Protestos em Hong Kong em 2019 foram classificados pela agência como “verdadeira ameaça à democracia”| Foto: EFE/EPA/JEROME FAVRE
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Fundada por Mao Tsé-Tung em 1931, a agência de notícias estatal chinesa Xinhua News é um grupo de comunicação gigantesco: tem 170 escritórios, mais de cem deles fora da China, e emprega mais de 10 mil funcionários, mais que o dobro do que o New York Times, segundo um relatório do Parlamento Europeu.

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Nesse caso, “comunicação” não é necessariamente jornalismo: já descrita pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras como “a maior agência de propaganda do mundo”, a Xinhua News é criticada pela cobertura chapa-branca da ditadura chinesa, pela omissão e distorção de informações e pela postura agressiva contra a imprensa e governos de outros países, sempre em defesa dos interesses de Pequim.

Em 2019, durante a repressão a protestos majoritariamente pacíficos em Hong Kong, a agência descreveu as manifestações como “motins” que teriam revelado “a verdadeira ameaça à democracia e à liberdade em Hong Kong, que já foi um lugar pacífico e próspero no sul da China”.

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Uma das questões de direitos humanos na China que mais despertam preocupação internacional, os relatos sobre perseguição no território autônomo de Xinjiang aos uigures, uma minoria étnica muçulmana, foram retratados como “farsa anti-China” em reportagens da Xinhua News, que alegaram não haver desrespeito aos direitos humanos na região.

O Departamento de Estado americano estimou que até 2 milhões de uigures e outras minorias muçulmanas foram encarcerados numa rede local de centros de detenção. Relatos apontaram situações de abuso sexual, trabalho escravo e esterilizações à força. Relatório independente feito por mais de 50 especialistas em direitos humanos, crimes de guerra e direito internacional atestou que o governo chinês violou disposições da Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio das Nações Unidas em Xinjiang.

Principal adversário da China na geopolítica e na economia mundial, os Estados Unidos são alvo preferencial da Xinhua News. Na terça-feira (28), a agência fez duras críticas aos americanos num editorial sobre disputas comerciais, em tom parecido com os discursos do ditador Xi Jinping. “Para os políticos americanos com pensamento obsoleto da Guerra Fria, os Estados Unidos só podem vencer derrubando a China. No entanto, em uma era de globalização que exige cooperação multilateral, esse bullying hegemônico certamente sairá pela culatra”, afirmou.

Os ataques aos americanos também são constantes nas redes sociais da agência, com publicação de charges e ironias, como uma mensagem no Twitter pouco após a retirada dos Estados Unidos do Afeganistão. “Quando você sentir que a vida não está indo a lugar algum, pense: com quatro presidentes dos EUA, 20 anos, US$ 2 trilhões, vidas de 2,3 mil soldados... o regime do Afeganistão muda de Talibã para... Talibã”, escreveu a Xinhua News.

Nesta quinta-feira (30), a agência publicou uma reportagem em que “especialistas” atestam que o Plano de Ação Nacional dos Direitos Humanos da China, divulgado pelo governo chinês em setembro de 2016, foi “totalmente implementado”. Curiosamente, três dias antes, veiculou texto em que outros especialistas, reunidos em um seminário internacional realizado no sudoeste da China, defenderam que “os Estados Unidos devem ser denunciados pela comunidade internacional por suas violações aos direitos humanos no Afeganistão”.

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O relatório do Parlamento Europeu que analisou a cobertura da agência estatal sobre a União Europeia desde 2012 destacou que a Xinhua News tende a enfatizar a cooperação do bloco com a China e as divergências entre europeus e os Estados Unidos. Mas a agência se torna agressiva diante de sanções impostas pela União Europeia aos chineses e cobranças relativas a direitos humanos, postura adotada também quando medidas são adotadas contra Rússia e Turquia, concluiu o estudo.

Serviços de inteligência

O governo americano requisitou que todas as agências da mídia estatal chinesa que atuam em solo americano, incluindo a Xinhua News, se registrassem como agentes estrangeiras, após um relatório da Comissão de Análise de Segurança e Economia nas Relações entre Estados Unidos e China apontar que estariam envolvidas na coleta de informações para a ditadura chinesa.

Embora a Xinhua News negue que suas equipes realizem serviços de inteligência, um relato do jornalista canadense Mark Bourrie, que trabalhou durante dois anos em um escritório da agência no Canadá, indicou que não é bem assim.

Ele afirmou que em 2012, durante uma visita do Dalai Lama ao país norte-americano, seu chefe pediu uma transcrição da entrevista coletiva do líder espiritual budista e que “usasse todas as fontes de que dispunha” no governo canadense para descobrir o que havia sido discutido numa reunião privada com o então primeiro-ministro Stephen Harper. Entretanto, o material não seria usado em nenhuma reportagem porque a Xinhua News não publicava notícias sobre “separatistas” tibetanos, teria dito o chefe.

Sentindo-se um “espião”, Bourrie pediu demissão. “Em muitos aspectos, a Xinhua é como o resto da China moderna: na maioria das vezes, ela pode funcionar com o verniz de profissionalismo e honestidade. Mas quando se trata de questões de dissidência ou qualquer ameaça real ou suspeita ao regime comunista, a máscara cai”, escreveu o jornalista, num artigo publicado na Ottawa Magazine.

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“As necessidades dos governantes da China sempre vão superar os relacionamentos no exterior. O jornalismo canadense, especialmente o jornalismo político, já está nas cordas. A última coisa de que precisa são ‘repórteres’ que trabalhem como agentes de inteligência para Pequim”, acrescentou Bourrie.

Parcerias no Brasil e outros países

Além das equipes próprias, a Xinhua News assina contratos com empresas de mídia de outros países para troca de conteúdos. Na semana passada, a TV Cultura deu início a uma parceria para “ter acesso aos conteúdos noticiosos daquele que é o principal parceiro comercial do Brasil, ou seja, a China, através da agência Xinhua”, informou a emissora paulista em nota.

A Cultura informou que possui parcerias semelhantes com outras emissoras públicas estrangeiras e que o compromisso com a Xinhua News não envolve recursos financeiros. A Band e a EBC fecharam contratos nos mesmos moldes com o também estatal China Media Group em 2019.

No ano retrasado, ao responder a um questionamento do Congresso americano sobre sua parceria com a Xinhua News, a Associated Press, uma das maiores agências de notícias do mundo, informou que o acordo permite que a AP use até cinco fotos e textos da Xinhua por dia e vice-versa, mas, na prática, utiliza poucas fotos e não publica nenhuma das matérias da agência chinesa – quando utiliza informações da Xinhua, é por meio de citações e após verificar sua veracidade.

A AP argumentou que a parceria não interfere na sua “independência editorial” e que sua relação “comercial com a Xinhua é completamente separada e protegida de sua cobertura jornalística da China”.

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