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Descoberta Bíblica

Raro corante citado na Bíblia é encontrado por arqueólogos em túmulos romanos

Púrpura de Tiro, corante citado na Bíblia encontrado por arqueólogos.
Púrpura de Tiro, corante citado na Bíblia encontrado por arqueólogos. (Foto: Md barkat Ulla | Unsplash)

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Um fragmento de tecido foi o suficiente para confirmar algo que estudiosos suspeitavam há décadas: a púrpura de Tiro, o corante mais caro e prestigiado da Antiguidade – e citado em passagens bíblicas –, chegou a regiões remotas do Império Romano e foi usado até nos funerais de bebês.

Arqueólogos e químicos da Universidade de York, na Inglaterra, identificaram vestígios do raro corante púrpura bíblico em túmulos romanos com cerca de 1.700 anos, encontrados na própria cidade de York. A descoberta arqueológica surpreendeu os pesquisadores não só pelo que revela sobre o luxo na Roma Antiga, mas também pelo contexto em que o pigmento apareceu: envolvendo os corpos de dois recém-nascidos.

O que é a púrpura de Tiro e por que ela era tão valiosa?

A púrpura de Tiro, também chamada de púrpura tíria, era extraída de moluscos marinhos do gênero Murex. O processo era artesanal, trabalhoso e exigia enormes volumes de matéria-prima para produzir quantidades mínimas do pigmento. O nome vem de Tiro, cidade fenícia no atual Líbano, que era o principal polo de produção desse corante antigo.

O resultado era uma cor arroxeada intensa, resistente ao desbotamento e praticamente impossível de falsificar. Por isso, o tecido púrpura antigo se tornou símbolo de poder, riqueza e autoridade.

Em determinados períodos, o corante raro chegou a custar três vezes mais do que o ouro. O fato tornava qualquer peça de roupa tingida com ele um artigo absolutamente exclusivo.

Quando o corante púrpura de Tiro foi citado na Bíblia?

Para o leitor cristão, o corante da Bíblia não é novidade. A Sagrada Escritura menciona a púrpura em diferentes momentos, sempre associada a poder e distinção.

No livro de Atos dos Apóstolos (16:14), Lídia é citada e descrita como "vendedora de tecido de púrpura, da cidade de Tiatira". Ela é uma mulher de negócios que, ao ouvir a pregação do apóstolo Paulo, converteu-se à fé cristã.

Já no Evangelho de Marcos (15:17), o mesmo corante aparece em um contexto dramático: soldados romanos vestem Jesus com um manto de púrpura para zombar da acusação de que ele seria o "Rei dos Judeus", antes da crucificação. A cor, naquele contexto, era o símbolo máximo da realeza.

Como os cientistas identificaram o corante?

Os túmulos romanos encontrados fazem parte do acervo do York Museums Trust e datam do final do século III ou início do século IV d.C. Trata-se de dois bebês em caixões distintos – um de pedra, outro de chumbo – envoltos em tecidos que, segundo as análises, eram tingidos com a púrpura de Tiro e ornamentados com fios de ouro.

A identificação foi feita pelo Centro de Excelência em Espectrometria de Massa da Universidade de York, pelas pesquisadoras Jackie Mosely e Jennifer Wakefield e o que tornou-a possível foi um detalhe do ritual funerário romano: o uso de gesso líquido despejado sobre os corpos já amortalhados.

Ao endurecer, a camada funcionou como uma espécie de cápsula protetora, preservando fragmentos de tecido e resíduos químicos do corante por quase dois milênios.

O trabalho integra o projeto multidisciplinar Seeing the Dead (Vendo os Mortos), liderado pela professora Maureen Carroll, do Departamento de Arqueologia.

"Pela primeira vez, temos a confirmação do uso deste corante caro na York romana, indicando que os habitantes ricos da cidade tinham acesso a mercadorias caras e exóticas vindas do outro extremo do império", explicou a pesquisadora em entrevista à CNN.

O que a descoberta do corante revela sobre a Roma Antiga?

A presença de um corante tão raro em sepultamentos de bebês diz muito sobre quem eram essas famílias, e sobre como elas encaravam a perda. York era uma cidade romana no norte da Inglaterra, longe do Mediterrâneo e dos grandes centros produtores de luxo.

Encontrar a púrpura de Tiro ali é evidência direta de que redes comerciais sofisticadas conectavam os cantos mais distantes do Império.

Corante púrpura de Tiro, citado na Bíblia, foi encontrado por arqueólogos em túmulos romanos.Corante púrpura de Tiro, citado na Bíblia, foi encontrado por arqueólogos em túmulos romanos. (Foto: Katrin Hauf | Unsplash)

Mas talvez o aspecto mais tocante da descoberta seja outro. Há muito tempo, historiadores debatem se os romanos desenvolviam laços emocionais com bebês, dado que cerca de 30% das crianças morriam antes de completar um ano e leis antigas proibiam o luto público por recém-nascidos.

Os túmulos de York contam uma história diferente: famílias que investiram no corante mais caro do mundo, em fios de ouro e em rituais elaborados para dar aos filhos a melhor despedida possível.

"Essa descoberta notável diz muito sobre a importância das crianças na York romana e a disposição da família em dar ao seu bebê a melhor despedida possível em circunstâncias trágicas", afirma Carroll.

Um simples fragmento de tecido, preservado por acaso em uma camada de gesso, acabou revelando rotas comerciais, hierarquias sociais, práticas funerárias e afetos humanos de quase dois mil anos atrás. E trouxe de volta, com precisão química, uma cor que percorre as páginas da Bíblia e que, ao que tudo indica, também cobriu os últimos momentos de crianças que a história havia esquecido.

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