da empresa Comunicação em Rede LTDA no site da Receita Federal. Além disso, a Quid informa não haver participação financeira ou organizacional da Bancada Ativista e do IIEB.

“Contratamos Clarissa Beretz individualmente como profissional freelancer para trabalho de assessoria de imprensa”, concluiu.

Até a publicação desta reportagem, NOSSAS, Girl UP, IIEB, Kondzilla e Atlas das Juventudes não responderam nossos contatos.

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