O Irã está testemunhando atualmente as manifestações mais sérias desde 2009, provocadas por insatisfação econômica generalizada| Foto: NIMA NAJAFZADEH/ AFP

Os líderes iranianos parecem estar tendo muitos sucessos no Oriente Médio. Eles ajudaram a proteger o regime do presidente sírio Bashar Assad. O Hezbollah possui controle sobre o Líbano. As milícias xiitas no Iraque marcham em seu ritmo e possuem vantagens contra o governo de Bagdá. Armas fornecidas pelo Irã, incluindo mísseis, estão servindo como um jeito fácil dos Houthis no Iêmen derrotarem os sauditas. Qassem Suleimani, líder das Forças Quds do Irã, uma força expedicionária do Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), está nas linhas de frente do mundo Árabe, dando a impressão de que o Irã e seus aliados não podem ser derrotados. 

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A imagem do Irã em marcha é algo que a república islâmica tem buscado vender e explorar. O Supremo Líder Ali Khamenei falou do Líbano, Síria e Iraque como sendo partes da futura defesa do Irã. Seu conselheiro, Ali Akbar Velayati, em visita ao Líbano, em novembro, declarou que o país - juntamente da Palestina, Síria e Iraque – seria parte da zona de resistência liderada pelo Irã. 

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Mas há um custo para o expansionismo iraniano, e agora ele está sendo percebido. 

Cidadãos iranianos estão protestando pelo país em grandes e pequenas cidades. Os protestos começaram no dia 28 de dezembro em Mashhad, a segunda maior cidade do Irã, e se espalharam pelo país até chegarem em Qazvin, Karaj, Dorud, Qom e Teerã. Aparentemente, não é apenas a classe média que está indo às ruas, mas as classes mais modestas também. Cartazes criticando o governo são vistos em todos os lados, e alguns manifestante até já prometeram morte ao ditador, se referindo a Khamenei. Manifestantes também protestaram contra o custo das aventuras do Irã no estrangeiro: Um dos primeiros cantos dos manifestantes era: “Nem Gaza, nem Líbano, minha vida pelo Irã”. 

Queixas econômicas pareciam ter guiado esses protestos inicialmente. Após subsídios em produtos básicos como pão terem sido reduzidos, os preços subiram – afetando fortemente os iranianos menos privilegiados financeiramente. Um grande número de instituições de crédito faliu e muitos cidadãos perderam suas poupanças. Pressões inflacionárias desvalorizaram a moeda iraniana e isso gerou consequências nos salários dos cidadãos. 

É fato que os esperados benefícios econômicos do acordo nuclear ainda não podem ser completamente percebidos, mas isso é apenas parte da resposta para os problemas econômicos do Irã. A economia iraniana tem sido longamente mal gerenciada, e o papel do Exército de Guardiães da Revolução Islâmica, e os grandes fundos religiosos, conhecidos como bonyads, corrompem a economia e podem afetar até metade do PIB do país. 

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Nada disso é suficiente para dizer que a república islâmica está em seu fim – na verdade, muito longe disso. Mas para um regime que se orgulha do controle que possui e sempre recorda sobre as razões que derrubaram o xá Mohammad Reza Pahlavi, a imagem dos manifestantes enchendo as ruas não deve ser muito boa. Alguns manifestantes estão ainda pedindo por um referendo – um eco do referendo que o novo regime realizou dois meses depois da revolução de 1979 para dar legitimidade a si mesmo. 

O regime nunca se envergonhou de usar força e coerção para se preservar. Dois dos candidatos presidenciais na eleição de 2009, Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi – um ex-primeiro-ministro e um antigo presidente do parlamento, respectivamente – permanecem em prisão domiciliária por terem questionado os resultados e prováveis votos fraudados. O regime pode ter balançado com os protestos em 2009, mas através de prisões, brutalidade e esforços para pulverizar a oposição, ele se manteve. 

Não há dúvida de que uma das razões pela qual Khamenei permitiu que Hassan Rouhani vencesse as eleições presidenciais em 2013 e completasse o acordo nuclear foi o seu entendimento de que a repressão de 2009, e a subsequente recessão econômica, haviam erodido a legitimidade de seu regime. Era importante restaurar a ideia de que um senso de mudança era possível, e quando o público iraniano tem a chance de expressar suas visões, ele geralmente vota por liberalizar a sociedade em casa e normalizar as relações no exterior. 

Contudo, o Irã está testemunhando agora a manifestações mais sérias desde 2009. A onda de protestos não foi provocada por resultados eleitorais, mas por reivindicações econômicas e insatisfação generalizada. Mesmo que sejam menores que os protestos de 2009, eles são mais espalhados – e, diferentemente dos anteriores, estão sendo liderados pela população em províncias rurais, que tradicionalmente são a favor do regime. A rede social Telegram, amplamente utilizada no Irã, divulgou as notícias sobre os protestos e os entusiasmou – e, é claro, agora foi cortada pelo regime

Estados Unidos

Então, o que deveriam os Estados Unidos fazer? Em junho de 2009, eu servia na administração do presidente Barack Obama como conselheiro especial da secretária de Estado sobre o Irã, e era parte do processo de tomada de decisões. Como nós temíamos jogar o jogo do regime e dar crédito às suas afirmações de que as manifestações estariam sendo instigadas do exterior, nós adotamos uma postura discreta. 

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Olhando em retrospecto, isso foi um erro. Nós deveríamos ter lançado uma luz no que o regime estava fazendo e mobilizado nossos aliados para fazerem o mesmo; nós deveríamos ter feito o nosso melhor para fornecer notícias de fora e facilitar as comunicações de dentro. Nós poderíamos ter tentado fazer mais para criar alternativas de mídias sociais, tornando difícil para o regime bloquear algumas dessas plataformas. 

Na época, Obama havia capturado a imaginação do mundo. Nós teríamos achando relativamente fácil mobilizar ajuda para os direitos humanos e políticos para população iraniana. Obviamente, o presidente Donald Trump não possui essa reputação internacionalmente e não é visto como defensor dos direitos humanos. 

Ainda assim, a lição que eu tiro de 2009 é que os Estados Unidos não deveriam ficar em silêncio. A administração deveria, de fato, sem propaganda exagerada, prestar atenção aos manifestantes e chamar atenção para as reivindicações econômicas de seus protestos, que são repletos de queixas das aventuras do Irã no Oriente Médio. 

Os manifestantes estão questionando por que o seu dinheiro é gasto no Líbano, na Síria e em Gaza – e a administração deveria revelar as estimativas do que a república islâmica de fato está gastando. Apenas para o Hezbollah, estima-se que o Irã forneça mais de 800 milhões de dólares por ano – e os custos para manter o regime de Assad chegam a muitos bilhões de dólares. 

A União Europeia, e principalmente os franceses e alemães, ficaram em silêncio até o momento. Ela não responderá aos chamados de Trump mas deve ser, contudo, encorajada a se pronunciar pelos direitos humanos daqueles envolvidos em protestos pacíficos e que agora estão enfrentando uma forte repressão do regime. 

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Trump disse querer combater as atividades desestabilizadoras do Irã na região. No entanto, neste ponto, a sua administração fez muito pouco para aumentar os custos para os iranianos por suas ações. Na Síria, o elemento fundamental dos esforços do Irã em expandir sua esfera de controle, a administração não possui uma estratégia anti-Irã. 

Ironicamente, a população iraniana está deixando muito claro que está cheia com os custos das expansões do país na região. Destacar esses custos poderia alimentar ainda mais a insatisfação da população. Quanto mais o regime iraniano acredita que suas aventuras no estrangeiro podem abalar por dentro as suas fundações, mais equilibrado o seu comportamento pode ser.

Tradução de Maíra Santos.
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