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Se eleito presidente dos EUA, o candidato democrata Joe Biden deve fazer mudanças nas relações com países da Europa
Se eleito presidente dos EUA, o candidato democrata Joe Biden deve fazer mudanças nas relações com países da Europa| Foto: JIM WATSON / AFP

A Europa aguardava ansiosa o resultado das eleições americanas. Com a vitória do candidato democrata Joe Biden, a política externa americana deve passar da postura de "America First" de Donald Trump para uma agenda de maior cooperação multilateral e ações com aliados europeus.

Cumprindo suas promessas de campanha relacionadas à política externa, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris sobre o clima, do acordo nuclear com o Irã, renegociou o Nafta, reconheceu Jerusalém como capital de Israel e pressionou a China em relação ao comércio. O governo Trump também impôs tarifas à importação de bens europeus.

A postura do governo de Biden e Kamala Harris sobre as relações transatlânticas deve contrastar com as políticas de Trump. Em artigo publicado no início do ano na Foreign Affairs, Biden afirmou que colocaria os EUA "de volta ao lugar principal da mesa, em posição de trabalhar com seus aliados e parceiros para mobilizar ações coletivas frente a ameaças globais". Ele argumentou ainda que trabalhar de forma cooperativa com nações que compartilham valores e objetivos "não faz dos EUA um tolo. Isso nos torna mais seguros e bem sucedidos".

Os aliados europeus de Washington esperam que o governo Biden retome acordos multilaterais, como o Acordo de Paris sobre o clima e o acordo nuclear com o Irã, e a participação americana em fóruns internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Conselho de Direitos Humanos.

Trump anunciou em julho sua decisão de deixar a OMS, acusando a organização de ser um fantoche da China e de fracassar no combate à pandemia de coronavírus. Biden reagiu: "No meu primeiro dia como presidente, eu irei voltar à OMS e restaurar nossa liderança no cenário mundial".

Aliados da Otan

Os europeus esperam também de Biden relações mais amigáveis entre EUA e seus aliados tradicionais no continente, após tensões durante o governo Trump. A relação com a Alemanha foi talvez a mais estremecida; Berlim foi alvo constante de críticas de Trump por gastar menos em defesa do que as metas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Como consequência concreta disso, o líder americano anunciou em julho o plano de retirar 12 mil soldados americanos de bases da Alemanha, cerca de um terço do contingente total posicionado no país. Biden deve rever essa decisão, disse um assessor de política externa do candidato à Reuters em julho.

"Sob o governo do presidente Trump, o Atlântico ficou mais vasto", disse o ministro de Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, em uma ocasião em que defendeu a "Europa unida" como resposta ao "America First".

Biden já criticou o tratamento dado a Trump a seus aliados e prometeu fortalecer a Otan, alertando que a organização de defesa mútua irá "desaparecer" caso Trump seja reeleito.

Mas a pressão por maiores investimentos em defesa pelos aliados da Otan deve continuar, já que esse é um ponto de consenso entre os dois partidos americanos – embora Trump tenha cobrado os aliados de forma menos sutil do que presidentes anteriores.

Acordo nuclear com o Irã

Em 2018, Trump deixou o acordo nuclear internacional com o Irã, assinado durante o governo Obama em 2015, por considerá-lo ineficaz, e prometeu buscar um acordo que ofereça uma solução mais durável para impedir que o Irã desenvolva armas nucleares. Os aliados europeus de Washington – Reino Unido, França e Alemanha – permanecem no acordo, que oferece alívio de sanções em troca de limites em operações de enriquecimento de urânio pelo Irã.

Na Casa Branca, Biden deve retomar o pacto, com algumas condições. "Teerã deve voltar a cumprir estritamente o acordo. Se assim for, eu voltaria a aderir ao acordo e usaria nosso compromisso renovado com a diplomacia para trabalhar com nossos aliados para fortalecê-lo e estendê-lo, ao mesmo tempo que voltaria a lutar contra as atividades desestabilizadoras do Irã", afirmou o democrata em seu artigo na Foreign Affairs.

Um retorno de Biden ao acordo tem o potencial de desgastar as relações entre EUA e Israel, que se opõe ao pacto por considerar que ele não tem a capacidade de frear as ambições nucleares do Irã, além de Arábia Saudita e outros adversários do país persa na região.

Acordo de Paris

Os EUA assinaram o acordo de Paris em 2016, durante o governo Obama, e se comprometeram em reduzir as emissões de gases do efeito estufa para contribuir com o objetivo do tratado, que é manter o aumento das temperaturas globais médias abaixo de 2°C. O governo Trump avisou formalmente que se retiraria dos compromissos do acordo em novembro de 2019. Como prazo de um ano exigido para a retirada, os EUA deixaram o tratado de fato em 4 de novembro de 2020, um dia após as eleições.

"Eu voltarei a aderir ao Acordo de Paris sobre o clima no primeiro dia do governo Biden", prometeu o democrata, que também defende a transição para uma economia de energia 100% limpa com balanço zero de emissões até 2050.

Biden vai precisar dos aliados europeus para lidar com o desafio de uma China cada vez mais ambiciosa e agressiva. Trump tem uma postura dura com o país asiático, que ele acusa de práticas abusivas de comércio, roubo de propriedade intelectual e de permitir que o coronavírus ganhasse o mundo.

Analistas dizem que tanto democratas quanto republicanos veem Pequim como uma ameaça a ser combatida. A diferença estaria, mais uma vez, na abordagem de Biden e Trump: enquanto o atual presidente preferiu medidas unilaterais para combater as práticas chinesas, Biden indicou em sua campanha que trabalharia mais de perto com a comunidade internacional, construindo "uma frente unida de amigos e parceiros para desafiar o comportamento abusivo da China". Críticos dizem, no entanto, que Biden nada fez para coibir o avanço militar e econômico da China nos dois mandatos em que foi vice-presidente.

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