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Repressão

Prisão de filho adolescente de pastor expõe drama de cristãos sob regime cubano

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O ditador de Cuba, Miguel Díaz-Canel: cristãos enfrentam perseguição mascarada na ilha (Foto: Adalberto Roque/EFE)

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Jonathan David Muir Burgos, um cristão de apenas 16 anos, é mantido sob custódia pelo regime de Cuba desde março, acusado sem provas de participar de protestos contra o modelo autoritário da ilha.

A prisão do adolescente, cujo pai lidera uma igreja cristã independente em Cuba, expõe uma realidade dura experimentada por cristãos no país, sem distinção de idade.

Burgos está sendo processado por sabotagem e poderá enfrentar acusações adicionais por parte da promotoria militar, segundo disse um investigador policial à família. A ONG Cubalex, que acompanha casos de presos políticos na ilha, denuncia uma série de violações de direitos envolvendo a proteção de menores de idade na Justiça.

As autoridades levaram o adolescente para a prisão de Canaleta, sem o conhecimento de seus pais – algo que é garantido ao investigado pela lei cubana. Posteriormente, o devolveram ao Departamento de Investigação Técnica em Ciego de Ávila devido à falta de condições para a sua permanência no local, o que é visto como um ato de intimidação e pressão psicológica.

O caso contra Jonathan Burgos não é isolado. Segundo a organização de direitos humanos Christian Solidarity Worldwide (CSW, na sigla em inglês), com sede no Reino Unido, sua família vem sofrendo perseguição religiosa há mais de uma década. As ações do regime incluem detenções arbitrárias, atos de vandalismo, restrições ao funcionamento da igreja Tiempo de Cosecha, uma congregação independente fora do sistema religioso reconhecido pelo Estado, e vigilância constante.

Assim como faz o regime chinês, Cuba mantém um sistema de vigilância da atividade religiosa. As igrejas precisam obter aprovação governamental para operar e podem ser alvo de advertências e restrições por parte das autoridades a qualquer momento.

Um relatório de 2023 da ONG Prisoners Defenders aponta que a família foi classificada pela Segurança do Estado cubano como “ideologicamente perigosa” devido às suas crenças cristãs. Essa pressão da ditadura levou a igreja a perder dezenas de membros ao longo dos últimos anos, por medo de represálias. 

Além de Jonathan e seu pai, o pastor Elier Muir Ávila, organizações de direitos humanos denunciaram a prisão de outro ministro religioso por pregar publicamente em Cuba. 

Ronaldo Pérez Lora foi levado por autoridades em Matanzas após transmitir mensagens bíblicas ao vivo em seu canal no YouTube. Ele incentivava cristãos a orarem pacificamente pelo país em meio à crise generalizada.

Regime mascara perseguição religiosa com acusações por outros crimes, aponta especialista

Marco Cruz, secretário-geral da Portas Abertas Brasil e América Latina, explica à Gazeta do Povo que o regime cubano evita prisões explícitas por motivo religioso e enquadra cristãos e líderes eclesiásticos em acusações alternativas.

"As justificativas mais comuns envolvem alegações de desobediência civil, atividades políticas não autorizadas, incitação à desordem ou violação de normas administrativas. O objetivo é manter uma aparência de legalidade, evitando repercussão internacional mais intensa", afirma.

Em Cuba, a perseguição religiosa é essencialmente estatal, ideológica e sistemática, ainda que nem sempre apareça de forma explícita nas leis. "O regime se define como oficialmente laico desde a Constituição de 1992, mas, na prática, continua operando sob uma lógica herdada do comunismo marxista, que vê qualquer forma de organização independente, inclusive a religiosa, como uma ameaça ao controle do Estado", ressalta Cruz.

Do ponto de vista legal, a ditadura cubana utiliza dispositivos amplos e vagos, como leis sobre ordem pública, segurança nacional e uso do espaço urbano, para justificar ações contra cristãos. De acordo com o líder do Portas Abertas, igrejas domésticas podem ser fechadas sob a alegação de irregularidades administrativas, cultos são interrompidos por falta de licença e obras sociais cristãs são limitadas se não estiverem sob supervisão estatal.

Diferentemente da China, onde a perseguição é altamente tecnológica, burocratizada e institucionalizada – com sistemas de reconhecimento facial, créditos sociais e uma estrutura nacional de controle das religiões –, em Cuba, o modelo é menos tecnológico, mais pessoal e arbitrário por ser baseado em vigilância humana, informantes, pressão psicológica e intimidação direta.

"É um controle mais artesanal, porém igualmente eficaz. Em ambos os casos, o problema central é o mesmo: o Estado se coloca como instância máxima de lealdade. Quando a fé cristã afirma que existe uma autoridade acima do governo, isso é visto como inadmissível por regimes totalitários", afirma Cruz.

Desde os grandes protestos de julho de 2021, o regime aumentou drasticamente a perseguição a cristãos na ilha. Alguns dos métodos mais comuns para reprimir ou intimidar religiosos são detenções arbitrárias, proibição de sair do país ou de se deslocar dentro dele, demissões de empregos estatais, discriminação em escolas, multas ou fechamento compulsório de igrejas.

Cuba subiu duas posições na Lista Mundial de Perseguição do Portas Abertas de 2026. O país passou da 26ª posição para a 24ª, o que evidencia esse aumento da perseguição religiosa.

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