Com o apoio explícito de Stalin, Lysenko eliminou seus adversários e implementou um programa de reforma agrícola desastroso.| Foto: Wikimedia Commons
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Selecione um jovem do povo, sem pesquisas acadêmicas relevantes, para conduzir o departamento de genética de um país inteiro de 170 milhões de habitantes. Permita que ele desenvolva um raciocínio pseudocientífico, sem nenhuma base em fatos. Mande para campos de trabalho forçado e manicômios os pesquisadores que discordarem dele.

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Na sequência, com base nos conceitos desse jovem do povo, force uma mudança nos métodos centenários de plantio. Exporte esses métodos para um país vizinho, com 550 milhões de habitantes, também controlado por uma ditadura. E pronto: você tem a receita para matar de fome milhões de pessoas – só na China, foram 35 a 45 milhões de vítimas.

O jovem em questão foi Trofim Denisovich Lysenko. Nascido em 1898, na atual Ucrânia, ele se tornou diretor do Instituto de Genética da Academia de Ciências da União Soviética em 1940, mas suas ideias já vinham sendo implementadas ao longo da década anterior.

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Com o apoio explícito de Josef Stalin, Lysenko eliminou seus adversários e implementou um programa de reforma agrícola desastroso, que seria posteriormente exportado para a China de Mao Tsé-Tung.

Lamark contra Mendel

Filho de camponeses, analfabeto até os 13 anos, Lysenko estudou no Instituto de Agricultura de Kiev, onde começou a pesquisar os efeitos das variações de temperatura sobre os ciclos das plantas. Seu objetivo era permitir que o trigo que costumava ser plantado na primavera resistisse ao inverno, de forma a garantir a produção de alimentos ao longo do ano inteiro. Seus primeiros estudos chamaram a atenção de outro pesquisador mais experiente, Nikolai Vavilov, que decidiu orientar os trabalhos de Lysenko.

Em 1928, o aluno veio a público com a promessa de que havia encontrado, sozinho, uma forma de implementar o plantio de diferentes plantas em qualquer estação do ano. Lysenko passou a defender que uma série de técnicas, somadas, eram mais eficazes do que as recombinações genéticas que vinham sendo testadas por agrônomos do mundo inteiro, com base na redescoberta dos trabalhos do frei Gregor Mendel.

Mendel, nascido em 1822 e falecido em 1844, deixou escritos que, no século 20, influenciariam o campo da genética e suas aplicações práticas para uma série de atividades, incluindo a agricultura.

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O agrônomo preferia utilizar métodos que, na prática, reduziam a produtividade das plantas, como o uso excessivo de enxertos e a exposição de sementes a baixas temperaturas, antes do plantio.

Em outras palavras, ele recusava os avanços apresentados por Mendel em nome da noção definida pelo naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, morto em 1829, que defendia que as características adquiridas durante a vida eram repassadas para as gerações futuras.

Para Lysenko, a genética era uma “pseudociência burguesa”, porque ia contra os princípios marxistas-leninistas de que as leis que regem a história são universais e imutáveis.

Nisso, ele contava com o apoio de Stalin. “Stalin detestava a genética. Ele dizia não acreditar na genética como era estudada no Ocidente, pois a considerava uma ciência burguesa, que não estaria de acordo com o materialismo dialético. Não por acaso, ele autorizou seu verdugo científico, Trofim Lysenko, a tornar a genética mendeliana ilegal na URSS”, afirma Daniel Fernandes, professor de história, coordenador editorial da editora Arcádia e organizador do livro O elogio do conservadorismo e outros escritos.

Técnicas questionáveis

Alguns dos métodos do pesquisador, como o de resfriar ou aquecer as sementes para que elas ficassem preparadas para solos adversos, já eram conhecidos na Europa desde o século 19, e eram considerados limitados pelos produtores rurais. Outros, como a recomendação de plantar as sementes mais próximas entre si, duas a duas, para que uma desse suporte à outra, simplesmente não funcionavam.

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Ao longo da década de 1930, enquanto a União Soviética provocava uma grande crise de abastecimento na Ucrânia que levaria ao Holodomor, a coletivização da produção agrícola soviética era implementada seguindo práticas preconizadas por Lysenko, que passou a ganhar amplo espaço junto a Stalin.

Foi também por influência do agrônomo que o ditador proibiu o uso de qualquer tipo de herbicida e fertilizante na agricultura soviética, sob a alegação de que as plantas seriam capazes de aprender sozinhas a se fortalecer e se defender de pragas.

Em 1935, o agrônomo discursou no Kremlin, alegando que os pesquisadores que se apegavam à genética eram semelhantes aos fazendeiros que resistiam a ceder suas terras ao Estado. Ao fim de sua fala, Stalin, que estava presente, se levantou e aplaudiu, gritando: “Bravo, camarada Lysenko, Bravo!”.

Em 1948, Lysenko conseguiu que a Academia de Ciências Agrícolas da União Soviética, que ele mesmo presidia desde 1938, declarasse que sua teoria era a única correta, e que qualquer pesquisa que questionasse o chamado Lysenkoísmo deveria ser renegada. “A influência de Lysenko foi tão grande que qualquer referência aos cromossomos foi banida dos livros didáticos”, diz Daniel Fernandes.

Na mesma época, o americano Norman Bourlaug iniciava a chamada Revolução Verde, que salvou da fome mais de 1 bilhão de pessoas.

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Perseguição e fome

Os efeitos da adoção do pensamento de Lysenko foram catastróficos. Mais de 3 mil pesquisadores foram presos e levados para gulags ou manicômios.

Nikolai Vavilov, o antigo professor de Lysenko, e primeiro presidente da Academia de Ciências Agrícolas da União Soviética, se recusou a abrir mão de suas pesquisas.

Vavilov havia viajado para 64 países, incluindo o Brasil (onde esteve entre dezembro de 1932 e janeiro de 1933), coletando sementes e desenvolvendo técnicas de plantio com base na observação das variedades que encontrou em todo o planeta. Acabou preso em 1940, acusado de provocar a escassez de alimentos que era, na verdade, resultado da política de Lysenko.

Depois de passar a vida buscando soluções para melhorar a produtividade do plantio, Vavilov morreu de fome em um campo de trabalho forçado, em 1943. Seu trabalho pioneiro, que indicou que todas as maiores variações genéticas de uma determinada espécie de planta são encontradas nos locais onde ela se desenvolveu pela primeira vez, ainda hoje funciona como referência para pesquisadores do mundo todo.

Como escreveu em 2001 o geneticista russo Valery N. Soyfer, no artigo The consequences of political dictatorship for Russian science, “os líderes comunistas promoveram Trofim Lysenko e impuseram o banimento da prática e do ensino da genética, condenada como ‘perversão burguesa’. A ciência russa, que havia florescido no início do século, sofreu um rápido declínio, e muitas descobertas científicas valiosas realizadas por pesquisadores russos foram esquecidas”.

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Na medida em que os geneticistas eram silenciados, a União Soviética expandia as técnicas de Lysenko para outros locais, incluindo a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia. Mas foi na China que a combinação de coletivização da produção agrícola e o Lysenkoísmo provocaram o maior número de mortes. Entre 1958 e 1962, a Grande Fome resultante da reforma agrícola conduzida na China transformou Mao no maior assassino em massa da história mundial, segundo o historiador Frank Dikotter.

Coletivização forçada

As ações de Lysenko foram implementadas como reforço a uma política de abandono das ações individuais dos fazendeiros russos. “A coletivização forçada do campo foi uma guerra declarada pelo Estado soviético contra toda uma nação de camponeses bem sucedidos. Foi uma ação contra o setor mais próspero dos camponeses. Com o tempo, o processo inteiro transformou-se em guerra contra os camponeses em geral”, diz o professor Daniel Fernandes.

“Com a coletivização forçada do solo agrícola, a produção de grãos entrou imediatamente em declínio, logo seguida por acentuada queda na criação de gado. A iniciativa congênita do camponês foi cortada pela raiz, com sérias e inevitáveis consequências”.

Diante do fracasso da política, diz o professor, “Stalin reagiu ao desastroso fracasso de seu plano de gestão agrícola tratando de encontrar um culpado. Acusou os funcionários do partido, afirmando que não haviam entendido corretamente as instruções que receberam”.

Lysenko acabaria perdendo espaço com a morte de Stalin, em 1953. Depois que o sucessor do ditador, Nikita Kruschev, denunciou os crimes do stalinismo, o agrônomo foi mantido na direção da Academia de Ciências Agrícolas da União Soviética, mas agora com atuação mais discreta.

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Em 1964, Lysenko foi abertamente denunciado pelo físico Andrei Sakharov: “Ele é responsável por um recuo vergonhoso da biologia soviética, e da genética em particular, provocado pela disseminação de uma visão pseudocientífica”, escreveu.

O agrônomo perdeu o cargo em 1965, quando a imprensa controlada pelo Estado passou a publicamente criticar seu trabalho e caracterizá-lo como pseudociência. Foi só então que as pesquisas russas sobre genética puderam ser retomadas. Ao morrer, em 1976, Trofim Lysenko recebeu um enterro discreto.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]