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O ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif e seu homólogo chinês Wang Yi, assinam um acordo na capital Teerã, em 27 de março de 2021.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif e seu homólogo chinês Wang Yi, assinam um acordo na capital Teerã, em 27 de março de 2021.| Foto: AFP

Em 27 de março, em uma cerimônia em Teerã, os chanceleres do Irã e da China assinaram um acordo para que a China invista US$ 400 bilhões no Irã ao longo de 25 anos. O New York Times noticiou o acordo com a manchete "China, com acordo de US$ 400 bilhões com o Irã, pode aprofundar sua influência no Oriente Médio" e acrescentou na matéria:

O Irã não divulgou os detalhes do acordo antes da assinatura, nem o governo chinês deu detalhes. Mas os especialistas disseram que ele não sofreu nenhuma alteração em relação a um rascunho de 18 páginas obtido no ano passado pelo The New York Times.

Esse esboço detalhou US$ 400 bilhões de investimentos chineses a serem feitos em dezenas de campos, incluindo bancos, telecomunicações, portos, ferrovias, saúde e tecnologia da informação, nos próximos 25 anos. Em troca, a China receberia um fornecimento regular - e, de acordo com um funcionário iraniano e um comerciante de petróleo, com grandes descontos - de petróleo iraniano.

Estou em dúvida. Em primeiro lugar, este negócio foi proposto há cinco anos, em 2016, quando Xi Jinping visitou o Irã. É muito tempo até a assinatura - e os termos do acordo ainda não foram divulgados. Por que não? A teoria é que o Irã venderá petróleo para a China com grande desconto - grande o suficiente para gerar resistência e protestos no Irã caso se torne conhecido. Quanto isso vai se materializar, transformando o texto em comércio real, ainda está para ser visto.

Considere os números também. De acordo com o Banco Mundial, o total de investimento estrangeiro direto (IED) no Irã, somadas todas as fontes, atingiu um máximo de US$ 5 bilhões em 2017, mas em 2019 havia caído para US$ 1,5 bilhão. Em 2020, parece ter caído ainda mais, cerca de US$ 1 bilhão. Este acordo com a China (US$ 400 bilhões em 25 anos) exige US$ 16 bilhões por ano somente da China. Isso parece realista para o Irã, um país que nunca absorveu mais de US$ 5 bilhões do mundo inteiro em um único ano em IED ?

Também há boas razões para questionar a ideia de que a China aumentará significativamente sua dependência do Irã em petróleo: a China gostaria de contar com uma única fonte do Oriente Médio em vez de diversificar seus suprimentos?

Existem outras maneiras de avaliar quão real pode ser a cifra de US$ 400 bilhões. De acordo com o China Global Investment Tracker produzido pelo American Enterprise Institute e pela Heritage Foundation, nos 15 anos entre 2004 e 2019, a China investiu um total de US$ 182 bilhões nos Estados Unidos, ou uma média de US$ 12 bilhões por ano; US$ 98 bilhões na Austrália, ou US$ 6,5 bilhões por ano; e US$ 83 bilhões no Reino Unido, ou US$ 5,5 bilhões por ano.

Os números são menores para países como Brasil, Canadá, Alemanha e Suíça. Quão realista é, então, que a China invista mais anualmente no Irã do que investe - ou já fez - em qualquer outro país do mundo?

Isso não quer dizer que um grande acordo econômico entre o Irã e a China não tenha significado. É preciso presumir que o Irã venderá cada vez mais petróleo para a China, desafiando e minando as sanções dos EUA. E deve-se supor também que a China aumentará seus investimentos no Irã, em diversos setores da economia.

Entre outros efeitos prejudiciais, devemos considerar como isso vai afetar a predisposição da China para disciplinar o Irã na Agência Internacional de Energia Atômica por suas contínuas violações do Plano de Ação Conjunto Global, do Protocolo Adicional e do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares - violações que aproximam o Irã de ser capaz de criar uma arma nuclear funcional.

Finalmente, deve-se questionar a finalidade do negócio sobre as perspectivas de o Irã vender petróleo “com grandes descontos” para a China, como é sugerido no relatório do New York Times. O regime dos aiatolás afirma que o Irã busca independência e autodeterminação, comparando sua firmeza neste assunto com a suposta fraqueza do Xá.

Mas suponha que esse acordo com a China venha a ser verdade. Então o Irã estaria vendendo petróleo barato para a China, e a China estaria comprando o país inteiro. Lembre-se: o valor máximo já investido no Irã em um ano foi de US$ 5 bilhões e, segundo esse suposto acordo, só a China estaria investindo três vezes esse valor anualmente durante 25 anos.

Ao final desse período, o Irã seria uma subsidiária integral da China, basicamente um posto de gasolina para a República Popular.

O ceticismo em relação a todos os números é justo. E para os iranianos, a informação sobre o que foi acordado deve ser o objetivo principal. Ou os valores são ridículos e, em grande parte, propaganda destinada a impulsionar os regimes chinês e iraniano. Ou, se os valores forem precisos, o regime, sofrendo com as sanções dos EUA, está vendendo o país para a China.

Elliott Abrams é pesquisador sênior de Estudos do Oriente Médio no Conselho de Relações Exteriores e ex-assessor adjunto de segurança nacional.

© 2021 National Review. Todos os direitos reservados. Original em inglês.
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