O presidente da Rússia, Vladimir Putin, fala em coletiva de imprensa anual em Moscou, 19 de dezembro de 2019| Foto: Alexei Druzhinin / SPUTNIK / AFP
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A interferência russa nas eleições dos Estados Unidos voltou a ganhar as manchetes na semana passada. Informações da inteligência americana dão conta de que o Kremlin estaria agindo para ajudar a campanha de reeleição do presidente Donald Trump e a campanha do pré-candidato democrata Bernie Sanders nas prévias que antecedem as eleições de 3 de novembro. De que maneira, não se sabe.

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A informação foi amplamente contestada por Trump, que classificou a notícia como "farsa" e uma "desinformação" usada pelo establishment democrata, que, segundo ele, quer enfraquecer ele próprio e Sanders, o candidato esquerdista que está dominando a disputa pela nomeação do partido até o momento. Sanders, por sua vez, confirmou que a sua equipe recebeu informações sobre as ações da Rússia há cerca de um mês e condenou as tentativas de Moscou de interferir nas eleições americanas.

Trump

Não está claro por que o presidente russo, Vladimir Putin, gostaria de ver Trump reeleito. O republicano tem adotado um tom afável ao falar do colega russo e em algumas ocasiões deu a Putin o benefício da dúvida sobre a interferência nas eleições de 2016, chegando a contrariar relatórios da inteligência americana. Em alguns momentos, a postura de Trump beneficiou a retórica do Kremlin de que os Estados Unidos não são confiáveis. Mas não passou disso.

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No seu mandato, Trump não desistiu, por exemplo, de aplicar sanções à Rússia por causa da anexação da Crimeia e da interferência nas eleições americanas – na verdade as aumentou. Continuou dando suporte militar para a Ucrânia e adotou uma postura firme contra o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, que também está rendendo prejuízos financeiros para empresas russas.

É preciso reconhecer que a postura de Trump quanto às "guerras sem fim" e sua promessa de retirar as tropas americanas do Oriente Médio fizeram com que a Rússia consolidasse sua influência na região. Na guerra civil da Síria, com o afastamento dos Estados Unidos do conflito interno e a disposição em manter soldados no território apenas para a guerra contra o autoproclamado Estado Islâmico, o governo americano cedeu espaço para uma maior presença da Rússia no país, que acabou mudando o curso da guerra civil e garantiu a vitória do seu aliado, o ditador Bashar al-Assad, que já reconquistou quase todo o território.

Segundo Eugene Rumer, ex-oficial de inteligência nacional para a Rússia e Eurásia no Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, a influência da Rússia nos acontecimentos na Síria transformou as relações do Kremlin com os países da região. "Moscou está mostrando aos governantes da região que pode ser um parceiro confiável", escreveu Rumer para o think tank Carnegie Endowment for International Peace.

Mas o desinteresse dos americanos pelas guerras do Oriente Médio já vinha antes mesmo de Trump ingressar na Casa Branca. E nas eleições de 2020, republicanos e democratas são a favor de diminuir a presença americana no Oriente Médio.

Sanders

A plataforma do candidato Bernie Sanders, por sua vez, tende a agradar mais o Kremlin.

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Respondendo a uma série de perguntas do New York Times sobre política externa, Sanders disse que não apoiaria uma intervenção não-militar para mudar um regime, como a administração Trump tem feito no caso venezuelano ao usar sanções econômicas para derrubar o ditador Nicolás Maduro. Até o ano passado, o senador de Vermont não reconhecia Juan Guaidó como o legítimo presidente interino da Venezuela.

A Rússia, que tem muitos interesses econômicos na Venezuela e viu uma de suas companhias petroleiras ser sancionada pelos EUA por ligações com o regime chavista, ficaria mais feliz com a política de Sanders para a Venezuela, que não incluiria sanções econômicas e afastaria de vez a sombra de uma intervenção militar americana no país sul-americano.

Além disso, os Estados Unidos sob o comando de Sanders voltariam ao acordo nuclear do Irã, sem nenhuma pré-condição de negociação. A Rússia, apesar de ter se beneficiado retoricamente da saída dos EUA, não quer ver a morte do pacto que ajudou a forjar e que pavimentou a parceria comercial que o país hoje tem com o Irã.

Mas sobre os assuntos que dizem respeito à Rússia diretamente, Sanders não parece inclinado a adotar uma posição conciliadora. Na mesma entrevista ao New York Times, o candidato afirmou que a Rússia deveria devolver a Crimeia à Ucrânia antes de ser reintegrada ao Grupo dos Oito (G-8) – que devido a ausência do país virou Grupo dos Sete (G-7) – e concordou que Moscou deve ser visto até como um inimigo pelos Estados Unidos se continuar avançando contra a Ucrânia e outros ex-estados soviéticos.

Caos

No fim das contas, a principal conclusão é que se a Rússia realmente está influenciando as votações nos Estados Unidos, como no passado, a eleição de um candidato específico não é o seu objetivo principal.

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Analistas políticos afirmam que o grande propósito da Rússia é causar uma quebra de confiança no processo democrático americano e caos nas instituições políticas. Usar os nomes de Trump e Sanders, as figuras mais polarizadoras dos Estados Unidos atualmente, seria apenas a maneira mais fácil para alcançar esse objetivo.