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O filósofo austríaco Karl Popper
O filósofo austríaco Karl Popper: o paradoxo da tolerância| Foto: Reprodução

Pouquíssimos autores do século 20 foram capazes de se tornar influentes em áreas tão díspares quanto as ciências e a política. O austríaco Karl Popper foi um deles.

Nascido em 1902 (morreu em 1994), de uma família com origem judaica radicada em Viena, Popper assistiu de perto à ascensão do nazifascismo na Europa. Ele obteve um doutorado em Psicologia pela Universidade de Viena e, em 1937, se tornou professor universitário na Nova Zelândia antes de se mudar para o Reino Unido. Lá, fez carreira como professor da Universidade de Londres e da London School of Economics. Foi na capital inglesa que ele ganhou fama no meios acadêmico. Seu principal alvo era a ilusão, trazida pelo cientificismo, de que seria possível solucionar os problemas da humanidade de uma vez por todas.

A contribuição mais relevante de Popper talvez tenha sido a demarcação entre a ciência e a não-ciência. O critério desenvolvido por ele foi o da chamada falseabilidade. Popper chamou atenção para o fato de que as únicas provas definitivas são as provas negativas, já que a ciência se baseia no raciocínio indutivo (tiram-se conclusões gerais a partir de casos específicos).

Por exemplo: se um pesquisador vai a campo e encontra apenas cisnes brancos, ele não pode afirmar que existem apenas cisnes brancos no mundo. É possível que haja cisnes de outras cores em outros lugares não acessados pelo pesquisador. Por outro lado, se encontrar um cisne negro, ele pode afirmar como verdade o fato de que nem todos os cisnes são brancos. Ou seja: pode provar que a proposição Todos os cisnes são brancos é falsa.

Nas próprias palavras do filósofo austríaco: “Só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação pela experiência. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema. Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico seja suscetível a ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através de recursos a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico".

As consequências da crítica de Popper seriam o abandono da pretensão positivista de que a ciência inevitavelmente chegaria a um conjunto de verdades permanentes e irrefutáveis.

“Popper joga um banho de água fria no senso comum a respeito do que seja uma prova, no sentido de que prova empírica propriamente dita é sempre, somente, prova da falsidade. Uma teoria que nós tenderíamos a considerar como demonstrada, Popper considera apenas não-falseada", explica o professor Cristiano Novaes, da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A adoção da falseabilidade como critério, portanto, tem uma consequência importante: o conhecimento científico é sempre precário, passível de ser refutado por novas descobertas.

Para Popper, tudo o que é falseável pode ser objeto da ciência. Outros tipos de conhecimento não falseáveis continuam válidos, mas não podem ser tratados como científicos. Esta é a solução do filósofo para o chamado problema da demarcação. O raciocínio é apresentado em A Lógica da Pesquisa Científica, publicado em 1959.

Hoje, o método proposto pelo filósofo austríaco é um dos pilares do método científico. “Popper foi menos influente como filósofo político do que como filósofo da ciência. Neste campo, o pensamento de Popper foi tão bem-sucedido que se tornou mainstream e nem sempre a influência dele é devidamente reconhecida”, afirma Paul Rahe, doutor pela Universidade de Yale e professor do Hillsdale College, nos Estados Unidos.

Paradoxo da tolerância?

Assim como desconstruiu a ideia de provas irrefutáveis na ciência, Popper desnudou, na política, a pretensão de que há regras incontornáveis.

No campo da filosofia política, a principal obra de Popper é A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, lançado em 1944. O livro foi escrito enquanto os horrores da da Segunda Guerra Mundial se sucediam. Em um tratado dividido em dois volumes, o filósofo austríaco ataca Platão, Hegel e Marx como proponentes do chamado Historicismo — a crença de que a História humana se move indubitavelmente em uma direção específica, seja ela o domínio da classe operária, a hegemonia da raça ariana ou um reino de paz global.

“A tentativa de construir o céu na terra invariavelmente produz o inferno”, afirmou Popper. Essas concepções messiânicas, dizia ele, eram alimentadas por autoproclamados profetas que, não por acaso, lucravam politicamente com sua pregação. O filósofo austríaco não via razão para que a história dos governos fosse tratada como a História, com H maiúsculo.

“Não existe uma história da humanidade; existe somente um número indefinido de histórias de todos os aspectos da vida humana. E uma delas é a história do poder político. Esta é elevada à condição de história do mundo. Mas isto, eu afirmo, é uma ofensa contra qualquer concepção decente de humanidade. É pouco superior a tratar a história da fraude ou do roubo ou do envenenamento como a história da humanidade”, escreveu Popper.

Embora hoje os totalitarismos sejam menos ostensivos, a crítica continua atual. O uso de termos como “avanço” e “retrocesso” na política, por exemplo, pressupõe um ponto de partida e uma linha de chegada. O mesmo vale para classificações como políticas “ultrapassadas” versus “modernas”. Também entram na lista governantes que, como Fidel Castro, asseguram que serão absolvidos no futuro, quando forem julgados pela História. Para Popper, essas são tentativas de atribuir, artificialmente, um sentido irreversível à história humana. Pior: não passam de idolatria do poder, alimentada por “profetas” autoproclamados.

As críticas de Popper, além de aplicáveis ao comunismo e ao nazifascismo, também atingiram, por exemplo, o progressivismo em voga nos Estados Unidos de Franklin Roosevelt. Influenciados por Woodrow Wilson, que fora presidente americano nos anos 1920, os progressistas acreditavam que o Estado moderno seriam capaz de resolver qualquer problema, desde que financiado adequadamente e liderado por uma elite intelectual.

Uma sociedade aberta, argumentou Popper, precisa ser baseada não na adoção de uma fórmula ideológica hermética, mas tolerância, na liberdade de expressão e na capacidade de errar e de corrigir erros. “A grande questão é se a sociedade aberta é capaz de se proteger contra a ascensão do autoritarismo”, afirma o professor Paul Rahe, que tem uma visão pessimista sobre o assunto. Já o professor Cristiano Novaes acredita que o modelo de Popper traz antídotos contra essas ameaças. “A tolerância deve estar presente não apenas como um princípio, mas como um resultado concreto num estado de coisas. Ou seja: a tolerância a qualquer postura que atinja as condições de possibilidade da própria tolerância não é tolerância".

Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Popper tratou do tema: “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se nós estendermos a tolerância ilimitada mesmo àqueles que são intolerantes, se nós não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes vão ser destruídos, e a tolerância com eles”.

Criado na tradição luterana apesar das raízes judaicas, Popper acreditava que o Historicismo era, além de tudo, anticristão: “A única atitude racional, assim como a única atitude cristã para com a história da liberdade é que nós próprios somos responsáveis por ela, no sentido de que nós somos responsáveis pelo que fazemos de nossas vidas, e de que somente a nossa consciência pode nos julgar, não o sucesso neste mundo”, escreveu.

Popper costuma ser classificado como um pensador liberal. Ele ajudou a fundar, ao lado de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, a Sociedade Mont Pelerin, que desde então reúne a elite do pensamento liberal no mundo. Embora já não seja leitura obrigatória nos currículos de filosofia política, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos foi influente nos anos 1960 e 1970. Um dos jovens estudantes que se encantaram com a obra foi George Soros, que viria a se tornar um megainvestidor bilionário. Soros foi aluno da London School of Economics e conviveu com Popper. A fundação Open Society, criada pelo filantropo, foi diretamente inspirada no livro de Popper — a começar pelo nome.

A Open Society injeta dinheiro em movimentos das chamadas minorias mundo afora. Embora tenha apoiado movimentos de libertação na União Soviética e na China comunista, a organização hoje tem laços estreitos com grupos de esquerda e mantém entre suas prioridades a promoção da agenda LGBT e a expansão do acesso ao aborto. Hoje, ironicamente, a Open Society é alvo de críticas frequentes por sua interferência indevida em regimes democráticos mundo afora.

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