uigur
Manifestação de uigures contra a China, em Istambul, Turquia, em 26 de fevereiro de 2021| Foto: Yasin AKGUL/AFP

Os programas de transferência de mão-de-obra em massa na China, assim como os campos de “reeducação”, estão diluindo a cultura das minorias étnicas, em especial dos muçulmanos uigures que vivem na província de Xinjiang. É uma estratégia muito mais sutil do que os campos de internação, mas que acaba tendo o efeito de "assimilar e influenciar” os uigures, provocando uma “transformação de seu pensamento”, bem como uma “redução da densidade populacional uigur” em Xinjiang, segundo um estudo independente realizado em 2018 para autoridades chinesas.

Estes programas de transferências laborais estão inseridos dentro de uma série de ações do regime comunista chinês para acabar com a extrema pobreza no país – algo que Xi Jinping disse que foi alcançado no ano passado. Os índices são especialmente ruins em zonas rurais e, em Xinjiang, grande parte da população uigur tem na atividade rural o seu sustento. Por isso, a proposta se resume em contatar possível mão-de-obra uigur, treiná-la – para desenvolver a habilidade necessária para o trabalho e promover uma transformação pessoal – e enviá-la para as empresas que necessitam de pessoal e fazem parte do programa.

Até aí pode parecer uma política válida e justificável. O regime chinês insiste que o programa de transferências de mão-de-obra em massa é totalmente voluntário. Contudo, há indícios de coerção ao longo do processo. Começando pela abordagem dos funcionários chineses que visitam as vilas uigures para recrutar trabalhadores.

Uma reportagem de uma TV estatal – reproduzida em 2017, mas que só foi traduzida para inglês nesta semana, pela BBC – mostra como esse recrutamento funciona. Primeiro, uma equipe de funcionários chineses chega a uma vila uigur e monta um acampamento com um banner anunciando oportunidades de treinamento e emprego. Eles ficam lá por dois dias, segundo a narração, mas ninguém se interessa. Então eles partem para uma estratégia mais ativa: visitar as famílias uigures.

A reportagem mostra os funcionários chineses, dentro de uma casa, tentando convencer uma jovem de 19 anos a aceitar o emprego e o pai dela, relutante, a permitir. “"Deve haver mais alguém que gostaria de ir", diz o pai. "Podemos ganhar a vida aqui, vamos viver uma vida como essa". Eles tentam convencer a filha, dizendo que, se ela não for, em breve estará casada e não poderá mais deixar o lugar. Ela diz que não vai participar do programa de transferência laboral, mas continua sendo pressionada. Em determinado momento, ela chora. Depois acaba cedendo e diz que vai se outras também forem. A reportagem, então, termina com a jovem e outras recrutadas para o trabalho se despedindo de suas famílias e embarcando em um ônibus do governo, com destino a um trabalho bem longe da vila.

"O governo chinês diz continuamente que as pessoas estão se voluntariando para participar desses programas, mas isso [a reportagem da TV estatal] revela com certeza que se trata de um sistema de coerção ao qual as pessoas não têm permissão para resistir”, disse à BBC a professora Laura Murphy, especialista em direitos humanos e escravidão contemporânea na Sheffield Hallam University do Reino Unido, que morou em Xinjiang entre 2004 e 2005. Ela também afirmou que a reportagem mostra a intenção de separar famílias, dispersar a população, mudar sua língua, sua cultura, suas estruturas familiares, o que, para ela, tem mais probabilidade de aumentar a pobreza do que diminuí-la.

O estudo citado no início deste texto foi conduzido por um grupo de acadêmicos da Universidade de Nankai, na cidade chinesa de Tianjin, com base em pesquisa de campo realizada na Prefeitura de Hotan, em Xinjiang, em maio de 2018. Ele foi entregue a membros relevantes do governo chinês ligados às estratégias de alívio da pobreza em novembro do mesmo ano. De acordo com a BBC, o documento ficou disponível uma página da universidade na internet por alguns meses entre fim de 2019 e início de 2020, sendo posteriormente retirado. Apesar disso, o relatório em chinês ainda pode ser acessado nos arquivos da internet.

Além de terem escrito que as transferências em massa de mão-de-obra são “um método importante para influenciar, fundir e assimilar as minorias uigur”, os autores relatam que os uigures passam por “educação do pensamento político”, são transportados em grupos para fábricas e conduzidos por gerentes políticos para questão de segurança e ordem. Os autores também relatam também a rejeição aos uigures, que muitas vezes são recusados pelos empregadores. “...Os departamentos de segurança pública nas regiões importadoras de mão-de-obra das províncias e regiões orientais quase sempre se recusam a aceitar várias formas de mão-de-obra de Xinjiang, alegando que podem afetar a segurança e a estabilidade locais”, destaca o relatório.

“O departamento de segurança pública costuma visitar as empresas para inspeções, inquéritos e investigações por diversos motivos, impossibilitando-as de trabalhar normalmente”, diz outro trecho do documento, concluindo que essas práticas não são boas para o programa e que nem todo uigur deve ser considerado perigoso.

“Eles não podem ser impedidos de entrar nas províncias e regiões desenvolvidas na parte oriental de Xinjiang de uma forma organizada, como também devem ser feitos esforços para os orientar para a integração nas regiões mais desenvolvidas do leste e centro da China... Gradualmente eles vão mudar seu pensamento e compreensão, e transformar seus valores e perspectivas de vida”.

A China informou à BBC que “o relatório reflete apenas a visão pessoal do autor e muito de seu conteúdo não está de acordo com os fatos".

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