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Inteligência artificial: quem é o autor quando todos podem escrever?

Avanço da IA deve mudar profundamente o conceito de autoria.
Avanço da IA deve mudar profundamente o conceito de autoria. (Foto: EFE/EPA/Csaba Krizsan)

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Durante séculos, a autoria foi privilégio, fardo e mistério. Homero (se é que existiu como indivíduo, e não como marca coletiva da tradição oral grega) inaugurou o problema ao nos legar obras cuja verdadeira origem permanece em disputa, como uma catedral cujo arquiteto ninguém consegue nomear. Shakespeare enfrentou acusações póstumas de que seus textos teriam sido escritos por Bacon ou Marlowe. Os ghostwriters de presidentes e celebridades demonstraram que o nome na capa nem sempre corresponde à mão que escreveu. A diferença é que, até agora, havia sempre uma mão humana em algum ponto do processo. Havia sempre carne, osso, insegurança e café frio sobre a mesa. Essa certeza confortável acaba de ser revogada.

Com o advento dos grandes modelos de linguagem (GPT, Claude, Gemini e seus sucessores cada vez mais sofisticados), qualquer pessoa com acesso à internet e uma ideia minimamente articulada pode gerar textos que variam do competente ao brilhante, do relatório técnico ao ensaio filosófico, do soneto ao parecer jurídico. O impacto sobre o conceito de autoria é sísmico, não porque a máquina tenha passado a “pensar” (debate que mentes mais competentes ainda não resolveram), mas porque o produto gerado tornou-se, em muitos casos, indistinguível daquele elaborado por seres humanos. E quando o resultado é o mesmo, a pergunta se impõe com a força de uma intimação judicial: o que sobra do autor?

Proponho aqui a seguinte tese: a autoria está migrando do centro para as pontas. Historicamente, ser autor significava conceber a ideia, pesquisar, estruturar o argumento, escolher as palavras, revisar e assinar. Era um processo artesanal, penoso, íntimo, análogo ao do escultor que arranca a forma do mármore com as próprias mãos. A inteligência artificial comprime violentamente esse processo e desloca o valor para dois extremos que, ironicamente, sempre foram os mais importantes (ainda que os menos visíveis): a concepção criativa e a assinatura. O miolo, que durante séculos consumiu o grosso do suor, tornou-se automatizável. O conjunto de ideias e premissas sobre as quais se desenvolve a narrativa, contudo, não pode ser automatizado.

Tratemos da concepção. Um modelo de linguagem, por mais avançado que seja, não acorda pela manhã com vontade de escrever sobre geopolítica. Não tem insônia por causa de uma frase mal resolvida. Não sente o incômodo físico de uma contradição lógica que lhe escapa. Ele precisa de instruções, de um prompt. E o prompt bem estruturado exige do autor exatamente aquilo que sempre distinguiu o que é memorável do que não tem importância: clareza de pensamento, capacidade de formular perguntas precisas e visão do conjunto. Instrução vaga produz texto genérico. Instrução brilhante produz material que, refinado e assinado, pode rivalizar com o melhor do ofício. A concepção criativa, portanto, não desaparece. Concentra-se. Destila-se. Torna-se a matéria-prima sem a qual a máquina nada produz de relevante. É o fogo sem o qual o forno é apenas um buraco escuro.

Passemos à assinatura, que é onde a questão se torna verdadeiramente séria. Apor o próprio nome a um artigo, relatório, ensaio ou romance é um ato que transcende a mera identificação de origem. É a assunção pública da responsabilidade pelo conteúdo, o equivalente moral de plantar a bandeira no território e dizer: “Eu respondo por isto.” O autor que subscreve um documento coloca em jogo sua reputação, sua credibilidade e, em certos contextos, sua carreira. A inteligência artificial, convém lembrar, não assina nada. Não responde por erros factuais, não enfrenta processos por difamação, não sofre constrangimento público por um argumento falho. A IA é o ghostwriter perfeito: competente, incansável e absolutamente irresponsável, no sentido técnico de que não tem responsabilidade a assumir. Escreve como um mercenário que luta sem pátria.

A assinatura, portanto, converte-se no selo de responsabilidade que separa a produção maquinal da autoria propriamente dita. E nela se compreendem não apenas o ato de assinar, mas todo o trabalho de curadoria que o precede: verificação dos fatos, ajuste da estrutura, inserção dos toques pessoais (aquela metáfora inesperada, aquele corte cirúrgico num parágrafo verborrágico, aquela reformulação inteira de um trecho que a máquina construiu com competência, mas sem alma). É esse trabalho “nas pontas”, concepção e assinatura com tudo o que ambas implicam, que tende a constituir, cada vez mais, a essência da autoria. O resto é alvenaria. Importante, mas não é arquitetura.

Três cenários

Mas o futuro, como de costume, não é monolítico. Pelo menos três cenários se desenham no horizonte, e nenhum deles é particularmente reconfortante para quem vive da escrita como ofício. Cada um deles carrega, à sua maneira, a sombra de uma revolução sem manifesto.

No primeiro cenário, o da coautoria transparente, consolida-se uma norma de declaração do uso de IA. O autor concebe, a máquina executa, o autor refina e assina. A autoria torna-se análoga à direção cinematográfica: o diretor não opera a câmera nem compõe a trilha, mas é dele a visão, a responsabilidade e o nome nos créditos. Ninguém acusa Kubrick de não ter tocado cada nota de Assim Falou Zaratustra na abertura de 2001; o gênio estava na escolha, não na execução. A transparência preserva a confiança, e o valor migra para a concepção e a curadoria. É o cenário mais civilizado. E, portanto, o menos provável.

No segundo cenário, o da simulação generalizada, o uso de IA torna-se tão difuso e dissimulado que a distinção entre texto humano e texto gerado dissolve-se na irrelevância prática. Artigos acadêmicos, pareceres jurídicos e até romances passam a ser produzidos com auxílio maquinal não declarado, e a sociedade, por fadiga ou conveniência, deixa de se importar. A autoria se reduz a uma questão de branding: importa menos quem escreveu e mais quem tem o nome e a reputação. Os escritores transformam-se em curadores de conteúdo, uma espécie de “diretor artístico de palavras” cuja competência essencial é o discernimento, não a redação. Contém uma ironia cruel: a era da informação infinita pode ser também a da autenticidade extinta. O mundo abarrotado de textos torna-se um mundo órfão de autores.

No terceiro cenário, o da bifurcação radical, emerge uma cisão entre dois mundos. De um lado, a produção utilitária (relatórios, contratos, manuais técnicos) é quase inteiramente delegada à IA, com humanos operando como supervisores e signatários. De outro, a escrita artesanal, integralmente humana, passa a ser valorizada como bem de luxo, de maneira análoga àquela que justifica um relógio Patek Philippe ser muito mais caro que um Casio: ambos informam as horas, mas só um é artesanalmente manufaturado. A marca “escrito por um ser humano” torna-se selo de distinção, análogo literário do “orgânico”. E a autoria divide-se em duas castas separadas por um abismo de prestígio e de preço. Uma escreve para comunicar. A outra escreve para existir.

A IA não ameaça quem pensa com originalidade, porque originalidade é precisamente o que a máquina não fabrica por conta própria.

Os três cenários conduzem, por caminhos distintos, a uma mesma pergunta incômoda: quem são as vítimas de longo prazo dessa redefinição?

A resposta não está onde a maioria imagina. Os grandes autores, aqueles cuja voz é inconfundível e cuja reputação funciona como selo de qualidade, sobreviverão e, em certos casos, prosperarão. A IA não ameaça quem pensa com originalidade, porque originalidade é precisamente o que a máquina não fabrica por conta própria. Montaigne não seria substituído por um algoritmo, porque o que fazia Montaigne ser Montaigne não era a mecânica da prosa, mas o olhar único, irrepetido e irrepetível sobre o mundo. Santo Agostinho não escreveu as Confissões porque dominava a retórica latina (embora a dominasse como poucos): escreveu-as porque nenhuma outra alma vivera aquela conversão. Olhares únicos, por definição, não se replicam. Não se treinam. Não se escalam.

As verdadeiras vítimas serão os profissionais do texto intermediário: redatores competentes mas substituíveis, produtores de conteúdo padronizado, acadêmicos cuja contribuição reside mais na compilação do que na inovação. É a vasta classe média da escrita profissional que enfrentará a concorrência de um adversário que não dorme, não cobra hora extra, não sofre bloqueio criativo e jamais pede aumento. A história ensina com brutalidade pedagógica: o que a máquina consegue fazer “suficientemente bem”, a máquina termina por fazer. A prensa de Gutenberg não eliminou os escribas, mas tornou-os desnecessários. O tear mecânico não matou a tecelagem, e sim o tecelão.

. Se já não é possível saber com certeza quem efetivamente escreveu um texto, como calibrar a confiança que nele se deposita?

Mas eis o paradoxo que salva a história de ser apenas uma elegia: a mesma tecnologia que esmaga o texto genérico liberta o pensador original. Quem antes gastava horas com a mecânica da redação pode agora dedicar esse tempo ao que realmente importa: a ideia, a estrutura, a visão. Um pesquisador em Boa Vista com uma hipótese brilhante e acesso a um modelo de linguagem pode produzir, hoje, um artigo de qualidade formal equivalente ao de um professor de Oxford com três assistentes e uma sala com lareira. A IA, nesse sentido, funciona como a pólvora da escrita: derruba muralhas, mas também abre caminhos. O que antes era privilégio de quem dominava o ofício da escrita torna-se acessível a quem domina o ofício do pensamento. E isso não é pouco. É uma revolução.

Há, porém, uma vítima mais sutil e talvez mais grave do que a classe média da escrita: a própria relação do leitor com a verdade. . Se já não é possível saber com certeza quem efetivamente escreveu um texto, como calibrar a confiança que nele se deposita? A assinatura, aqui defendida como fundamento último da autoria, só funciona enquanto houver consequências reais para quem assina falsidades ou mediocridades. É o princípio que rege o ius gentium e toda forma de pacto: a palavra só vale porque pode custar algo a quem a profere. O dia em que assinar virar mera formalidade (e não ato de coragem, responsabilidade e comprometimento da própria reputação), teremos perdido algo que nenhum algoritmo poderá nos devolver. Teremos preservado o nome na fachada, mas evacuado o edifício.

E que ninguém se iluda com a promessa das ferramentas de detecção, esses supostos oráculos algorítmicos que se propõem a distinguir o texto humano do texto maquinal. Elas próprias são movidas a inteligência artificial, e sua falibilidade já ultrapassou o constrangedor para atingir o farsesco. Em 2023, múltiplas plataformas de detecção submeteram o discurso de Gettysburg, de Abraham Lincoln, ao seu escrutínio estatístico, e o veredito foi quase unânime: texto gerado por inteligência artificial, com probabilidades superiores a 96%. Lincoln, que redigiu a alocução em Washington e a revisou já em Gettysburg, onde milhares de homens jaziam enterrados, foi retroativamente convertido em algoritmo. A Declaração de Independência dos Estados Unidos obteve resultado semelhante. A ironia não é apenas cômica; é estrutural. As ferramentas que deveriam nos proteger da indistinção entre o humano e o artificial são, elas mesmas, incapazes de fazer a distinção. Quando o melhor da prosa humana é estatisticamente indistinguível do texto gerado, o detector não revela a fraude do escritor; revela a sua própria. Como observou uma professora norte-americana diante do caos que essas ferramentas provocaram em suas salas de aula: “É muito estranho, porque a universidade está usando IA para nos dizer que estamos usando IA.”

Talvez haja, contudo, motivo para um otimismo cauteloso. Toda grande ruptura tecnológica provoca, num primeiro momento, a sensação de que o céu desaba. A fotografia iria matar a pintura, e não matou, antes libertando-a do dever de representar fielmente o mundo, inaugurando o impressionismo, o expressionismo e toda a arte moderna. O cinema iria matar o teatro, e não matou: o teatro sobreviveu justamente por oferecer aquilo que a tela não pode dar: presença, risco, improvisação, a vertigem do irrepetível. O audiolivro e o podcast tampouco mataram o livro impresso. Há um padrão aqui, e é o seguinte: a máquina que automatiza o trivial não destrói a arte; purifica-a, concentra-a, força-a a ser aquilo que só ela pode ser. Como o fogo que, ao consumir a mata seca, permite que os troncos mais fortes respirem.

No fim das contas, a pergunta decisiva não é “quem escreveu este texto?”, mas “quem ousou pensá-lo, quem o refinou com as próprias mãos, e quem apõe a ele o seu nome, sabendo que o nome é fiança?” A autoria, despida de seus atributos mecânicos, revela-se como aquilo que sempre foi em sua essência mais radical: não um ofício, mas uma vocação; não uma técnica, mas um ato de coragem.

Quando Cícero subiu à tribuna para defender o poeta Árquias, não argumentou que a poesia era útil, nem que o verso bem torneado servia ao Estado. Argumentou que as letras são o que resta quando tudo o mais perece. “Esses estudos alimentam a juventude, consolam a velhice, adornam a prosperidade e oferecem refúgio na adversidade.” Dois mil anos depois, a defesa permanece de pé, e o desafio que ela encerra tornou-se mais agudo, não menos. A máquina pode executar o verso, mas não pode subir à tribuna. Pode compor o período, mas não pode arriscar a reputação. Pode imitar a forma, mas desconhece o desconforto que a precede.

Escrever é pensar devagar. É aceitar que a frase resista antes de ceder. É habitar o intervalo entre o que se quer dizer e o que se consegue dizer, e nesse intervalo descobrir, como Agostinho descobriu diante de Deus, que o ato de nomear já é o ato de compreender. Nenhuma máquina vive nesse intervalo. Nenhuma máquina precisa dele. E é precisamente aí, nesse desconforto irredutível entre a intenção e a palavra, que a autoria encontra não o seu último refúgio, mas a sua cidadela.

A máquina escreve. O autor existe, assina e responde. E entre a escrita e a assinatura medeia o abismo que separa o engenho da coragem, o cálculo da convicção, o produto da obra. Esse abismo tem um nome antigo. Chama-se autoria. E enquanto houver quem o atravesse, a palavra humana não terá substituto.

Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem as do MRE.

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