O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, em encontro no Irã, em julho de 2022| Foto: EFE/EPA/SERGEI SAVOSTYANOV
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A invasão russa na Ucrânia estreitou os laços entre os autocratas antiocidente, especialmente da Rússia, da China, do Irã, da Arábia Saudita e até da Turquia que, apesar de fazer parte da OTAN, tem no comando Recep Tayyip Erdogan, que tem dado dor de cabeça aos membros da aliança militar.

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O principal movimento para essa aproximação se dá através do que acontece em paralelo aos ataques militares: a guerra da informação. Nessa disputa, Rússia e China saem na frente no controle de conteúdo e na divulgação de fake news que circulam com facilidade nos outros países que, de uma forma ou de outra, se opõem ao Ocidente.

Guerra da informação 

Basta acessar o conteúdo da internet russa ou chinesa para perceber que, através do que é divulgado lá, a guerra na Ucrânia é muito diferente daquela que percebemos pelo olhar ocidental.

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Essa diferença de olhares sobre o conflito do leste europeu não é de hoje. Desde que a Rússia invadiu a Crimeia, em 2014, o país criou a perspectiva de que a região estava tomada por “nazistas”. De acordo com a propaganda russa, a Crimeia pedia por ajuda militar. O terreno já estava sendo preparado para a invasão da Ucrânia em fevereiro deste ano.

Com o espaço ainda mais aberto às redes sociais e a facilidade de multiplicação de conteúdo, a Rússia passou a não utilizar apenas a mídia oficial como principal canal de comunicação dessas informações, mas a focar na replicação de conteúdo através de aplicativos de mensagens.

De acordo com um relatório feito pela Microsoft, algumas dessas informações falsas são reaproveitadas meses depois. Exemplo disso foram os rumores que acusavam a Ucrânia de desenvolver programas de armas químicas e biológicas, lançados pela primeira vez em novembro de 2021 e replicados em massa em fevereiro deste ano, nos primeiros dias da invasão russa.

“Uma equipe de análise de dados da Microsoft identificou dez sites influentes da Rússia que simultaneamente publicaram em 24 de fevereiro artigos fazendo referência ao conteúdo do ano anterior, tentando dar credibilidade a ele”, especificou a empresa.

Outro exemplo de que a Rússia usa notícias falsas para justificar seus ataques militares foi a informação publicada pela mídia oficial do país no dia 7 de março, indicando que um hospital de Mariupol teria sido transformado em campo militar ucraniano. Dois dias depois, o hospital foi bombardeado, vitimando civis.

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“A Rússia e a China disseminam fake news à escala planetária”, disse Maria Ressa, Prêmio Nobel da Paz, ao jornal francês Le Figaro. “Os poderes autoritários exploram as plataformas como o Facebook para enfraquecer as democracias e fazer avançar seus interesses”, completou. Para ela, a tecnologia é uma “arma de massa” que faz parte de uma “multinacional dos autocratas” que são “verdadeiros ditadores”.

“Não só a Rússia e a China, mas também o Irã e a Arábia Saudita levam operações de desinformação ao exterior e fazem caça aos jornalistas”, ressaltou.

Alinhamento de interesses, na prática 

Além da guerra da informação, mobilizando populações a favor da ofensiva antiocidente, parte dos líderes autocratas se reuniram recentemente para estreitar laços e reforçar o poder de seus discursos nos países comandados por eles.

Na terça-feira da semana passada (20), Erdogan e Vladimir Putin se reuniram com o presidente iraniano, Ebrahim Raïssi, em Teerã, pouco depois da visita do presidente americano, Joe Biden, ao Oriente Médio. 

Desde o começo do ano, Putin encontrou Raïssi três vezes. Entre os interesses compartilhados pelas duas nações, está a venda de longa data de aviões de combate e baterias de mísseis antiaéreos da Rússia para o Irã. Assim como Putin, Taïssi apoia Bashar al-Assad na Síria e aproveita a guerra na Ucrânia para exercer maior influência na região, através da milícia xiita.

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Além disso, outro assunto de interesse entre os dois países é o envio de drones iranianos para a Rússia, que está em pleno ataque ao país vizinho.

Já o principal interesse da Turquia nessa visita foi pedir apoio dos aliados no que Erdogan chama de “operação especial” contra os pró-curdos no norte da Síria. Para isso, ele precisa do espaço aéreo, em grande parte controlado pela Rússia. Por sua vez, a Turquia ofereceu a intermediação no acordo com a Ucrânia para a saída de 20 milhões de toneladas de cereais pelo Mar Negro.

Apesar de ser membro da OTAN, o país comandado por Erdogan tem criado divergências dentro da aliança, especialmente em seus movimentos para dificultar a entrada da Suécia e da Finlândia.

O encontro entre esses autocratas em Teerã mostrou que, apesar da OTAN e da diferença de posicionamento na Síria, os três países cooperam uns com os outros. A reunião entre eles teve mais sucesso do que a passagem de Biden pelo Oriente Médio.

O presidente americano não conseguiu convencer a Arábia Saudita e os Emirados Árabes a se organizarem militarmente contra o Irã, o que seria dar continuidade à sua ideia de uma “OTAN árabe”, através de um guarda-chuva americano-israelense na região.

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Rússia e China 

Nas primeiras semanas do conflito no Leste Europeu, a China já sinalizou de que lado estava. Em março, um projeto de resolução proposto pela Rússia sobre a situação humanitária na Ucrânia foi rejeitado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Entre outros pontos, o documento não citava a responsabilidade russa no conflito humanitário provocado no país vizinho. Apenas Rússia e China votaram a favor.

Enquanto os países do Ocidente estão diminuindo seus vínculos econômicos e evitando gradualmente a dependência do petróleo da Rússia, a China está comprando barris russos.

O comércio geral da China com a Rússia aumentou 12% em março, apesar de Putin ter ordenado a invasão da Ucrânia no mês anterior. A compra de energia russa pelos chineses aumentou 75% em abril, indo para mais de US$ 6 bilhões.

Em março, o New York Times noticiou sobre um relatório da Inteligência Americana que apresentava evidências de que o ditador chinês, Xi Jinping, teria pedido para que Putin adiasse a invasão da Ucrânia para depois das Olimpíadas de Inverno de Pequim, que aconteceram até 20 de fevereiro.

Na ocasião, Liu Pengyu, porta-voz da embaixada chinesa em Washington, disse que “as alegações mencionadas nos relatórios são especulações sem qualquer base, e pretendem transferir a culpa e difamar a China”.

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O que o Ocidente aprende com a Ucrânia 

Segundo Maria Ressa, citada no começo da reportagem, ao resistir à invasão russa, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deu exemplo de posicionamento a todo o Ocidente, que “reagiu como nunca antes”. “Se ele tivesse fugido, a Rússia poderia ter cumprido seu plano”, apontou.

“Sei que parece inocente dizer, mas isso ilustra o poder do compartilhamento de emoções, que se espalham rapidamente, assim como a tristeza e a raiva. Vemos que as emoções positivas podem ser uma resposta”, ressaltou a Nobel da Paz.

Segundo ela, a Ucrânia também se destaca no combate à desinformação, denunciando fake news e ocupando o terreno virtual, evitando deixar a última palavra aos russos.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]