Mensagem no encerramento da fala de Zelensky ao Congresso americano reiterou pedido para zona de exclusão aérea na Ucrânia| Foto: EFE/EPA/MICHAEL REYNOLDS
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Desde o início da guerra da Ucrânia, um dos pedidos mais insistentes do presidente Volodymyr Zelensky tem sido o estabelecimento de uma no-fly zone – ou zona de exclusão aérea – sobre o céu do país.

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A medida, que seria implementada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar do Ocidente, da qual a Ucrânia não faz parte, é apoiada por cerca de 74% dos americanos, segundo uma pesquisa da Reuters, e defendida pelo embaixador em Kiev da Polônia, integrante do grupo.

“Cada dia de atraso custa centenas de vidas humanas. Há uma extensão do conflito, que poderia ser encerrado muito mais rápido precisamente graças ao fechamento do espaço aéreo”, declarou Bartosz Cichocki.

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Um grupo de especialistas de diferentes países também divulgou uma carta aberta defendendo a implementação da zona de exclusão aérea. “Os ucranianos defendem corajosamente o seu país e sua liberdade, mas precisam de mais ajuda da comunidade internacional. Uma zona de exclusão aérea imposta pelos Estados Unidos e pela OTAN para proteger corredores humanitários e meios militares adicionais para a autodefesa ucraniana são desesperadamente necessários, e agora”, escreveram.

Em mensagem ao Congresso dos Estados Unidos, o tom de Zelensky na requisição da medida beirou o desespero. “É pedir muito, criar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia para salvar as pessoas? Isso é pedir demais? Uma zona de exclusão aérea humanitária, para que a Rússia não pudesse aterrorizar nossas cidades livres?”, pediu o presidente ucraniano.

O que é uma zona de exclusão aérea?

O analista militar e coronel da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho explicou à Gazeta do Povo que, numa guerra, há normalmente dois níveis de controle do céu: a supremacia aérea e a superioridade aérea.

“A grosso modo, o nível da supremacia aérea é quando um lado tem total domínio de um espaço aéreo, somente as suas aeronaves conseguem voar, a [defesa] antiaérea inimiga não está sendo efetiva, as aeronaves inimigas também não, então você voa sozinho. Com isso, você pode bombardear todas as posições inimigas naquele espaço aéreo. No nível da superioridade aérea, há superioridade em determinado local por determinado tempo, é um nível mais baixo de controle do céu”, detalhou.

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Paulo Filho afirmou que o pedido da Ucrânia é que as aeronaves da OTAN sobrevoem o espaço aéreo do país de modo a garantir supremacia aérea, para impedir que qualquer aeronave russa voe no céu ucraniano e bombardeie cidades e alvos.

“Há alguns dias, por exemplo, vimos o lançamento de um míssil hipersônico, o Khinzal, ele foi lançado de um avião, um MiG-31. Se houvesse uma supremacia aérea, uma no-fly zone, aquela aeronave não teria conseguido voar sobre os céus ucranianos. A Rússia só conseguiria lançar um míssil de fora do território ucraniano”, disse o especialista.

Ele destacou que a OTAN tem reiterado a inviabilidade de estabelecer essa no-fly zone porque a interdição do espaço aéreo às aeronaves russas poderia representar uma escalada no conflito.

“Haveria um risco muito grande de um enfrentamento entre uma aeronave da OTAN e uma aeronave russa. E isso é o que o presidente [americano, Joe] Biden já falou mais de uma vez que não quer fazer, porque quando Estados Unidos e Rússia trocam tiros, significa que é a Terceira Guerra Mundial, nas palavras dele”, apontou Paulo Filho.

Rússia seria primeira potência nuclear sujeita a uma zona de exclusão aérea

Em artigo publicado no site The Conversation, os especialistas em assuntos de segurança nacional Christopher Michael Faulkner e Andrew Stigler, ambos da Naval War College dos Estados Unidos, alertaram que uma zona de exclusão aérea na guerra da Ucrânia seria a primeira imposta pelos americanos durante um conflito internacional e a primeira imposta a uma potência nuclear.

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“Esses dois fatores criariam um nível incomum de grave risco para a escalada da guerra”, argumentaram.

Faulkner e Stigler também questionaram a efetividade da medida, já que a Rússia tem privilegiado ofensivas terrestres na Ucrânia e lançado a maioria de seus ataques aéreos a partir do seu próprio espaço aéreo, e lembraram que uma no-fly zone pode propiciar erros (dos dois lados) que também poderiam levar a uma escalada militar.

Eles citaram o exemplo de dois caças F-15C dos Estados Unidos que abateram por engano dois helicópteros americanos UH-60 Black Hawk em abril de 1994 na zona de exclusão aérea iraquiana estabelecida durante a Guerra do Golfo, em 1991. Todos os 26 ocupantes dos Black Hawks (15 americanos e 11 oficiais de outras nacionalidades) foram mortos.

“O ataque acidental, com céu claro e comunicações funcionando, foi o resultado de uma série de erros de identificação e mal-entendidos. Essa tragédia ocorreu fora de qualquer zona de combate ativa, em circunstâncias inteiramente sob controle americano, e depois que os militares dos Estados Unidos tiveram três anos para praticar e aperfeiçoar os procedimentos para manter a zona de exclusão aérea do Iraque”, afirmaram os especialistas, citando que as circunstâncias seriam muito mais difíceis numa área de “combate brutal” como a da guerra da Ucrânia.

“Não é exagero dizer que muita coisa pode dar errado”, alertaram.

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]