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10 vezes em que fazer justiça com as próprias mãos acabou mal

Além de injusto, cometer atos violentos a pretexto de punir crimes não costuma funcionar. O Judiciário pode ser lento e sujeito a falhas, mas continua sendo o melhor recurso que a civilização inventou

  • Thiago Cordeiro, especial para a Gazeta do Povo
 | Pixabay
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Existe um motivo para os seres humanos terem inventado tribunais há pelo menos 3.800 anos: para que uma sociedade se sustente, é preciso que haja leis, e que elas sejam cumpridas por organismos independentes. No momento em que qualquer pessoa se sente no direito de fazer justiça com as próprias mãos, a civilização recua vários passos.

Duvida? Então acompanhe essas dez situações em que atos violentos foram cometidos para penalizar supostos criminosos – que muitas vezes eram inocentes. Em todos esses casos, a punição foi injusta e deu muito errado.

1. Inocente espancada 

Local: Guarujá (SP) 

Data: 05/05/2014 

Mãe de duas meninas, uma de 13 anos e uma de apenas um ano, a dona-de-casa Fabiane de Jesus foi espancada por seus próprios vizinhos ao longo de duas horas. O motivo: a comunidade de Morrinhos, onde ela vivia, achou que Fabiane era parecida com o retrato falado de uma suposta praticante de magia negra, que estaria sequestrando crianças na região. Ela tinha 33 anos e se viu cercada ao chegar em casa. Foi amarrada e espancada por mais de duas horas. Atacada num sábado, ela foi hospitalizada e morreu dois dias depois. 

Não só a dona-de-casa era inocente como não havia nenhuma sequestradora de crianças na região – a moradora do bairro foi morta com base num simples boato. A imagem divulgada entre os moradores do litoral paulista era o retrato falado feito em 2012 por policiais cariocas e tratava de uma mulher acusada de tentar, sem sucesso, roubar um bebê na zona norte do Rio de Janeiro. Linchamentos, aliás, são muito comuns no Brasil: de acordo com um levantamento realizado pelo sociólogo José de Souza Martins, autor de Linchamentos: a justiça popular no Brasil, acontece um incidente por dia no país. E não funcionam: apenas trazem mais insegurança

2. Invasão à cadeia 

Local: Chapecó (SC) 

Data: 17/10/1950 

A cidade catarinense sofreu três incêndios sucessivos na época: foram queimados o Clube Recreativo Chapecoense, a maior serraria da cidade e, por fim, a igreja. A polícia identificou dois suspeitos, os irmãos Ivo e Romano Ruani. Eles viviam no mesmo hotel que Orlando Lima, que também foi arrolado como suspeito. O irmão de Orlando, Armando, se deslocou de Iraí (RS), onde vivia, até Chapecó a fim de defendê-lo. O delegado trabalhava com a hipótese de que os incêndios eram provocados para distrair a população e facilitar assaltos. A população invadiu a cadeia local e, utilizando facas, matou os quatro. Os incêndios nunca ficaram totalmente esclarecidos e continuaram acontecendo ao longo da década de 1950.

3. Investigação interrompida 

Local: Glenavy Nova Zelândia 

Data: 08/05/2018 

Ladrões arrombaram um tradicional clube de críquete da cidade. Levaram caixas de cerveja e uísque, aparelhos de som, tacos e bonés. Irritados, os frequentadores do local partiram para fazer sua própria investigação. Um dia depois do incidente, invadiram uma casa que ficava nos arredores. Filmaram toda a ação: dois homes estavam no local, onde havia, de fato, parte do material roubado. A polícia foi então acionada e prendeu os dois suspeitos. O sargento Kevin Reynols explicou aos frequentadores que, em primeiro lugar, a ação podia ter acabado em tragédia. Em segundo lugar, a invasão prejudicou uma investigação que estava em andamento sobre um grupo de ladrões que vinha agindo na região já fazia algumas semanas.

4. Garrafadas até a morte 

Local: São Luís (MA) 

Data: 06/07/2015 

Mecânico desempregado, sem passagem pela polícia, Cledenilson Pereira da Silva, de 29 anos, tentou assaltar um bar no bairro Jardim São Cristóvão, na capital maranhense. Foi submetido a socos, pedradas e garrafadas até a morte – seu corpo nu foi amarrado a um poste. Nove pessoas foram indiciadas pelo assassinato e serão submetidas a júri popular. A namorada de Cledenilson estava grávida. 

5. Preso ao poste 

Local: Rio de Janeiro (RJ) 

Data: 31/01/2014 

Um grupo de cerca de 30 justiceiros perseguiu três menores, que, de acordo com os agressores, estariam praticando furtos na região, o bairro do Flamengo. Dois escaparam, mas um deles, que tinha 15 anos, foi espancado por 15 minutos e depois preso a um poste com uma tranca de bicicleta. Encaminhado para a 9º DP, no Catete, disse que vive na rua há dois anos, desde que furtou a furadeira de um vizinho em uma comunidade do bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio. Admitiu ter participado de um furto e disse que teve medo de morrer diante do grupo de homens, que estavam armados, andavam de moto e diziam ser justiceiros. A verdade é que decidir quem é ladrão e atacar por conta própria parece dar muito certo nos filmes, mas não é justo nem funciona na vida real.

6. Segurança a um alto preço 

Local: Rio de Janeiro 

Data: Desde os anos 70, com grande expansão a partir de 2005 

Quando um grupo de pessoas armadas, membros ou ex-membros de forças de segurança do Estado, assumem o controle sobre uma região a pretexto de garantir a ordem, a situação só piora. Os milicianos começam a cobrar taxas pela manutenção da segurança, depois passam a ter acesso a armas e drogas, acabam por controlar o tráfico e até mesmo participar de assassinatos – são milicianos os principais acusados pela morte da vereadora Marielle Franco. Em mais de 170 diferentes regiões do estado, formaram um estado paralelo, que controla até a distribuição de botijões de gás, água e sinal de internet e TV a cabo e decide quem vive e quem deve morrer. “A milícia é uma organização paralela ao estado”, diz a socióloga Luziana Ramalho Ribeiro, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “É extremente disciplinada e com um forte senso de hierarquia.” 

7. Cadillac contra Boeing 

Local: St. Louis (Estados Unidos) 

Data: 23/06/1972 

O empresário David Hanley, de 31 anos, assistia pela TV o noticiário sobre um sequestro de avião em andamento: Martin J. McNally, de 28 anos, havia tomado um Boeing 727 da American Airlines, ainda no solo. Estava armado com uma submetralhadora e exigia meio milhão de dólares para liberar os reféns. David pegou seu carro, um Cadillac Eldorado, e dirigiu na direção do aeroporto. Arrebentou as cercas do local e lançou seu carro contra o avião, a 130 km/h. O carro ficou destruído. Arremessado para fora do veículo, David quebrou o crânio, a mandíbula e duas costelas, além de sofrer várias fraturas no braço esquerdo. O Boeing ficou inutilizado para voar, mas o gesto de heroísmo se mostrou totalmente inútil: o sequestrador pegou alguns reféns e levou para outro avião. Forçou o piloto a decolar e saltou de paraquedas no ar. Martin seria preso poucos dias depois. Só saiu da cadeia em 2010.

8. 7 mil contra 1 

Local: Dimapur (Índia) 

Data: 05/03/2015 

Um vendedor de carros de 35 anos, chamado Syed Farid Khan, foi detido sob a acusação de estuprar uma estudante de 20 anos. Syed era casado fazia quatro anos e tinha uma filha de três anos. A família alegava que ele havia sido incriminado injustamente, e que o verdadeiro estuprador era um rico comerciante da região. Nenhuma alegação convenceu os moradores da região: 7 mil pessoas invadiram a cadeia, retiraram o acusado da cela, arrancaram sua roupa, o apedrejaram e depois o amarraram a uma motocicleta. O plano era enforcá-lo em uma torre que ficava a sete quilômetros da cadeia, mas ele morreu antes, com o corpo arrastado pela moto. Linchamentos, aliás, não são comuns apenas no Brasil: em geral, eles acontecem em países onde não existe confiança na lei e na polícia, caso do Afeganistão, da Guatemala, da Nigéria e da África do Sul. “O linchamento é um comportamento ancestral, quase primitivo, que acontece em locais onde a sociedade está em crise de representatividade e não acredita no sistema judiciário”, define a professora Luziana Ramalho Ribeiro. 

9. Desmaio ao volante 

Local: São Paulo 

Data: 27/11/2011 

Um motorista de ônibus de 59 anos passou mal ao volante em Sapopemba, na zona leste de Sâo Paulo. Bateu em três carros e três motos. Era um domingo à noite. O veículo foi invadido e o profissional, espancado até a morte. Os passageiros, que ajudaram a conter o ônibus puxando o freio de mão, tentaram explicar à multidão que a culpa não era do motorista, mas não foram ouvidos. Os colegas se recusaram a trabalhar até que o colega fosse enterrado. 

10. Disputa entre famílias 

Local: Exu (PE) 

Data: 1949 a 1981 

Quando famílias inteiras se armam para buscar justiça, o que acontece é um ciclo de assassinatos – enquanto que o objetivo do sistema penal é exatamente evitar que um crime induza outros. Aconteceu na cidade pernambucana de Exu, terra natal do compositor Luiz Gonzaga. Começou com uma discussão entre José Aires de Alencar e Romão Sampaio Filho. Romão foi assassinado, e a sequência de ataques por vingança envolveu lideranças da política local – as famílias Alencar, Sampaio e Saraiva. Estima-se que, ao longo de pouco mais de três décadas, mais de 40 pessoas morreram em decorrência do conflito.

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