Santa Cruz de la Sierra Quem chega a Santa Cruz de la Sierra não tem dúvidas de que a principal contribuição brasileira para o desenvolvimento do país está na agricultura. Os produtores rurais começaram a chegar antes mesmo da Petrobrás, que está na Bolívia há dez anos. A gigante petroleira da América Latina aportou no país após a privatização dos chamados hidrocarbonetos, em 1994, pelo então presidente Sanches de Lozada, que na época também repassou à iniciativa privada o sistema de telefonia, ferrovia, empresa área e a previdência.
A presença dos brasileiros começou a se intensificar no início da década de 90. Produtores sozinhos o organizados em cooperativas ou condomínios de agricultores chegavam de várias regiões do Brasil, em especial dos estados do Sul e Centro-Oeste. Atraídos pelo baixo custo da terra, eles foram se multiplicando e hoje são pelo menos cem, responsáveis por 40% da produção de 1,57 milhão de toneladas de soja 20032004, produto que ocupa o segundo lugar na pauta de exportações.
Na Bolívia, compra-se um hectare de terra a partir de US$ 300. Em áreas melhor localizadas, onde o solo já foi trabalhado e está pronto para ser cultivado, a cotação fica entre US$ 900 e US$ 1.200, segundo informações de brasileiros com terras em províncias de Santa Cruz. No Brasil, o custo é até quatro vezes maior, levando em consideração particularidades como localização e qualidade do solo. No Paraná, o hectare parte de um preço médio de US$ 3 mil e pode atingir US$ 5 mil.
Os brasileiros representam quase metade da produção de soja por estarem entre os maiores produtores. Nilson Medina, de Londrina, no Paraná, é um dos maiores sojicultores individuais da Bolívia. Ele cultiva perto de 7 mil hectares e ainda mantém uma das maiores sementeiras do país. Medina é conhecido como uma pessoa influente e ativa na sociedade civil e econômica boliviana. Como liderança do setor, mantém relações com políticos que estão no poder.
Mas a grande maioria dos agricultores são pessoas comuns, que muitas vezes não querem nem se identificar, temendo algum tipo de represália. É o caso de um produtor que depois de viver em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso está há 13 anos em Santa Cruz. Ele conta que tem duas propriedades, que somam 2,5 mil hectares e que toda a família está na Bolívia, onde "nunca enfrentaram nenhum problema, ao contrário, sempre foram muito bem tratados". Contudo, a discussão da reforma agrária proposta pelo presidente, Evo Morales, preocupa o agricultor, que não quis se identificar por entender que, neste momento, "politicamente não convém".
Mas também é certo que existem agricultores brasileiros em terras ilegais, como na região de fronteira ou então em áreas de proteção ambiental. A legislação não permite que estrangeiros se estabeleçam numa faixa de 50 quilômetros da fronteira. Esses produtores certamente serão atingidos pelo recenseamento das terras bolivianas. O governo boliviano está desenvolvendo uma campanha para que os próprios empresários e agricultores bolivianos denunciem essas irregularidades.
Carlos Rojas, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Oleaginosas e Trigo (Anapo) defende a presença dos brasileiros, mas admite que uma pequena parcela vai enfrentar problemas. Não por manterem latifúndios improdutivos que estariam nas mãos de bolivianos mas por estarem em área irregulares. De acordo com Rojas, o governo promete e a Anapo vai trabalhar para que sejam respeitadas as terras produtivas, sem distinção de nacionalidade dos agricultores.



