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Potência petrolífera em ascensão

O vizinho do Brasil que vê suas receitas crescerem com a guerra no Irã

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Bandeiras da Guiana durante ato em 2025. (Foto: Nazima Raghubir/EFE/EPA)

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O governo da Guiana arrecadou US$ 761 milhões (R$ 3,7 bilhões) em receitas petrolíferas no primeiro trimestre deste ano, o maior valor trimestral já registrado desde que o país começou a produzir petróleo para fins comerciais, segundo dados do Ministério das Finanças da Guiana. O valor, que representa a fatia que chega diretamente aos cofres do Estado, foi alavancado, em parte, pelo aumento de preços do petróleo em decorrência da guerra no Irã.

O vizinho do Brasil viu sua receita semanal de venda de petróleo saltar de US$ 370 milhões (R$ 1,8 bilhão, na cotação mais recente) para US$ 623 milhões (R$ 3 bilhões) desde o início do conflito – um aumento de 68%, segundo dados revelados pela revista britânica The Economist.

O ganho inesperado da pequena nação, com menos de um milhão de habitantes, tem origem a mais de 10 mil quilômetros de distância: o impasse sobre o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o mercado global de energia.

Em retaliação aos ataques americanos e israelenses iniciados em 28 de fevereiro, o Irã restringiu a passagem pelo estreito, por onde trafega cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. O resultado foi o aumento abrupto do preço do barril de petróleo. O tipo Brent – referência de preço mundial – saltou de US$ 72 (R$ 358) antes da guerra para mais de US$ 125 (R$ 621) em seu pico nesta semana, a maior alta desde 2022, quando chegou a US$ 122 (R$ 606).

Atualmente, Ormuz está bloqueado tanto pelo Irã quanto pelos EUA, que vivem um impasse nas negociações para encerrar o conflito em curso no Oriente Médio.

A disparada do preço do barril no mercado internacional aumentou significativamente a rentabilidade de cada carregamento de petróleo da Guiana. Junto a este aumento, o país também tem sido beneficiado pelo mercado europeu, cujas refinarias estão pagando prêmios elevados pelo fornecimento estável do petróleo guianense – o que, somado à alta do barril provocada pela guerra no Irã, faz o lucro do país superar em cerca de 90% o que estava previsto antes do conflito no Oriente Médio, segundo apuração da revista britânica.

A relação entre a Europa e o petróleo guianense já vinha se aprofundando antes do início desta guerra. Já em 2024, 66% de todo o petróleo exportado pela Guiana foi para refinarias do continente europeu – percentual que chegou a 75% em janeiro deste ano, segundo dados revelados pelo portal guianense especializado OilNOW.

O movimento dos europeus em direção à Guiana foi impulsionado pela busca por alternativas após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, que os levou a impor diversas sanções ao petróleo russo.

Para não sofrerem com a perda do petróleo de Moscou, o continente passou a diversificar nos últimos anos suas fontes: em 2025, Estados Unidos, Noruega e Cazaquistão já eram os três maiores fornecedores de petróleo da União Europeia, segundo o Parlamento Europeu. O petróleo do Golfo Pérsico, por sua vez, estava respondendo por cerca de 7% das importações do continente.

Contudo, com a guerra no Irã, esse fornecimento ficou em xeque, o que aumentou a pressão dos europeus por mais alternativas. Diante desse cenário, a Guiana surgiu como o fornecedor que reúne as condições mais convenientes para os europeus: produz um petróleo de fácil refino, adequado ao mercado do continente, e extraído em áreas marítimas afastadas de zonas de conflito.

Para Marco Aurelio da Silva, consultor em negócios internacionais, mestre em administração e professor do Centro Universitário da Serra Gaúcha, o “boom” guianense não é apenas um efeito passageiro desta guerra.

"Embora o conflito no Irã e o fechamento parcial de Ormuz tenham inflado os preços, o salto da Guiana é predominantemente estrutural. O país não está apenas aproveitando preços altos; ele está entregando um dos petróleos de menor custo de extração e menor intensidade de carbono do mundo", afirma.

"O mercado global está em uma fase de 'voo para a qualidade', onde a segurança política e a eficiência ambiental contam tanto quanto o volume. A Guiana preenche esse vácuo permanentemente”, completou.

Segundo o analista, a guerra no Irã evidenciou que a segurança energética do Ocidente depende da pulverização de fornecedores - e que países pequenos exportadores de petróleo, como a Guiana, se tornam "portos seguros" geográficos nesse cenário. Enquanto o Estreito de Ormuz é um gargalo físico e político, explicou Marco Aurélio, a bacia da Guiana oferece saída livre para o Atlântico, conectando-se facilmente aos EUA e à Europa.

Guerra também expôs problema estrutural da Guiana

Mesmo já sendo um dos maiores produtores de petróleo da América do Sul, a Guiana ainda não possui refinarias próprias para transformar seu petróleo bruto em derivados como gasolina e diesel.

Atualmente, toda a produção extraída do Bloco Stabroek é exportada in natura, e o país importa de volta os combustíveis que consome, principalmente dos EUA, o que o deixa exposto à mesma alta de preços que beneficia suas exportações.

O problema da importação ficou exposto no começo de abril: no dia 13 daquele mês, a Guiana enfrentou uma escassez temporária de combustível causada por atrasos no envio internacional. Na ocasião, o premiê Irfaan Ali precisou divulgar o cronograma de chegada dos próximos navios com carregamento de combustível e pedir à população que não estocasse combustível.

Posteriormente, Ali reiterou em reunião da Câmara de Comércio de Georgetown que o país deve retomar conversas sobre o desenvolvimento de refinarias locais.

A discussão sobre a construção de uma refinaria local já estava sendo debatida desde o início da guerra no Irã, mas ainda não há um projeto definitivo para a construção de uma em território guianense.

Uma potência petrolífera em ascensão

A produção de petróleo da Guiana, que era inexistente até 2019, atingiu uma média de 716 mil barris por dia em 2025 e ultrapassou 900 mil barris diários em fevereiro deste ano, fazendo do pequeno país o terceiro maior produtor de petróleo da América do Sul, atrás apenas do Brasil e da Venezuela, segundo dados compilados pela agência Bloomberg.

Toda essa produção vem de um único lugar: o chamado Bloco Stabroek, área de exploração de petróleo em alto-mar localizada a cerca de 200 quilômetros da costa guianense, atualmente operado por um consórcio liderado pela americana ExxonMobil, com a participação da também americana Chevron e da estatal chinesa China National Offshore Oil Corporation (CNOOC).

As grandes receitas da exploração de petróleo estão ajudando a transformar rapidamente a economia da Guiana. O Produto Interno Bruto (PIB) real do país está crescendo, em média, 47% ao ano desde 2022, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), que projeta ainda uma expansão econômica do país de 16,2% para este ano.

O Banco Mundial vai na mesma direção: em seu relatório de abril sobre a América Latina e o Caribe, a entidade aponta crescimento de 16,3% para a Guiana neste ano – o maior da região – e de 23,5% em 2027.

"Cinco anos atrás, a Guiana tinha uma das rendas per capita mais baixas do hemisfério. Hoje, quando vejo o país, ele é completamente diferente. Só consigo imaginar como será daqui a cinco ou dez anos", disse Lilia Burunciuc, diretora do Banco Mundial para o Caribe, durante visita recente ao país.

E o ganho atual ainda é só uma fração do que está por vir. Com a alta do preço do petróleo provocada pelo impasse no Estreito de Ormuz, o governo da Guiana está perto de ampliar de forma expressiva sua parcela na renda gerada pelos campos petrolíferos.

Isso ocorre por causa do contrato assinado em 2016, quando o país ainda não produzia petróleo e precisou oferecer condições atrativas para atrair empresas como a ExxonMobil. Pelo acordo da época, o consórcio explorador teria prioridade para recuperar os bilhões de dólares investidos no início da operação, que contou com a perfuração de poços, construção de plataformas e estrutura de produção.

Por esse contrato, a Guiana recebe hoje cerca de 14,5% do valor de cada barril produzido, enquanto a maior parte do restante ainda é usada para compensar os gastos iniciais das empresas. Com o petróleo sendo vendido mais caro, porém, esses custos estão sendo recuperados mais rapidamente. Quando essa etapa terminar, menos dinheiro irá para o consórcio e mais receita ficará com o governo guianense. Na prática, a participação do país nos ganhos do petróleo pode mais do que triplicar, chegando a perto de 50%.

A meta do consórcio liderado pela ExxonMobil agora é levar a produção de petróleo da Guiana a 1,7 milhão de barris por dia até 2030. Em março, a empresa anunciou planos para um oitavo projeto de produção no Bloco Stabroek, o primeiro voltado à exploração de gás natural, e prepara o desenvolvimento de novos campos para os próximos anos.

“Em termos de volume exportável per capita, a Guiana já é uma potência. No entanto, ela ainda é uma ‘potência em construção’ no que diz respeito à maturidade institucional. A dependência de fatores externos é alta, especialmente do consórcio liderado pela ExxonMobil. Para se consolidar, o país precisa converter a renda petrolífera em infraestrutura diversificada e fortalecer sua soberania diante das pressões territoriais da Venezuela”, disse Marco Aurélio.

Apesar da projeção de crescimento econômico devido ao "boom" do petróleo, a Guiana ainda convive com problemas que a riqueza da commodity ainda não resolveu. Embora seja atualmente uma das economias que mais crescem na região, o país ainda possui um alto índice de pobreza: 58% da população vive abaixo da linha da pobreza, segundo relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Mercado que vai além da Europa

Além da Europa, os Estados Unidos consomem entre 20% e 30% das exportações de petróleo guianenses, segundo a consultoria britânica Argus Media. O restante se divide entre América Central, Caribe e, mais recentemente, Ásia.

Dois países têm papel estratégico na distribuição deste petróleo: Holanda e Panamá. Nos cinco primeiros meses de 2025, quase metade dos embarques guianenses seguiu diretamente para esses destinos – 20 dos 93 navios enviados foram para a Holanda e outros 20 para o Panamá, segundo dados compilados a partir da Administração Marítima da Guiana e de plataformas de rastreamento marítimo.

Os portos holandeses funcionam como porta de entrada para o petróleo bruto destinado a refinarias do norte da Europa. Já o Panamá opera como centro logístico de redistribuição: parte do petróleo recebido segue depois para a costa oeste dos Estados Unidos e para mercados asiáticos por meio do Canal do Panamá.

O avanço do petróleo da Guiana também está ocorrendo na Ásia. Em 2024, nenhum carregamento guianense teve esse destino. Já em 2025, foram 24 navios, sendo 13 apenas no segundo semestre, segundo a empresa de inteligência marítima Vortexa.

A Guiana entre os EUA e a China

A presença simultânea de empresas americanas e da estatal chinesa CNOOC nos campos da Guiana coloca o pequeno país sul-americano no centro de uma das principais disputas geopolíticas deste século.

Para o analista Marco Aurélio da Silva, esse arranjo funciona como uma espécie de blindagem para os guianenses. "A Guiana já é um microcosmo da geopolítica do século 21. A coexistência da ExxonMobil e da CNOOC no Bloco Stabroek é uma forma de o governo guianense buscar um 'seguro de vida': ao ter as duas superpotências como sócias em sua riqueza, ele desestimula agressões externas", avalia.

As pressões externas são reais: a Guiana enfrenta há anos a contestação territorial da Venezuela sobre a região do Essequibo, que abriga parte das reservas de petróleo do país. Em janeiro deste ano, com a captura do ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, parte da cobiça venezuelana sobre o território guianense arrefeceu, mas o país segue em alerta.

Lições para o Brasil

Segundo Marco Aurélio da Silva, a Guiana tem hoje o que falta ao Brasil: agilidade regulatória e previsibilidade. "A Guiana conseguiu passar de zero a quase 1 milhão de barris/dia em tempo recorde devido a um modelo de contrato focado em acelerar o desenvolvimento. O Brasil, com uma burocracia mais densa e debates ambientais travados, corre o risco de ver sua produção estagnar na próxima década enquanto o vizinho atrai os investimentos que poderiam vir para cá", afirma.

O Brasil, segundo o analista, também poderia estar vivendo um boom semelhante ao da Guiana se já estivesse mais avançado na exploração da Margem Equatorial – região que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte e que tem características geológicas semelhantes às da bacia guianense.

“O sucesso da Guiana é o maior argumento geológico para a exploração da Margem Equatorial brasileira, visto que as bacias são espelhadas. O modelo guianense destaca que o custo de oportunidade de ‘não explorar’ [a região] é altíssimo. Enquanto o Brasil discute licenças ambientais para um único poço, a Guiana já mapeou e colocou em produção dezenas, revertendo essa riqueza em um Fundo Soberano que já dita o ritmo do crescimento do seu PIB”, disse Marco Aurélio.

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