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Vista do edifício iluminado do Estado-Maior durante um show de luzes por ocasião do 100º aniversário da Revolução Russa na praça Dvortsovaya (Palácio) em São Petersburgo , Rússia, 04 de novembro de 2017.
Vista do edifício iluminado do Estado-Maior durante um show de luzes por ocasião do 100º aniversário da Revolução Russa na praça Dvortsovaya (Palácio) em São Petersburgo , Rússia, 04 de novembro de 2017.| Foto: EFE/EPA/ANATOLY MALTSEV

O dia é 5 de novembro de 1917. São oito horas da noite. A cidade é Petrogrado, antiga São Petersburgo. Dois homens caminham em silêncio, envoltos em pesados casacos. Uma névoa branca emana continuamente de suas bocas. Seu destino é o Instituto Smolny, no subúrbio da cidade. Anteriormente uma escola para as filhas da nobreza, o prédio foi convertido em centro administrativo e abriga a sede do Soviete de Petrogrado. A partir de amanhã, abrigará o Segundo Congresso Nacional de Sovietes.

O homem alto e forte, de barba cerrada, se chama Rakhva. Ele está ali na função de guarda-costas. O outro é baixo e está toscamente disfarçado: raspou a barba, usa uma boina que lhe cobre a careca e tem um lenço amarrado em torno do rosto, como se sofresse com dor de dente. Seu nome é Vladimir, filho de Ilya. Sua mãe o chamava de Volodya. Seus amigos o chamam de Lênin.

Pegam carona em um bonde que passa vazio e descem na rua Botkin, de onde já podem avistar os Guardas Vermelhos, encarregados de controlar a passagem pela ponte. Passam por esses primeiros guardas sem problemas, mas do outro lado da ponte há um destacamento que, sob ordens de Alexander Kerensky, exige permissões. Essa ponte simboliza a situação da Rússia: de um lado, o poder oficial do governo; de outro, o poder vermelho dos sovietes.

Rakhva e Lênin atravessam a ponte. Eles têm apenas um par de permissões muito mal forjadas, nas quais os nomes originais foram apagados e substituídos. A operação fora feita às pressas e a tinta dos nomes está borrada. Eles tentam furar o bloqueio, discretamente, mas quando começam a se afastar alguém grita: “Alto!”

Rakhva se volta, segurando um revólver em cada mão por dentro dos bolsos do casaco. Está preparado para matar e morrer, mas não deseja chamar atenção com um tiroteio. Dois cadetes se aproximam. Rakhva os distrai com conversa fiada, enquanto Lênin se afasta sem olhar para trás. Os cadetes acabam desistindo de discutir com aqueles dois, que tomam por mendigos.

Nas portas do Smolny, novo controle de permissões e aglomeração de descontentes. Membros do Soviete estão tendo a entrada negada porque apresentam passes antigos, da cor errada. Exasperados, argumentam que têm direito de entrar ali. O imponente Rakhva, que conseguiu alcançar seu chefe, toma a liderança dos reclamantes, instigando-os a entrar no local à força. Ele é convincente e os inspetores acabam sendo jogados de lado. Uma vez lá dentro, Lênin e Rakhva se separam.

Lênin procura se esconder e permanecer incógnito. Isso não é difícil: o Smolny está em febril atividade e ninguém tem tempo de reparar nele. Centenas de delegados aguardam o início do grande Congresso. O ar está impregnado da fumaça dos charutos, o chão range continuamente sob as botas apressadas, há lixo por toda parte, em cada uma das salas se reúnem grupos que discutem posicionamentos a serem defendidos. Ninguém tem a menor dúvida de que o governo de Kerensky está por um fio e que as decisões do dia seguinte definirão o futuro da Rússia.

Durante a noite, membros do Comitê Militar Revolucionário se espalham pela cidade. Pontes, estações ferroviárias, estabelecimentos bancários, repartições telegráficas, até o quartel-general do Estado Maior passam para o controle bolchevique sem troca de tiros. Pela manhã, começam a cercar o Palácio de Inverno, sede do Governo Provisório. O poder já começa a trocar de mãos, sem que o povo russo se dê conta. A vida ainda segue normalmente na capital.

Às 14:30 do dia 6, é chamada uma reunião de emergência do Soviete de Petrogrado, realizada no salão central do Smolny. Quem toma a palavra é o presidente do Soviete, um homem muito magro, de bigode, mas sem barba, usando óculos redondos. Seu nome é Leon Trotsky. A mensagem que ele tem a dar é simples: “O governo Kerensky foi derrubado. Vários ministros foram presos”. Ouvem-se aplausos e gritaria.

A seguir, Trotsky anuncia que é hora de um governo socialista assumir o poder e que um pronunciamento será feito por Lênin. Quando o líder bolchevique, que estivera escondido por quatro meses, sobe ao palco, os aplausos são ensurdecedores e duram vários minutos. Seu discurso é de triunfo: “Camaradas! A revolução dos trabalhadores e dos camponeses, sobre cuja necessidade os bolcheviques vêm falando todo esse tempo, foi realizada”.

As falas de Trotsky e de Lênin são mentirosas. O governo não foi derrubado, nenhum ministro foi preso e a revolução não foi realizada. Mas eles acreditam que a tomada do poder é iminente.

Os rumores incessantes sobre a tomada do Palácio e a queda do governo deixam os demais delegados desorientados. O início do Congresso é adiado. Ninguém sabe dizer exatamente qual a real situação política do país. O próprio Lênin passa a tarde exigindo notícias. Pergunta “E o Palácio? Ainda não foi tomado?” e “Por que está demorando tanto?”

Seguros da vitória, os bolcheviques já discutem a formação de seu futuro governo. O título de “ministros”, usado até então, é descartado. Trotsky sugere “comissários”, de inspiração jacobina, e Lênin concorda. Serão conhecidos como “Comissários do Povo”. Lênin se compromete a ser o presidente, Trotsky ficará com o cargo de Comissário do Exterior. O camarada Iussef Stalin é nomeado Comissário de Nacionalidades e a camarada Alexandra Kollontai assume o Comissariado de Assistência Social (é a primeira mulher da história a assumir um ministério).

Às 21:00, um poderoso tiro de canhão ressoa pela cidade. É o navio de guerra Aurora que, desde o rio Neva, atira contra o Palácio de Inverno (o tiro é na verdade de pólvora seca, destinado a ter apenas efeito moral). Uma hora depois, mais dois tiros de canhão. Agora é a Fortaleza de Pedro e Paulo que atira contra o Palácio.

Às 22:30, finalmente tem início o Segundo Congresso de Sovietes. Lev Kamenev, um dos representantes bolcheviques, anuncia a ordem do dia: 1) Organização do poder; 2) Guerra e paz; 3) Assembleia constitucional.

Yuli Martov, respeitado líder menchevique, imediatamente toma a palavra e avisa: “É necessário discutir em primeiro lugar uma solução pacífica para esta crise (...) Neste momento, antes do começo do Congresso de Sovietes, a questão do poder está sendo resolvida por meio de um golpe militar organizado por um único partido”. Naturalmente, ele se refere aos bolcheviques. Boa parte da audiência o aplaude. Como para enfatizar suas palavras, entra pelas janelas o som de tiros.

Discursos se seguem, acusando os bolcheviques de traição e de golpe. Kuchin, antigo presidente do Soviete de Moscou, afirma que “O complô militar dos bolcheviques (...) joga o país numa guerra intestina, mina a Assembleia Constituinte, ameaça o front com uma catástrofe e leva ao triunfo da contrarrevolução”. Todos que desejam falar precisam gritar acima do ruído da multidão (há mais de 600 delegados presentes, dos quais cerca de 300 são bolcheviques).

Lênin não está presente e Trotsky afirma que o que aconteceu foi uma insurreição popular e não um golpe. Segundo ele, os bolcheviques apenas deram organização à “energia revolucionária dos operários e soldados de Petrogrado”. Aos que ainda exigem acordos pacíficos, ele pergunta: “acordo com quem? (...) não há mais ninguém”. (Anos mais tarde, Trotsky resumiria da seguinte forma os discursos de oposição aos bolcheviques; “Um após outro os representantes da direita sobem à tribuna. Perderam as paróquias e as igrejas mas conservaram os campanários; apressam-se em, pela última vez, repicar os sinos rachados”.)

Vários mencheviques anunciam que, diante da iniciativa bolchevique de tomar o poder de forma unilateral, não reconhecem mais a autoridade daquele Congresso e que estão se retirando. Martov intervém novamente, pedindo que se tente evitar uma guerra civil e que seja formado um governo de coalizão. Trotsky desdenha da proposta e cria uma expressão que restará imortalizada: “Seu papel aqui acabou! Seu lugar é a lata de lixo da história!” Kamenev ainda pede que todos fiquem em seus lugares, mas mais de cinquenta delegados se retiram. Os bolcheviques assumem maioria do Congresso.

As horas se passam em meio aos discursos. Somente às 3:00 da manhã do dia 7 de novembro é que chega uma notícia concreta: o Palácio de Inverno foi tomado e vários ministros foram presos. Desta vez, é mesmo verdade. (Nos dias seguintes, a grande sensação é a adega do palácio. Operários e soldados sentem-se à vontade para se embebedar e vender garrafas. Bêbados vandalizam as lojas da região e uma única delegacia prende 182 pessoas numa só noite. Os bolcheviques tentam pôr fim à bagunça, mas é bebida demais – uma estimativa fala em três milhões de garrafas. Quando despejam vinho na sarjeta, as pessoas se ajoelham para lambê-lo.)

Kamenev anuncia aqueles fatos para os delegados. Nova leva de mencheviques revoltados deixa o congresso. A partida deles é saudada pelos restantes com ironia: “Mas ainda estão aqui? Não tinham saído?”

Às 5:00, chega um telegrama do Exército, anunciando a criação de seu próprio Comitê Militar Revolucionário, que retirou o comando das mãos dos oficiais. A notícia é recebida com festa, gritos e abraços. Uma hora depois, Kamenev declara encerrada a primeira sessão do Congresso.

Do lado de fora, é o começo de uma manhã cinzenta e fria. Em meio ao caos, com o Palácio sendo invadido, tiros soando pelas ruas, Kerensky foragido, mencheviques na oposição, uma guerra mundial em andamento, está começando ali o governo bolchevique, o primeiro governo comunista do mundo. É o começo de uma manhã muito cinzenta e muito, muito fria.

*Marcel Novaes é professor e escritor. Este texto foi adaptado do primeiro capítulo do seu livro Do Czarismo ao Comunismo (Três Estrelas, 2017). 

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